Sábado, 31 de Outubro de 2009
Rogério da Costa Pereira

O ai-jesus de Pacheco Pereira - o próprio Pacheco Pereira - continua a estrebuchar com a derrota de que foi o principal (único?) obreiro. Como o desespero vai de cornos aos limites, diz Pacheco que Miguel Relvas "escreve com mão alheia uma parte importante das "notícias" do Diário de Notícias sobre esta matéria [esta matéria?]"; fala de um email roubado ao Público [pelo DN?]; acusa o DN de permitir que Relvas escreva um editorial (em português é isso, não é?) - venha o exceptio veritatis. Tudo vale. Ande Pacheco o que andar, uma coisa ninguém lhe tira: ele é o homem de quem já não se voltará a falar. Gastou a última oportunidade e sabe-o (vivam agora a biblioteca e as estórias dos comunismos). No meio disto tudo, ainda que despiciendo - porque da quadratura não passará -, fica a curiosidade: parece que a "eterna esperança" (dele próprio, entenda-se) apoia Marcelo. Vale a pena rir, que tudo se vê nos tempo das vacas voadoras. Giro giro seria esta espécie de candidato a Ferro de Salazar (mutatis mutandis ao PSD actual) desistir de ser o ideólogo que ninguém quer e ir além da da marmeleira que o acolhe. Anda Pacheco, vai lá tu!


Palmira F. Silva

Num dos posts sobre a controvérsia Saramago que a Fernanda tão bem resumiu, uma das nossas leitoras interpelava-me sobre «a lógica de celebrar datas cujo fundo seja, mais ou menos veladamente, religioso», pensando, erradamente, que a maioria das celebrações de solstícios, equinócios, colheitas, etc.,  que se celebram um pouco por todo o mundo são propriedade da Igreja.

 

O último número do l'Osservatore Romano, o jornal oficial do Vaticano, talvez seja a melhor ilustração de que isso não é verdade, ou seja, de que boa parte das festas inscritas no calendário «santo» não passam, como inúmeras outras coisas, de apropriação pela igreja de celebrações muito anteriores, fortemente enraizadas nas tradições populares e difíceis de erradicar.

 

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No post sobre azeitonas que dediquei à nossa Alexandra, referi o esqualeno, o triterpeno de propriedades tão benéficas que quasi levou à extinção do tubarão, em cujos bons fígados se encontra em grande quantidade.

 

Qual foi o meu espanto quando, embora volta e meia com uma grafia errada, descobri que o esqualeno é o responsável por uma onda de alarmismo que varre não só o nosso cantinho mas outras paragens a propósito da vacina da gripe A. De facto, o esqualeno, assim como o α-tocoferol (a forma mais comum da vitamina E antes que o nome desencadeie outra onda de pânico),  faz parte do adjuvante da vacina produzida pela GlaxoSmithKline.

 

Explorando a ignorância química da população em geral, uns vendedores de banhas da cobra "alternativas", um tal de "Dr."  Mercola em particular, resolveram  aproveitar a ocasião para promover as suas charlatanices e lançar boatos, que se espalharam rapidamente, sobre as supostas mazelas que o esqueleno provocaria, de artrite a lupus passando pela encefalomielite auto-imune experimental (EAE) não esquecendo a síndrome da Guerra do Golfo, que, de acordo com os charlatães, seria devida ao esqualeno da vacina contra o antrax (por acaso e apenas por acaso, não utilizado nesta vacina).

 

Saiba mais sobre as charlatanices... )

Hoje é lançado, em Lisboa, o livro Caim. É o que diz o convite, aliás bonito, que a Caminho enviou aos media. "A sessão terá presença do autor e a entrada é livre", esclarece. Bom, confesso que julgava que o livro já tinha sido mais que lançado, tanto que tenho ouvido falar dele. Apesar da tomada de posse de um novo Governo, do início da vacinação da gripe A e daquelas coisas todas (desemprego, dívida externa, crise económica, défice) que são sempre alegadas como os únicos assuntos aceitáveis quando alguém fala por exemplo de casamento das pessoas do mesmo sexo - embora, por acaso, sejam exactamente os que passam a vida a dizer que esse assunto não devia "consumir energias" aqueles que mais energia gastam, da deles e da dos outros, a clamar contra ele -, Saramago parece ter sido o grande tema da última semana e meia.

 

Chego, pois, atrasada à discussão e sem grande vontade de me meter nela. Porque é recorrente, porque é repetida (já tinha sucedido até com Saramago) e porque é desinteressante. Saramago leu a Bíblia ou partes dela e caracterizou-a como horrível, disparatada e perigosa. E escreveu-o. E publicou-o. E chamou uns nomes ao deus da Bíblia. E depois? Depois apareceu uma série de gente ofendidíssima, como é costume de cada vez que alguém faz críticas aos chamados "livros sagrados", às divindades (ou melhor, à ideia da sua existência ou à representação das mesmas nos livros e nos discursos, já que só quem acredita em divindades as critica) ou aos "profetas". Até aqui tudo normal - milagre será o dia em que "autoridades religiosas" assistam com serenidade a opiniões diferentes das suas e que crentes mais tresloucados não apelem à guerra santa, seja sob a forma de pena de morte, como sucedeu com Rushdie, ou de "desnacionalização", como ocorreu a um eurodeputado de nome David.

 

Mas desta vez apareceu também gente que, não sendo religiosa, verberou Saramago pela sua "leitura literal" , por "defender a censura" e até, pasme-se, pela sua parca escolaridade. Se calhar é altura de dizer que não sou admiradora nem da personalidade nem da obra de Saramago e que ser ateia não me coloca sempre em concordância com outros ateus, tal como ser católico ou islâmico não implica concordar com todos os católicos ou islâmicos (óbvio, não?). Mas não vejo o problema. A Bíblia é um conjunto de textos escritos ao longo de mil anos? É. Não é para ser lida literalmente? Por amor de deus, não. Se calhar é mesmo isso que Saramago está a dizer quando a ridiculariza - só pode estar a dizer isso, porque, é sabido, Saramago não crê.

 

É que das duas uma: ou vemos aquilo como "a palavra de Deus" e portanto pode ser interpretado e decomposto por Saramago como lhe aprouver (só o tal deus sabe o que queria dizer) ou vemos aquilo como um conjunto de textos escritos por gentes diversas e Saramago pode interpretar e decompor como lhe apetecer (só quem escreveu sabe o que queria dizer e já cá não está para explicar). Alegar autoridade, eclesiástica ou académica, a propósito das opiniões de um escritor sobre textos escritos por pastores, pedreiros e soldados que têm sido apresentados durante séculos como ventríloquos de divindade é que é uma coisa um bocadinho disparatada. Ou não?

 

(publicado ontem no dn)


(com muito respeito pelo outro obviamente)

*


* eheheheheh carregue logo no primeiro da página e verifique que... no creo en brujas, pero que las hay, las hay

(obrigada Pedro pela dica)
 

Ana Vidigal

Oooops, esqueci-me do Trick or Treat


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