Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

querido valupi, quem é que quer calar os membros da igreja católica?


não sei se já escrevi este post. andei anos a pensar escrevê-lo. em post, em carta, em telegrama, em artigo, em entrevista. é possível que tenha hesitado de mais. é possível que tenha soçobrado à impressão de que não tinha nada de facto para perguntar ou elaborar sobre ele. que estava, ou me sentia, demasiado próxima -- e que isso, que não me impediria de fazer um bom trabalho (não é, nunca é, por aí, pelo contrário) me deixava, como se diz em brasileiro, 'sem jeito'.

 

resumindo: este homem significava demasiado para mim para correr o risco de fazer figura de ursa a falar dele ou com ele. era aliás um pouco diferente de um homem: era uma voz, uma intensidade, uma revelação. durante meses -- anos? -- segurou-me e assegurou-me. ouvir todos os dias o som da frente, que passava muito tarde na rádio comercial, era um ritual inabalável. gravar cassetes, ligar a participar nos concursos para entendidos  -- e que orgulho quando os ganhava, quando fui à rádio comercial buscar os prémios(um era o big science, da laurie anderson) --, nas votações das 'melhores canções de amor e ódio' (ganhou o wild thing, versão da siouxsie and the banshees), nisto e naquilo.

 

portugal era muito, muito diferente. aquilo que antónio sérgio passava no seu programa não estava acessível de outro modo. e aquilo que ele passava num programa à meia noite foi -- é tão difícil explicar isto a quem tem hoje 18 anos -- fundamental para um processo de formação identitária de uma série de pessoas, entre as quais me conto (as outras conheci depois, e esse conhecimento aconteceu também em consequência da música). um processo de descoberta de um mundo do qual nos sentíamos parte e que se traduzia em bandas, vozes, guitarras. uma espécie de revolução cultural, estética e filosófica semi clandestina que fez gente de todo o país sentir que algures havia alguém que sentia, via e queria dizer exactamente o mesmo que sentíamos, viamos e queríamos dizer.

 

gostava de ter dito isto a antónio sérgio alguma vez -- o quanto ele foi importante para mim e o quanto ainda sou hoje e provavelmente serei sempre uma consequência daquilo que me deu a ouvir noite atrás de noite -- mas nunca fiz a oportunidade. agora passou.

 

gostava de lhe dizer que foi ele que pela primeira vez me deu a ouvir isto, e depois tudo o que isto implicava (a história da banda que são os new order e as canções da banda que lhes deu origem). e que esta é ainda, tantos anos depois, uma das minhas canções favoritas -- como a voz dele. heaven knows it's got to be this time.

 

 

adenda: ler

isto


João Pinto e Castro

 

 

O Barómetro Político da Marktest mostra que o optimismo dos portugueses em relação à situação económica própria e do país tem crescido de forma consistente desde Maio de 2008. Não admira que vocês nunca tenham ouvido falar disto.


Os bonecos da Ana Vidigal fizeram-me ter vontade de verbalizar aqui algo de que me tenho apercebido com maior intensidade nos últimos dias. A discussão sobre o acesso ao casamento civil pelos homossexuais tem feito com que nunca, como agora, se fale tanto em homossexualidade no espaço público mediático. Há um fenómeno curioso e estranho que é recorrente, os adversários da coisa falam sempre de homossexuais masculinos, quase como se não existisse homossexualidade feminina. A "invisibilidade lésbica" é, desde há muito, um tema muito debatido em certos círculos mas - e parece-me que não estou enganada - perfeitamente esquecido nas discussões mainstream.


Estas pessoas, de mãos dadas com a igreja, quando, como bem refere a Fernanda, só após as eleições, vêm propor o referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, não são democratas. São como as crianças com mau-perder.

Vamos ver os argumentos dos amuados um a um:

1) Ribeiro e Castro defende a tese de que "os socialistas não podem legislar como se tivessem ganho as eleições com maioria absoluta".

A contrario, imagina-se, havendo maioria absoluta, não é necessário o banal instituto do referendo. Acontece que para além de a tese se basear numa afirmação demagógica sem objecto, que vale para qualquer matéria, quem legisla, nesta matéria,  não é o Governo, é o Parlamento. O casamento entre pessoas do mesmo sexo constava de vários programas eleitorais e tem o apoio da maioria parlamentar. Pedimos desculpa, Ribeiro e Castro, mas a democracia representativa, que é aquela em que vive, funciona assim.

2) "A família é anterior ao Estado e creio que o Estado não tem legitimidade para se atravessar no domínio da família, alterando definições que são matriciais".

blá, blá, blá, blá....já se discutiu isto em uma dezena de debates televisivos, em jornais e nas rádios. Quando o casamento entre pessoas do mesmo sexo constava de programas eleitorais que vieram a ser sufragados pelo povo por que é que o CDS pela voz de Ribeiro e Castro não disse isto? Pode ser um disparate, desde logo jurídico, mas por que é que não disse que ignorava que o que é anterior ao Estado é a união de facto e não o casamento civil que tem século e meio, que só existe casamento precisamente através do Estado, que o Estado não tem feito outra coisa, graças a deus - concedo-lhe a expressão -, senão atravessar-se neste domínio, acabando com a impossibilidade do divórcio entre católicos, revogando a figura do chefe de família, pondo fim à posição de inferioridade da mulher no casamento, facilitando o divórcio, por que é que não disse nada disto em período de campanha?

Nada foi dito porque estas pessoas nesta matéria têm revelado um sentido tão medíocre de democracia que aflige. Perdem e lançam mão do referendo, não por quererem que o povo seja chamado a pronunciar-se, o que já foi feito, mas como último recurso a ver se impedem esta aberração.

O argumento de Francisco Assis é tosco. O facto de o referendo ser pouco participado é irrelevante. O que interessa sublinhar é que nós vivemos em democracia representativa. É essa a regra. Votamos, e votámos, tendo em conta nomeadamente as propostas de lei, como esta. Cabe aos nossos representantes fazer isso: representarem-nos.

O referendo é um instituto absolutamente excepcional que  devolve a decisão política, num momento concreto, aos cidadãos. Não serve, certamente, para decidir acerca de direitos fundamentais de minorias. Isso é totalitário. As minorias, como os negros e as mulheres, conquistaram os seus direitos nos Tribunais e e através da Lei, que dá sinais de avanço civilizacional à sociedade.

Há quem me tenha perguntado: então por que é que houve um referendo à despenalização da IVG? Nesse caso, houve um acordo político prévio nesse sentido, por um lado. Por outro lado, em termos constitucionais, há um conflito entre a necessidade de protecção de um bem - a vida humana - e outro bem - a liberdade da mulher, para simplificar. Não há um direito fundamental ao aborto. Havia esse conflito. Claro que o parlamento tinha legitimidade para aprovar a lei, mas a questão do referendo tinha subjacente um conflito de bens que aqui não existe. Temos, de um lado, o acesso ao casamento civil por parte de pessoas do mesmo sexo e, do outro lado, em conflito, que bem constitucional?

Absolutamente nenhum.


João Galamba

"Lévi-Strauss interessou-se sobretudo pelo aspecto estético do conhecimento e por aquilo que podemos talvez chamar a "estética do social". Uma tal concentração teve como consequência um relativo desinteresse pela questão da auto--instituição do sentido social: aparentemente, tudo o que há são combinações de signos, no interior de um número finito de possibilidades. Os homens "são pensados" por essas combinações de signos, "os mitos pensam-se entre si". Como escreveu Claude Lefort, em "Écrire, à l'épreuve du politique", criticando o programa estruturalista em antropologia, o que falta a uma tal concepção é sem dúvida a ideia de que "uma sociedade se define, se refere a si mesma, através de uma experiência singular do ser e do tempo". No entanto, apesar de uma célebre crítica a Sartre sobre a ilusória inteligibilidade do sentido histórico, Lévi-Strauss não ignorou a questão do sentido do social. Apenas que nele ela se encontrou sempre subordinada a uma maneira de pensar estética que nunca abandonou."

 

Paulo Tunhas sobre Levi Strauss, publicado no jornal i


"Profit and capital gains may look much the same to the individual bank – a stream of revenues – but they have different macroeconomic consequences. Lending to the real sector is self-amortising: it creates a debt, but also the value-added to repay principal and interest. Such loans enlarge the economy in proportion to the debts created and are financially sustainable. By contrast, loans to create or buy financial assets and instruments are not, by themselves, self-amortizing. In a credit boom, successive owners may sell the asset at a profit, but their buyers will have to shoulder proportionally more debt in order to acquire the asset, balanced (for the time being) by the asset’s value. Asset trading may be individually profitable; but it is a zero sum game, sustainable only if the real economy furnishes enough money to support the rising debt burden. Beyond a point, the lure of capital gains diverts funds from real-sector investment, and households’ rising debt-service cuts demand for real-sector output. In both ways, excessive growth of financial asset markets is self-defeating.

 

(...)

 

A promising policy avenue is tax reform. During the asset boom of the last decades, taxes on capital gains in the US, UK and most other OECD economies have fallen sharply relative to value added tax and labour taxes. When the banks have recovered, they need a regulatory and policy climate that discourages the pursuit of capital gains for their own sake, and which favours growth of the real economy. Finance should be the economy’s handmaiden, not the other way round."

 

In this perspective, it is beside the point to focus on exorbitant bonuses or financial democracy.(...) Likewise, enthusiasm about the rally in asset markets (even as the real economy continued to contract) shows how widespread the confusion between the financial sector and the real economy is. The priority now is not to revitalise asset markets, but to transform a bloated and dysfunctional financial sector towards one that supports the real economy in a sustainable and cost-efficient way.

Martin Wolf, artigo publicado no Financial Times

 

A resposta a uma crise não pode passar apenas por tentar garantir a sobrevivência do que existe, pois, ao contrário de uma calamidade natural, uma crise não é simplesmente algo que nos acontece, um choque exógeno; nós também estamos implicados nos processos que lhe deram origem. Mas quem tem mais responsabilidade é o Estado, pois é este que determina o contexto onde os diferentes agentes fazem as suas escolhas (num cenário de globalização não é assim tão simples, mas enfim...). Combater a crise é, por isso mesmo, simultaneamente uma emergência (curto prazo) e um desafio existencial. (longo prazo) , que impiica aprender com o que aconteceu e tirar daí as devidas consequências. A financeirização da economia —que desvia recursos da economia real — é um problema grave que não se resolve sem coragem e determinação política (e também requer coordenação  internacional, mas isso é outra história) Mais do que injectar liquidez, conceder linhas de crédito, garantias e afins, em suma, mais do que injectar dinheiro, é preciso alterar a estrutura de incentivos que promove certo tipo de práticas e de investimentos.  Mais do que acudir — a bancos mas também a pessoas e a empresas — importa procurar transformar as dinâmicas que tornaram esta crise inevitável. Não será fácil, mas é necessário. E o que é necessário tem de ser possível. A ideia de progresso — um dos pressupostos da Modernidade em que (ainda) vivemos— assim o exige. 


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