Domingo, 8 de Novembro de 2009
Ana Vidigal

e finalmente o dia chegou


Imaginem um país onde alguns investigadores se dedicavam a perseguir pessoas em vez de inquirirem crimes. Imaginem, além disso, que eles faziam sistematicamente chegar aos jornais informações seleccionadas alegadamente recolhidas no decurso dessas devassas.

Considerem ainda a possibilidade de comentaristas cúmplices ou imbecis exigirem com grande alarido nas televisões a demissão dos arguidos ou meros inquiridos titulares de cargos públicos. E suponham que cada vez mais pessoas começavam a aceitar a ideia de que a regra se deveria estender a gestores de empresas privadas.

Para completar o retrato, fantasiem que o processo era apoiado e instigado por sindicatos de magistrados.

Decorre daqui com a brutalidade de uma dedução lógica que esse país não poderia ter governantes ou dirigentes que não fossem previamente aprovados pelos tais investigadores.
 


"Oceana III + PSP" (fotografia Egas José Vieira)


"Conheço isso muito bem" 


Palmira F. Silva

Penso que não exista em português uma palavra para traduzir «delusion», uma falsa crença arreigada que é mantida apesar de todas as evidências em contrário.  Pelo menos, o livro «The God Delusion» de Dawkins foi traduzido, suponho que por falta dessa palavra, por «A Desilusão de Deus», um título que não traduz de facto o que pretende o livro.

 

A palavra delusion é muito utilizada, em meios anglo-saxónicos, para descrever a sintomatologia de uma série de patologias do foro psiquiátrico, que a Ana pode ajudar a traduzir, mas aplica-se igualmente na acepção de Dawkins, isto é,  a outras sintomas, agora aqueles que decorrem de uma religiosidade ...er... exacerbada. Os comentários aos posts «Embrace Your Inner Fish» e «Esta gente passa-se big time» reflectem  algo  para que a única palavra aplicável é mesmo delusion, neste caso aplicada à veemência com que o nosso devoto comentador Pinto se arroga, sem pestanejar, a «corroborar» os delírios esquizofrénicos dos dominionistas da Montfort sobre o fantasma que os atormenta: a evolução que ameaça o seu deus-das-lacunas.

 

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aqui está algo de que andava à procura há que tempos: uma das canções favoritas de antónio sérgio do som da frente do início dos 80s. que é feito dos passions e desta voz?

 


Tive ontem o enorme privilégio (sim, privilégio, embora proporcionado a todos e de forma gratuita), que vou continuar aliás a ter hoje, de poder visionar as oito horas e outros tantos capítulos da série documental A Guerra Filmada, realização de Trinidad Aguirre. Trata-se de uma série produzida pela televisão pública espanhola e pela Filmoteca de Espanha, em 2006, no 70.º aniversário do início da guerra civil espanhola, e agora exibida, em duas sessões, dia 7 e 8/11, com repetição dias 9 e 10, entre as 15 h e as 19 h, no Centro de Congressos do Estoril, no âmbito do Estoril Film Festival. Como explicou ontem o director da Filmoteca Espanhola, José Maria Prado, o material cinematográfico foi pesquisado em diversas Cinematecas europeias, incluindo a portuguesa, bem como nos arquivos da ex-URSS e ex-Jugoslávia. A série é composta por filmes de propaganda de ambos os lados beligerantes, bem como por reportagens realizadas enquanto ocorria esse terrível conflito, onde não existe qualquer espaço para uma impossível neutralidade. Lembre-se que se tratou de uma guerra civil relativamente à qual os contemporâneos a nível mundial tinham de tomar partido.

Os autores da série, que tiveram o cuidado de mostrar filmes dos dois campos beligerantes, optaram por manter a montagem original e a voz off originais, sendo apenas cada capítulo introduzido pelo historiador Julián Casanova. Embora os filmes sejam de propaganda, realizados tanto pelo campo republicano e das Esquerdas, como pelo do Exército sublevado e golpista de Franco, da Falange, das Direitas reaccionárias e da Igreja católica, retratam o ambiente, a vida quotidiana, as classes sociais, as campanhas da guerra, bem como a luta política, social e religiosa…

 

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Palmira F. Silva

O fóssil de 15 centímetros do Yanoconodon allini mostra a formação do ouvido médio dos mamíferos a partir da mandíbula dos répteis

 

Nos comentários do último «Esta gente passa-se big time», um dos nossos comentadores mais devoto debita pérola de racocínio atrás de pérola redondissima de raciocínio para «explicar» que o criacionismo e o evolucionismo deveriam ser ensinados a par nas aulas de ciência.

 

O referido Pinto, advogado do deus-das-lacunas, aquele que  agracia o vale da nossa ignorância colectiva, pretende que «Os evolucionistas desesperados por não poder validar as hipóteses (imaginativas e delirantes)» inventam provas para sustentar a sua tese. E dá exemplos da «falsidade» da teoria da evolução, recolhidos numa página de um acéfalo e ignorante charlatão, ou antes clarividente ocultista,  «mestre» de mais uma treta New Age que dá pelo nome «Salto Quântico» (nunca percebi porque cargas de água a quântica exerce um fascínio tão grande em tantos vendedores de banha da cobra...).

 

Num dos artigos recomendados pelo Pinto, o charlatão, que não percebe raspas de raspas, devota-se a debitar inanidade atrás de inanidade e a urdir teorias da conspiração absurdas a propósito do Tiktaalik roseae. Por acaso, na altura li o artigo da Nature em que o fóssil foi apresentado e acompanhei os gritos de indignação dos criacionistas de todos os flavours em relação ao mesmo. Passo a explicar porque não há nem controvérsia nem falta de «provas» desta transição que tanto irrita os criacionistas.

 

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João Pinto e Castro

Após um breve interregno forçado pelas eleições (que, como se sabe, só servem para gastar dinheiro) o protagonismo na nossa vida política regressou, como é normal e louvável, aos Martins, aos Palmas e às Moura Guedes; às escutas e às fugas de informação; às declarações dos sindicatos dos magistrados e do Procurador-Geral da República; às movimentações nos bastidores de fontes anónimas, investigadores diligentes e jornalistas militantes.

Um dia, quando eles se zangarem, talvez venhamos a ter acesso às escutas que fazem uns aos outros. Entenderemos então como funciona a república dos bufos e quem a comanda.


Alexandra Tavares-Teles
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