Terça-feira, 3 de Novembro de 2009
Maria João Pires

Dia 28 de Novembro do ano passado muitos blogs assinalaram o centenário de  Claude Lévi-Strauss. O Jugular não foi excepção e para tal usei o Réflexion Faites, um conjunto de entrevistas, realizadas em 1988,  a Lévi-Strauss e a outras personalidades de várias áreas do saber (Jacques Le Goff, Pierre Bourdieu, etc.) que nos ajudam a pensar a importância de Lévi-Strauss e do estruturalismo.

 

Hoje, quando somos informados da sua morte, vale a pena voltar a ouvi-las.

 

 

Adenda: via Joana Lopes "acede-se a todos os artigos de um número especial da revista Sciences Humaines, publicado em 2008 por ocasião do 100º aniversário de CL-S, e que foi posto hoje online em jeito de homenagem"


isto é consigo )

"The inability to see the advantages of close state-business relations is the blind spot of modern economic liberalism. Just look at how the search for the causes of the financial crisis has played out in the US. Current conventional wisdom places the blame squarely on the close ties that developed between policymakers and the financial industry in recent decades. For textbook liberals, the state should have kept its distance, acting purely as Platonic guardians of consumer sovereignty.

But the problem is not that government listened too much to Wall Street; rather, the problem is that it didn’t listen enough to Main Street, where the real producers and innovators were. That is how untested economic theories about efficient markets and self-regulation could substitute for common sense, enabling financial interests to gain hegemony, while leaving everyone else, including governments, to pick up the pieces."

 

Dani Rodrik, Project Syndicate

 


Ontem passei os olhos por aqui e fiquei a saber que o colégio que frequentei entre os 3 e os 14 anos ficou este ano no topo do ranking das escolas. Cada pessoa é um mundo. Cada pessoa tem a sua experiência. Os pais são livres, naturalmente, de escolherem a escola dos seus filhos. Mas nem sempre os filhos, quando são pequenos, bastante pequenos, contam aos pais o que os amedronta. Lembro-me da provocação do C. Hitchens ao perguntar se a religião é abuso de menores. Às vezes é. No Mira Rio onde cresci, nunca ouvi falar de um deus misericordioso, de um deus pai, nunca ouvi falar de amor. A religião foi-me essencialmente incutida por duas vias: a via dogmática, que se traduzia em muito cedo já saber declamar as provas extra-bíblicas da existência de cristo; e a via do medo, esta muito eficaz, porque o pecado, venial e mortal, nas suas consequências, se não sanados, eram ilustrados até à náusea. Insistia-se bastante no limbo, mas, sobretudo, e este é o aspecto fulcral do meu Mira Rio, havia uma atenção doentia, por parte do colégio e do preceptorado, aos pecados da carne. De resto, os sacerdotes do opus dei ajudavam no terror. A primeira aproximação que tive às consequências do fenómeno do desenvolvimento (futuro) do meu corpo e da minha cabeça pecadora foi a explicação de que o dito corpo era o templo do espírito santo. Ora, o templo não pode sentir o que quer que seja. Isto foi terrivelmente explorado ao ponto de ser convocada uma reunião com a directora do colégio no dia em que a mesma entendeu que nós, a minha turma, já teríamos sido visitadas por um acontecimento que inicia fatalmente a inclinação para o pecado da carne, de resto bastante provocado por uma espécie que nos era estranha - os rapazes. Esse acontecimento era a menstruação. Sim, ele foi-nos explicado em associação com o pecado. A tarde estava amena, eu era muito pequena, mais do que as outras, e pela primeira vez na vida percebi a dor da diferença. É que eu ainda não era menstruada. Eu nunca tinha pensado em sexo. Quando a directora desatou a falar no fenómeno sanguinário, no pecado, na gravidez fora do santo matrimónio, na propensão masculina para nos atrair para o pecado, senti-me uma ilha e, claro, comecei, nesse dia, a pensar em sexo. Na confissão, precedida de uma lista de presença pública semanal, recebíamos uma folha com os dez mandamentos e para cada um sugestões de pecados. Assim, o nosso exame de consciência seria induzido e mais completo. No sexto mandamento, o fatídico da castidade, perguntava-se, por exemplo: demoro-me, no banho, a contemplar o meu corpo? Lembro-me de ser muito nova e de pensar demoradamente nesta pergunta. Lembro-me de tomar banho em dois minutos para não pecar. E lembro-me de pensar demoradamente noutras perguntas do mesmo calibre. Tal como na inquisição, a sugestão é tão minuciosa que a criança acaba por acreditar que fez aquilo, mesmo que o não tenha feito, e que se o fez cometeu o tal pecado digno do fogo que a virgem maria fez a graça de mostrar aos três pastorinhos e que a professora nos deu a ver ilustrado num desenho. O sacerdote fez-me perguntas de uma minúcia que nunca vi, como advogada, serem feitas em tribunal. O meu corpo, o corpo de uma criança, foi escrutinado atrás de uns quadradinhos de madeira, o confessionário. Havia também a professora sofia, que depois de uma asneira grande que fiz com 9 anos, vendo-me comungar, me levou para uma sala fechada e explicou-me que eu recebera do corpo de cristo em pecado mortal. Convenceu-me, sem apelo nem agravo, de que estava condenada ao inferno. Passei muitas noites da minha quarta classe a adormecer com medo, com uma ideia da esperança de vida, tendo a minha por inútil, já que fatalmente condenada ao inferno. A professora sofia torturou-me de muitas outras maneiras. O ensino era bom? Sim. Havia professoras boas?  Sim. Havia boas pessoas? Sim. Fiz amigas e apesar de tudo, com elas, recordações felizes? Claro. Mas às vezes a religião é abuso de menores. Este é apenas uma parte do meu relato pessoal. Não é um relato de ensino de sucesso. Aos 14 anos fui para a escola pública. Fiquei em choque durante um mês. Descobri rapazes, pobres,  ateus, conflitos sociais e debate livre de ideias. Ao mesmo tempo, descobri outros católicos. Católicos que me falaram pela primeira vez em amor em vez de pecado, em perdão em vez de castigo, em fazer em vez de apenas rezar. Descobri, com esses católicos, a acção social. Descobri que há um deus de todos que a todos ama e que a todos aceita. Na verdade, um pai, que nunca, por natureza, renega um filho. Foi assim. na escola pública, no meu Rainha Dona Amélia, que não ficou no topo do ranking das escolas, que me deram a dimensão de pessoa.  Mais tarde disse adeus a deus. Mas sem mágoa, porque foi de outro deus que me despedi.


Rogério da Costa Pereira

A oposição quer governar em maioria absoluta. É isso, não é? Coisas de uma democracia fresquinha.


"The Palestinian public learned on Saturday that even the darkest hope of Palestinian President Mahmoud Abbas and his comrades has gone the way of all his predecessors. Why should Hamas stick its head into a government that isn't even capable of getting the Americans to pressure Israel to freeze the settlements for a few months? All they have to do is wait until election day in the territories when Netanyahu will hand over hundreds of prisoners in return for captured soldier Gilad Shalit. The important thing is that there will be no preconditions.

If Hamas lacked a reason to reject the initiative for reconciliation with Fatah and wait patiently for another round of the "peace process" to go the way of its predecessors, and have the West Bank return to its bosom, then Mrs. Clinton supplied just such a reason, in a big way."


"It's not peace , Madam Secretary", artigo de Akiva Eldar no Haaretz, um jornal Israelita menos "amigo de Israel" do que os acríticos (e irresponsáveis) amigos portugueses


"But can we afford to do more? We can’t afford not to."

 

Paul Krugman

 


"Creio que a oposição ainda não percebeu que acabaram as facilidades para a oposição. É fácil clamar contra a maioria absoluta, mas ela protege os partidos da oposição na sua própria irresponsabilidade. Votar aquilo que lhes parece mais popular num dado momento, sem que isso tenha quaisquer consequências, por se poder imputar toda a responsabilidade ao partido maioritário, é um truque que deixou de funcionar. Quando o voto da oposição pode "governar" o país, bloqueando medida após medida, a coisa pia mais fino. A vida está hoje mais complicada para a coligação negativa que funcionou nos últimos anos com o mero fito de dificultar a governação.


É a essa realidade nova que a oposição custa a habituar-se. Como a oposição não percebeu isto, ainda, queria que fosse o PS a fazer o trabalho dos outros partidos: queria que fosse o PS a assumir, não apenas a sua parte, mas também a parte dos outros partidos, e talvez também a parte do mediador. A oposição queria que o PS apresentasse um programa de governo negociado - sem o ter negociado, por falta de parceiros. A oposição queria que o PS apresentasse um programa de um governo de coligação - sem coligação. A oposição queria desnatar o programa de governo mais votado pelo eleitorado - sem mexer um dedo para discutir o como e o por quê. Isto é o que significa esta reacção das oposições (...)

 

Assumir as responsabilidades é, por vezes, doloroso. É bom que a oposição se habitue a isso. Por que é no Parlamento que vão jogar-se os argumentos e os votos, agora que tudo isso tem muito mais peso e gravidade na realidade da governação. Uma gravidade de que esta oposição já se tinha esquecido. Ficar sentado à espera que o artista em palco se espalhe, para depois vender os cacos pelo melhor preço, deixou de ser a opção simples para uma oposição que só saiba repetir o apelo ao diálogo para esconder a sua própria rigidez. Chegou o momento de saber onde está verdadeiramente a arrogância..."

 

Porfírio Silva, Regra do Jogo


* Foi com este título que o Rui Bebiano me fez conhecer esta asquerosa história, que se conta facilmente. "Pu-taaa! Pu-taaa! Pu-taaa! Cerca de 700 alunos da Uniban, Universidade Bandeirante de São Paulo, campus de São Bernardo, pararam as aulas do noturno para perseguir, xingar, tocar, fotografar, ameaçar de estupro, cuspir. Tudo isso contra uma aluna do primeiro ano do curso de turismo, 20 anos, 1,70 metro, cabelos loiríssimos esticados e olhos verdes, que compareceu à escola em um microvestido rosa-choque, pernas nuas com pelinhos oxigenados à vista, salto 15, maquiagem de balada, na quinta-feira da semana passada (22).".

Leio esta descrição ou vejo as imagens e, para além do profundo desconforto que sinto, inquieto-me porque, mesmo "descontando" o factor de contaminação grupal, isto diz muito sobre quão frágeis e precárias são as diferenças "civilizacionais" que andam sempre a ser apregoadas por aí.


João Galamba

O Henrique tem toda a razão em relação à Justiça, mas o seu liberalismo erra em tudo o resto. Precisamos de melhor Estado, mas isto não implica necessariamente menos Estado. Alguma direita acha que aumentar a competitividade da economia e criar condições para o investimento privado  implica liberalizar mercados e estimular a concorrência. É a velha dicotomia liberal Mercado vs. Estado. Mas ideia de que o Estado se deve limitar a ser um simples regulador de mercados é redutora e simplista — e é sobretudo ideológica, no mau-sentido do termo, isto é, na medida em que recusa uma visão complexa da realidade refugiando-se em generalidades vagas e sem conteúdo. Pouco interessa que, sem investir na qualificação dos portugueses, sem investir em infra-estruturas que reduzam os custos de perifieria do país, sem um vigoroso investimento em I&D, seja pouco expectável que se queira investir em Portugal — e não interessa que o papel do Estado, em algumas destas áreas — Flexibilizar não é necessariamente sinónimo de desregular ou liberalizar. É verdade que precisamos de menos Estado em certas áreas; mas tambem é verdade que não podemos generalizar e transformar isto numa cartilha cega e numa regra universal. Por exemplo, fala-se da necessidade de exportar sem perceber o que significa ter um sector exportador competitivo, isto é, sem perceber que não basta baixar custos— coisa que o PS também tem feito, nomeadamente através da simplificação administrativa— mas tambem implica requalificar o tecido produtivo português, abandonando a matriz tradicional da competitividade associada à mão de obra barata. Mas isto não será feito sem investimento, parte dele público, e sem políticas públicas activas que escapam ao cânone liberal. A discussão que interessa não é de mais ou menos estado, mas sim: que tipo de intervenção do estado, que será necessariamente plural e diferenciada. Mas os liberais nao gostam dos detalhes e preferem o absolutismo dicotómico do Mercado vs. Estado. Para os liberais, não fora a intervenção do Estado e Portugal seria um caso de sucesso. Não deixa de ser uma receita simples; mas é errada, porque cega. Achar que requalificar implica — exige— sempre menos Estado é uma ilusão. A discussão é longa, e não será feita neste post. Mas uma coisa é certa: enquanto alguns insistirem em diabolizar o Estado e a santificar uma entidade mítica chamada "Mercado" ou "iniciativa privada", enquanto não se perceber que existe complementaridade entre público e privado, a discussão é estéril.


João Galamba

a saber que a oposição gostava que o PS tivesse apresentado um programa de governo que reflectisse aquilo que a oposição julga ter sido o significado destas eleições, isto é, suponho eu, um programa que incluísse 36% de propostas do PS, 29% do PSD, 12% do CDS, 10% do BE e 8 do PCP —  para além do facto do PS ter vencido as eleições, este é o único significado que podemos dizer decorrer directamente das eleições.

 

Para a oposição a atitude de diálogo e negociação deve preceder o diálogo e a negociação propriamente ditos. Tendo em conta que o debate ainda não aconteceu — e só vai acontecer em sede própria: no parlamento —, estavam à espera exactamente do quê?


"o ressabiamento contra o director que agora saiu é notório e fica mal a quem lhe sucede"

 

Gabriel Silva comentando a mudança de Direcção do Público

 

Alguém me sabe explicar porque é que fica mal a direcção do Público ter sentido a necessidade de se distanciar da antiga? Será assim tão difícil de perceber que não foram só os apoiantes de Sócrates que se sentiram incomodados com o rumo da direcção de José Manuel Fernandes? Será assim tão difícil de perceber que o maior problema de JMF não é a sua ideologia mas sim a forma como se esqueceu dos princípios que devem orientar a actuação de um jornalista e de um jornal?

 

Um jornal não é uma mercadoria qualquer; um jornal desempenha uma papel fundamental na vida democrática de um país. JMF falhou enquanto director pois não soube estar à altura da responsabilidade que se exige, que se deve exigir a quem está à frente de um jornal de referência. O primeiro editorial da nova direcção do Público não diz que vai ser brando com o governo, nem que vai ter qualquer tipo de agenda política. Num certo sentido, o editorial limita-se a dizer o óbvio: o Público vai voltar a ser um jornal. É tudo.


Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Fernanda Câncio
Gonçalo Pires
Inês Meneses
Irene Pimentel
Isabel Moreira
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão
Maria João Pires
Miguel Vale de Almeida
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Rogério da Costa Pereira
Tiago Julião

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