o daniel tem razão quanto à calhandrice e ao machismo. mas nada disso é novo -- tem sido aliás um vê-se-te-avias -- e por esse motivo não especialmente digno de nota, mesmo se como de costume obsceno e deplorável, no post a que se refere. parece-me que a questão mais, digamos, relevante (se se pode usar este qualificativo para algo que venha daquilo) é outra.
talvez por estar com a história do muro e de tudo o que ele significa tão fresca -- estive a semana passada em berlim em trabalho para o dn e jn -- e por, na reportagem que fiz sobre berlinenses 'comuns' me ter cruzado com os relatos de um quotidiano vigiado, amedrontado, em que tudo -- a começar pelo mais privado -- era pasto de espiões e informadores e matéria de acusação e condenação quando considerado 'ilegítimo' (o que é dizer em desacordo com a visão dos que mandavam), encontrei naquele arrazoado a clara evidência da mesma atitude, ou, melhor dito, da mesmíssima ideologia.
é evidente que as tomadas de decisões políticas são discutíveis e sindicáveis, e o autor daquele post pode ter a opinião que entender sobre o que leva alguém a decidir-se por esta ou aquela posição política. pode até -- por que não? -- interrogar-se sobre a influência que estas ou aquelas pessoas ou relações (imagino por exemplo que um político católico com um confessor/orientador fixo poderá ser bastamente infliuenciado pelo mesmo) poderão ter sobre essas atitudes, desde que, bem entendido, as relações em causa sejam públicas, o que significa publicamente assumidas, e que o próprio tenha caucionado essa publicitação (sob pena de se estar a falar com base em mexericos, o que torna a coisa, além de idiota, assim para o canalha). mas seria por exemplo absolutamente execrável aventar que por exemplo o presidente da república veta diplomas alvo de desaprovação da igreja católica não porque é católico e porque isso está de acordo com aquilo em que crê, ou seja, com a ideologia que o norteia (mesmo que possa para tal solicitar e considerar opiniões a muita gente, incluindo padres), mas porque o seu confessor/orientador da mesma igreja o ameaça com o fogo dos infernos caso o não faça. e ainda mais execrável (sobretudo vindo de um jurista, coisa que, ouvi dizer, aquela pessoa é) comparar a influência 'espiritual' desse orientador/confessor com o lobbying para aprovação de uma lei qualquer que permitiria ao orientador/confessor ou à organização de que faz parte (por hipótese) averbar uns lugares bem pagos ou estender a respectiva influência em áreas nas quais estão interessados.
e esta atitude/ideologia é execrável porquê? pelo que revela de incapacidade de aceitar a ideia de liberdade e de respeitar os processos de formação de convicções alheios, colocando-os sob suspeita permanente e sob policial escrutínio. é execrável e revoltante pelo que revela de absoluta indignidade -- a da menção de alegadas relações íntimas e privadas para 'explicar' a formação de convicções e para apoucar essas mesmas convicções, apresentando-as como fruto de pressões que se insinua serem suspeitas, imorais, quiçá ilegais. a visão do mundo que está contida no post a que o daniel faz menção não é só pobre e alcoviteira. é sobretudo totalitária no sentido em que revela uma vontade de tudo controlar, de tudo censurar, de tudo policiar, de tudo ter o direito de saber, escutar, sindicar e, o que não é o menos, aprovar ou reprovar, aceitar ou condenar. é afinal essa ideia monstruosa que está em causa: se há algo com que esta pessoa não concorda, se alguém defende uma posição que lhe parece errada, esse algo ou essa posição só podem ser fruto de um qualquer 'desvio' ético, de um qualquer processo menos claro, de um tráfico qualquer.
faltava, claro, ao autor do post, que se auto-elogia a coragem de 'ir mais longe' que outro pobre espírito citado, ir até ao fim do argumento e explicitar que 'remédio' prescreve para o que tanto o atormenta. quererá ele decidir com quem se dão, falam e a quem dão atenção e crédito os tomadores de decisões políticas? quererá determinar que as pessoas com quem esses decidores se dão jamais podem em público dar opiniões sobre seja o que for (o que, como é óbvio, está longe de lhe resolver o problema)? quererá decidir sobre o quê e em que circunstâncias podem essas pessoas dar opiniões? quererá talvez remetê-las à clandestinidade, ao exílio social, ilegalizá-las? ter coragem seria explicitar a sentença, a deliberação, a vontade. a coragem, claro, de ser completamente completamente stasi. ou inquisidor -- fascista, enfim.
resta assinalar a parte divertida da coisa. certificar que poucas coisas me orgulhariam mais que ter algum motivo para crer que as minhas opiniões sobre o casamento das pessoas do mesmo sexo, há muitos anos pública e privadamente expressas -- e não haja dúvidas que as exprimo sempre que me surge uma oportunidade, como aliás faço em relação a tudo o que, como é o caso, me merece tomadas de posição vigorosas -- contribuiram de algum modo para que acabe a discriminação dos casais do mesmo sexo no acesso ao casamento. parece-me aliás que tal está muito longe de constituir segredo. não precisa de esforços policiais ou mexeriqueiros de nenhuma espécie, do testemunho de nenhum vizinho, de vídeos, gravações ou do concurso de 'escutas ambientais' para ser comprovado: está na cara.
há, parece, quem chame a isto 'pôr-me a jeito'. eu chamo-lhe existir. se não se importam -- e mesmo que, como é o caso, se importem. e tanto.
* Outro título possivel para este post do blog de opinião da agência de notícias da ICAR nacional seria «Cristianovitimização no seu melhor»
Esta manhã, ao ler o jornal, a minha atenção foi desviada para a notícia que tinha como título "Portugueses dizem que discriminação sexual é comum"... com um título destes o que se espera ler? Que um qualquer inquérito, estudo, etc., tenha chegado à conclusão que a discriminação mais visível, reconhecida, sentida, assumida, etc., seja aquela que tem como base o sexo. Estranhamente, tal conclusão é desmentida no segundo parágrafo da pequena notícia, quando se afirma que, e cito, "(...)enquanto somente cerca de um terço considera o sexo e a religião ou crenças como factores de discriminação (35 e 27 por cento, respectivamente).". Deixando de lado a crítica possível à utilização do advérbio "somente" aplicado a 1/3 da população, o que fica claro pela leitura da notícia completa é que não é o sexo o principal factor de discriminação, como anunciado no título, mas sim a orientação sexual, algo que, como é óbvio para todos, é completamente diferente.
Não sei o que acontece convosco mas a mim irrita-me ler um título de notícia que, de facto, não corresponde aos factos relatados. É um bocado como comprar gato por lebre e faz-me sempre pensar que há muito pouco cuidado no jornalismo português.
P.S. - Presumo que a notícia tenha origem nas mesmas informações que a do JN que a Isabel linkou há horas.
Na sequência da redução do rating da dívida por parte da Standard&Poors e da ameaça da Fitch e da Moody's de fazer o mesmo, Miguel Frasquilho acusa o ministro das finanças de enfiar a cabeça na areia e de não reconhecer o descalabro da economia portuguesa. Independentemente do mercado não parecer concordar com catastrofismo das agências de rating e de Frasquilho, há algo que não entendo nas posições do deputado do PSD. O que pretenderá Frasquilho dizer com "reconhecer o veredicto das agências de rating"? Supondo que Frasquilho não está a sugerir que o governo português se dedique a exercícios de auto-flagelação (sim, as agências de rating têm toda razão: estamos horríveis e Portugal aproxima-se rapidamente do apocalipse), resta a hipótese de Frasquilho estar a sugerir que, por causa do que dizem as agências de rating, o governo deve alterar o rumo das suas políticas.
É aqui que a porca torce o rabo. Primeiro, é certo que as agências criticam, mas também é certo que não especificam o que entendem por "resolver os problemas estruturais da economia portuguesa", nem que tipo de motivação esperam dos políticos portugueses. Segundo — e mais importante —, apesar de dizerem que as políticas em vigor não são satisfatórias, nenhuma das agências de rating sugere uma alternativa — e muito menos defendem as "propostas" e a "estratégia de desenvolvimento económico" avançadas pelo PSD. Frasquilho acha que a Standard&Poors, a Fitch e a Moody's são uma espécie de aliados das críticas que o PSD tem feito ao PS.
Para que Frasquilho pudesse legitimar as suas críticas, seria necessário que a Standard&Poors, a Fitch e a Moody's dissessem algo parecido com isto: se Portugal falasse Verdade; se não construísse o TGV, o aeroporto, as barragens; se baixasse a taxa social única; se acabasse com o PEC e se fizesse tudo aquilo que o PSD diz que deve ser feito — e "não-feito" — então nós não baixavamos o rating da dívida portuguesa. O problema é que não há nada nas "análises" das agências de rating que permita sustentar esta ideia. Posto isto, Frasquilho sugere exactamente o quê?
Altamente recomendável, este post de Miguel Serras Pereira acerca das confusas reflexões que a queda do muro de Berlim suscitou a Francisco Louçã. Confirma-se que o Bloco tem mesmo um problema mal resolvido com o "socialismo real".
Há muito que não posto pelas bandas do jugular. A adaptação a uma vida nova tem os seus custos, e logo agora que acelera a caldeirada casamento, referendo, adopção, timings, projectos e propostas de lei diferentes, igreja, etc. Graças às deusas, o jugular vai dando conta do recado - e agora também com a maravilhosa Isabel Moreira a "dar-lhe forte". Estarei de volta "em breve" (olha, já ouvi isto há pouco...). Entretanto, no meu blog pessoal vou tentando dar conta da actividade parlamentar.
Portugal, quando comparado com os restantes países europeus, está mal colocado em termos de discriminação em função da orientação sexual. É inegável o papel do acesso ao casamento das pessoas do mesmo sexo como forma de combater esse fenómeno inadmissível. A lei também serve para isso. E mais não digo.
A conferência episcopal em Fátima emula na perfeição este cartoon, traduzido nas «iluminadas» declarações do presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, Jorge Ortiga .
De acordo com o Público, esquecido que estamos em 2009 e não algures pela Idade Média, quando era a Igreja que determinava todos os aspectos da vida e da morte, «Ortiga condenou também o que considera as "campanhas que pretendem dar uma orientação contrária" ao que defende a doutrina tradicional da Igreja». Ora que maçada, esta mania de legislar sem ter em conta a ortodoxia da ICAR é de facto uma coisa inadmissível. Tão inadmissível quanto a presunção de querer equiparar «"uniões homossexuais" ao estatuto da família» quando a Igreja se deu ao trabalho de informar devidamente o mundo inteiro que a homossexualidade é um «desvio».
Uma outra perspectiva sobre o Muro de Berlim: The Berlin Wall - a Love Story
"The Great Wall of China's attractive, but he’s too thick – my husband is sexier."
No Prós-e-Contras de hoje, José Manuel Pureza disse discordar da estratégia de crescimento económico defendida por Pedro Silva Pereira e Basílio Horta. Para o líder do grupo parlamentar do Bloco o caminho é outro: mais do que criar as condições para reduzir a dependência de energia importada; mais do que minimizar os custos associados à situação periférica de Portugal; mais do que aumentar as qualificações dos nossos trabalhadores; mais do que modernizar o nosso tecido produtivo, o importante é redistribuir a riqueza gerada. Para aumentar o PIB e combater o desemprego, o Bloco propõe que se investa na reabilitação urbana. Só este tipo de investimento tem impacto no imediato, diz o Bloco. O que o PS propõe demora tempo, e, por isso, não serve. O bloco defende um voluntarismo sem princípio da realidade: se existe um problema, o Bloco acha que tem de haver uma solução — imediata, entenda-se.
textos como este lembram-me por que motivo durante tanto tempo respeitei e apreciei josé pacheco pereira: há ali uma determinação de ser verdadeiro (podemos chamar-lhe honesto), de perceber (e até de sentir, mesmo sendo -- e sobretudo por ser -- quase sempre um sentir desolado, com mágoa), de dar a perceber o que percebeu, que já não lhe encontro. tenho pena. o meu mundo perdeu com isso.

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