e finalmente o dia chegou
Imaginem um país onde alguns investigadores se dedicavam a perseguir pessoas em vez de inquirirem crimes. Imaginem, além disso, que eles faziam sistematicamente chegar aos jornais informações seleccionadas alegadamente recolhidas no decurso dessas devassas.
Considerem ainda a possibilidade de comentaristas cúmplices ou imbecis exigirem com grande alarido nas televisões a demissão dos arguidos ou meros inquiridos titulares de cargos públicos. E suponham que cada vez mais pessoas começavam a aceitar a ideia de que a regra se deveria estender a gestores de empresas privadas.
Para completar o retrato, fantasiem que o processo era apoiado e instigado por sindicatos de magistrados.
Decorre daqui com a brutalidade de uma dedução lógica que esse país não poderia ter governantes ou dirigentes que não fossem previamente aprovados pelos tais investigadores.
"Oceana III + PSP" (fotografia Egas José Vieira)
Penso que não exista em português uma palavra para traduzir «delusion», uma falsa crença arreigada que é mantida apesar de todas as evidências em contrário. Pelo menos, o livro «The God Delusion» de Dawkins foi traduzido, suponho que por falta dessa palavra, por «A Desilusão de Deus», um título que não traduz de facto o que pretende o livro.
A palavra delusion é muito utilizada, em meios anglo-saxónicos, para descrever a sintomatologia de uma série de patologias do foro psiquiátrico, que a Ana pode ajudar a traduzir, mas aplica-se igualmente na acepção de Dawkins, isto é, a outras sintomas, agora aqueles que decorrem de uma religiosidade ...er... exacerbada. Os comentários aos posts «Embrace Your Inner Fish» e «Esta gente passa-se big time» reflectem algo para que a única palavra aplicável é mesmo delusion, neste caso aplicada à veemência com que o nosso devoto comentador Pinto se arroga, sem pestanejar, a «corroborar» os delírios esquizofrénicos dos dominionistas da Montfort sobre o fantasma que os atormenta: a evolução que ameaça o seu deus-das-lacunas.
aqui está algo de que andava à procura há que tempos: uma das canções favoritas de antónio sérgio do som da frente do início dos 80s. que é feito dos passions e desta voz?
Tive ontem o enorme privilégio (sim, privilégio, embora proporcionado a todos e de forma gratuita), que vou continuar aliás a ter hoje, de poder visionar as oito horas e outros tantos capítulos da série documental A Guerra Filmada, realização de Trinidad Aguirre. Trata-se de uma série produzida pela televisão pública espanhola e pela Filmoteca de Espanha, em 2006, no 70.º aniversário do início da guerra civil espanhola, e agora exibida, em duas sessões, dia 7 e 8/11, com repetição dias 9 e 10, entre as 15 h e as 19 h, no Centro de Congressos do Estoril, no âmbito do Estoril Film Festival. Como explicou ontem o director da Filmoteca Espanhola, José Maria Prado, o material cinematográfico foi pesquisado em diversas Cinematecas europeias, incluindo a portuguesa, bem como nos arquivos da ex-URSS e ex-Jugoslávia. A série é composta por filmes de propaganda de ambos os lados beligerantes, bem como por reportagens realizadas enquanto ocorria esse terrível conflito, onde não existe qualquer espaço para uma impossível neutralidade. Lembre-se que se tratou de uma guerra civil relativamente à qual os contemporâneos a nível mundial tinham de tomar partido.
O fóssil de 15 centímetros do Yanoconodon allini mostra a formação do ouvido médio dos mamíferos a partir da mandíbula dos répteis
Nos comentários do último «Esta gente passa-se big time», um dos nossos comentadores mais devoto debita pérola de racocínio atrás de pérola redondissima de raciocínio para «explicar» que o criacionismo e o evolucionismo deveriam ser ensinados a par nas aulas de ciência.
O referido Pinto, advogado do deus-das-lacunas, aquele que agracia o vale da nossa ignorância colectiva, pretende que «Os evolucionistas desesperados por não poder validar as hipóteses (imaginativas e delirantes)» inventam provas para sustentar a sua tese. E dá exemplos da «falsidade» da teoria da evolução, recolhidos numa página de um acéfalo e ignorante charlatão, ou antes clarividente ocultista, «mestre» de mais uma treta New Age que dá pelo nome «Salto Quântico» (nunca percebi porque cargas de água a quântica exerce um fascínio tão grande em tantos vendedores de banha da cobra...).
Num dos artigos recomendados pelo Pinto, o charlatão, que não percebe raspas de raspas, devota-se a debitar inanidade atrás de inanidade e a urdir teorias da conspiração absurdas a propósito do Tiktaalik roseae. Por acaso, na altura li o artigo da Nature em que o fóssil foi apresentado e acompanhei os gritos de indignação dos criacionistas de todos os flavours em relação ao mesmo. Passo a explicar porque não há nem controvérsia nem falta de «provas» desta transição que tanto irrita os criacionistas.

Após um breve interregno forçado pelas eleições (que, como se sabe, só servem para gastar dinheiro) o protagonismo na nossa vida política regressou, como é normal e louvável, aos Martins, aos Palmas e às Moura Guedes; às escutas e às fugas de informação; às declarações dos sindicatos dos magistrados e do Procurador-Geral da República; às movimentações nos bastidores de fontes anónimas, investigadores diligentes e jornalistas militantes.
Um dia, quando eles se zangarem, talvez venhamos a ter acesso às escutas que fazem uns aos outros. Entenderemos então como funciona a república dos bufos e quem a comanda.

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