Descubro pelo DN, que a mãozinha milagrosa de Thierry Henry inspirou uma canção por bandas da Irlanda (reacção quase tão rápida como a da "Dance du coup de boule" há uns anos). Não sei o que se passará na Irlandas mas em França os últimos dias têm sido marcados por muitas mãos, houve mesmo quem recuperasse "la tragédie marseillaise de 1990", quando a mão do benfiquista Vata foi de muita utilidade.
A propósito deste post, lembrei-me que não ouvi uma voz, um trinado, uma interjeição, um pio à Comissão da Carteira quando, em 2009, a jornalista Fernanda Câncio foi vítima de uma tentativa de homicídio profissional, preparada com a disciplina dos atiradores de elite e posta em prática com a ladineza dos mais arborescentes métodos de execução pública. Porque considerar a alegada - quem sabe o que é rigoroso no retrato íntimo de alguém? Os deuses? - vida privada de um jornalista como factor de incompatibilidade profissional ou, em em consequência da devassa desse território privado, ensaiar o furto à liberdade de quem vive da sua profissão, é isso mesmo: um homicídio profissional em forma de execução pública.
Quando se analisa a opinião publicada em jornais e revistas de informação, deve ter-se em conta, acima de tudo, o valor do argumento de quem a emite. É o valor do argumento, juntamente com a coerência da argumentação, que determinam a credibilidade de opinião e opinador. Bastaria à Comissão da Carteira ter perdido uma hora a ler algumas das páginas que a jornalista Fernanda Câncio tem, de forma lúcida e coerente, escrito ao longo dos anos sobre Jornalismo em geral e investigação jornalística em particular, para confirmar a justeza de um comunicado, uma nota, uma frase, uma palavrinha sobre a reptilínea perseguição de que Câncio foi alvo. Mas nem uma voz, um trinado, uma interjeição, um pio quando em causa estava, afinal, o direito de um jornalista ao seu trabalho: quando se ameaça o valor, a coerência e - dessa forma - a integridade de um jornalista, não se faz menos do que pôr em causa o próprio direito ao trabalho desse profissional.
No caso de Fernanda Câncio, esse direito transformou-se num dever. O dever de não ceder. E os senhores e senhoras da Comissão da Carteira, na sua maioria jornalistas (embora pareçam, por vezes, mais dotados para a procrastinação), deveriam ser os primeiros a reconhecer a importância de direitos e deveres dessa classe e natureza. Em nome do Jornalismo e dos jornalistas. Em nome do exercício da cidadania.
Perante os mais recentes acontecimentos, percebe-se que não vale a pena lembrar-lhes nada disto: são simplesmente incapazes de o compreender. E isso, antes de ser grave, é muito, muito triste. Em benefício dos seus representados, poderiam ao menos lembrar-se de que, no caso de Fernanda Câncio, a calúnia está em toda a parte; o caluniador, em nenhuma.
Diz o Pedro Morgado na caixa de comentários deste post que é perigoso o João Moreira Pinto hierarquizar condições de "adoptabilidade" da forma como o faz, a saber: "Da mesma forma os casais financeiramente capazes de sustentar uma família deverão estar à frente dos que dependem financeiramente de outros, os casais saudáveis estão à frente dos casais doentes, os casais pacíficos à frente dos violentos, e por aí fora".
Não Pedro, não é perigoso, é errado, pois dá-se o caso que casais que dependem financeiramente de outros, doentes e (ou) violentos são casais que não reunem condições para adoptar, espero eu.
O João irá desculpar-me, mas esta sua hierarquização só me lembra aquela horrorosa piadola "tanto aperto a mão a um branco como o pescoço a um preto" .
Nota: Hei-de voltar ao assunto, agora não posso aqui continuar.
(Liliana Porter, "Rehearsal" - 2008, Artists' Web Projects - DIA Art Foundation )
Hoje à noite, pela última vez em Portugal, sobem ao palco do Teatro Maria Matos 5 cães pastor belga, 5 treinadores, 1 psiquiatra, 1 filósofo, 1 actor e 1 bailarino. O autor (o próprio prefere dizer-se gerente) chama-se Michel Schweizer e o espectáculo Bleib opus#3. Num palco onde grande parte do elenco não fala, discute-se tudo: política e manipulação, liberdade individual e ditadura do consumo, parentalidade e educação. Discute-se uma sociedade em que o deus ditador foi substituido pela ditadura do objecto desejado, uma sociedade que em vez de cidadãos tem agarrados nunca satisfeitos pelo mercado, uma sociedade em que já ninguém quer ser o educador, o dominador, e em que tudo funciona por contrato. Discute-se a passagem da sociedade de consumo à sociedade de consolo, munida de drogas para qualquer estado de alma, da necessidade de euforia à necessidade de aquietação. Discute-se e encena-se o "homem sem gravidade" que, num mundo auto-regulado e convenientemente dopado, já não precisa de se dar ao trabalho de pensar. Além de um dos mais lúcidos e lúdicos espectáculos que vi este ano, Bleib opus #3 é, como eles dizem, uma acção "certamente artistica mas, principalmente, política". Corra, vá, pode ser que ainda apanhe bilhete.
"O que acontece quando um jornal online plagia um blog? Em Portugal, nada"
Esta é só uma das múltiplas perguntas que podem ser feitas a propósito da relação entre os media a a blogosfera. Se neste meio é norma (são muito raros os casos em que tal não acontece) referir a fonte e, sempre que tal é possível, linká-la, já nos media a coisa pia de outra forma. Há casos óbvios de - porque não chamar os bois pelos nomes? - parasitismo chupista* da blogosfera sem qualquer indicação da origem da informação. Até nas situações mais simples não há um mínimo de esforço, estou a pensar, por exemplo, nas edições online de jornais onde, de vez em quando, se fazem artigos referindo expressamente um blog , um post ou um blogger. Custaria muito fazer um simples link? Não seria tal procedimento uma mais-valia para o leitor já que lhe permitia, à distância de um clique, ter acesso a mais informação? Pelo menos nas edições online seria extraordinariamente fácil e eficaz.
* adiante-se que não tenho nada contra parasitismo chupista, é isso que alimenta, em grande medida, a blogosfera, só me parece muito questionável que a referência apenas funcione num sentido.
dou uma volta pelos blogues e noto que há quem discuta se os jornalistas/media que revelam (ou dizem revelar) matérias em segredo de justiça devem ser ou não penalizados -- isto a partir de um artigo de pacheco pereira, que não li, a falar disso.
ora o actual código penal, se eu sei ler, diz, no seu artigo 371º, que quem 'independentemente de ter tomado contacto com o processo, ilegitimamente der conhecimento, no todo ou em parte, do teor do acto de processo penal que se encontre coberto por segredo de justiça, é punido com pena de prisão até dois anos (...)'. assim à partida, depreendo que isto inclui jornalistas e media. à partida. mas como tenho visto poucos processos por violação de segredo de justiça quando todos os dias há manchetes e aberturas de telejornal que assumem dar conhecimento de partes de processos em segredo de justiça, das duas uma: ou eu depreendi mal, e a lei não inclui os jornalistas, caso em que a discussão nos blogues faz sentido; ou depreendi bem e a discussão nos blogues não está onde deveria estar, já que o caso será que quem tem de fazer alguma coisa -- ou seja, os titulares da acção penal -- não está a fazer o que deve. claro que há uma terceira hipótese: a de que tudo o que sai todos os dias como sendo parte de processos em segredo de justiça não o seja, caso em que não há violação do segredo de justiça, há é fontes envenenadas e gente que bebe alegremente delas. milho aos pombos, como diz ferreira fernandes, com a particularidade de ser, afinal, trigo roxo -- do qual comemos todos. todos, ou ainda não perceberam?
Ei-los de volta, certamente tão verticais, diria mesmo erectos, como de costume(clicar na imagem).
No dia 19, no Público, Mário Cordeiro, Pediatra e professor de Saúde Pública, escreveu um artigo, «Vacina da gripe A - lucidez ou paranóia? A escolha é sua», que vale mesmo a pena ler. O artigo menciona «um "famoso" vídeo da autoproclamada ex-ministra da Saúde da Finlândia, denunciando várias conspirações e maroscas que, resumidamente, davam a vacina contra a gripe A como um produto feito pelos americanos, destinado a extinguir a população de várias zonas do globo. O vídeo circulou, mas poucos se deram ao trabalho de questionar tamanho disparate. Pois a senhora Rauni Kilde era médica e directora-geral da Saúde quando, em 1986 (há mais de 20 anos), teve um acidente de viação e ficou, digamos, com uma diminuição acentuada da sua lucidez».
A Onion é uma revista satírica que consegue a proeza de caricaturar de forma certeira a realidade. Um dos últimos artigos representa de forma magistral o que acontece hoje nos Estados Unidos mas que, por qualquer razão enviesada, me fez recordar a situação nacional. Reproduzo a parte em que encontro semelhanças:
Spurred by an administration he believes to be guilty of numerous transgressions, self-described American patriot Kyle Mortensen, 47, is a vehement defender of ideas he seems to think are enshrined in the U.S. Constitution and principles that brave men have fought and died for solely in his head.
"Our very way of life is under siege," said Mortensen, whose understanding of the Constitution derives not from a close reading of the document but from talk-show pundits, books by television personalities, and the limitless expanse of his own colorful imagination.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
