Sábado, 28 de Novembro de 2009
Rogério da Costa Pereira

Jesus diz que o  Sporting já não é candidato ao título. Saramago, pega nisto pá.


Rogério da Costa Pereira


João Pinto e Castro

No princípio da semana, o PSD indignou-se pelo crescimento do défice das contas públicas no corrente ano; mas, aproximando-se o fim de semana, votou a eliminação de um imposto, ou melhor, a eliminação da parte da receita do IRC correspondente ao pagamento por conta.

Miguel Frasquilho, um ornamento da academia portuguesa de cuja sensatez o país nada tem a esperar, explicou que, como Teixeira dos Santos afirmara que a consolidação orçamental só começará em 2011, o facto não tem importância de maior.

Mesmo descontando que Teixeira não disse precisamente isso - as nuances não deixam marcas no áspero cérebro do nosso Miguel - haveria a notar o seguinte:

a) A pergunta não era sobre as intenções de Teixeira dos Santos, mas sobre as dos alegres companheiros do pobre Miguel. Acham eles ou não que a redução do défice deve ser adiada para mais tarde? Para já - ou seja, até à discussão do orçamento que terá lugar dentro de semanas -, parece que acham.

b) Mesmo que a intenção do Ministro das Finanças estivesse a pensar em não reduzir o défice em 2010, isso não implica que deseje aumentá-lo, que é o que sucede quando o Estado perde receitas.

O PSD, que, desde a sua primeira passagem pelo governo, em 1979, nunca perdeu uma oportunidade de arruinar as finanças públicas para tentar ganhar umas eleições, descobriu agora que, afinal, também é possível fazer a mesma coisa na oposição.


Ana Matos Pires

Fernanda, a mim também "não me faz sentido, qualquer sentido, atribuir a 'culpa' a jogos de computador ou a quaisquer alegadas desagregações familiares", assim, sem mais, qual psicopatia colectiva que põe a culpa fora de nós. Há muito por fazer, não existem respostas definitivas, mas há gente a tentar saber mais sobre isto, que de novo não tem nada. E esta outra abordagem do tema também me parece muito, muito importante.

 

 


durante esta reportagem, numa troca de mails com um dos entrevistados, colocou-se a hipótese dos casos de carla e joana -- ou, melhor dito, os casos de joão e david -- fazerem parte de algo de novo, uma tendência relacionada com uma rarefacção das relações entre pais e filhos (e em geral?), com jogos de computador em que se mata e morre para num segundo se reviver, com uma perspectivação gratuita e sem espessura da violência, do sangue.

 

esta coisa de acharmos que não houve história ou que o que ficou para trás é sempre mais benigno e somos o tempo do apocalipse -- e isto por mais que devamos ter noção do que de trás nos reafirma o mistério essencial do que somos, a terrível incompreensão de quase tudo, a brutalidade alucinada da nossa natureza. jogos de computador poderiam mudar-nos? oxalá. as relações entre pais e filhos estão rarefeitas? comparadas com quê? com o tempo em que nas classes altas as crianças eram criadas por serviçais e amas e nas classes baixas começavam a trabalhar mal andavam? ninguém leu oliver twist? ou os gaibéus?

 

num dos mails que troquei com o meu entrevistado, em resposta às questões que lhe surgiram, respondi: 'acho que estas coisas aconteceram sempre. Dostoievsky não escreveu sobre um jovem estudante que resolve matar para provar que pode? Crimes tremendos, inexplicáveis, imprevisíveis sempre aconteceram. Penso que a grande diferença que sentimos é o facto de agora se dar tanta importância a este tipo de acontecimentos. E não só por voyeurismo, mas também porque numa sociedade menos violenta, mais controlada, a violência é mais notada. É claro que toda a gente se choca por os protagonistas serem não só jovens como diferenciados -- sobretudo no caso da Carla e do João -- mas será que isso não significa que esperamos que os crimes violentos, hediondos, pertençam aos ignaros e aos pobres (aos brutos?) e portanto longe de nós?'

 

claro que não sei, ninguém sabe, de onde vem isto que aconteceu a carla e joana. não sei de onde vem o que fizeram david e joão (e digo fizeram porque, se com joão, apanhado a matar carla, não há qualquer dúvida, haverá lugar para poucas, se algumas, com david). mas se não podemos eximir-nos de pensar e pensar e pensar nisto, não me faz sentido, qualquer sentido, atribuir a 'culpa' a jogos de computador ou a quaisquer alegadas desagregações familiares. temos de ir mais fundo que isso -- temos de olhar para nós, questionar que ideia distorcida, infeliz, torturada, do amor e das relações se expõe aqui, que noção de poder e posse, desprezo e ausência total de empatia ergue os golpes que derrubaram carla e joana. carla e joana, duas de nós. como eu e tu.
 


Carla, 28 anos, e Joana, 20, eram inteligentes, atraentes, populares. Cheias de futuro, de sonhos e de vida. No espaço de três dias e de cem quilómetros, morreram às mãos de quem dizia amá-las. Carla foi esfaqueada mais de 20 vezes à porta de casa dos pais, em Castelo Branco, na noite de 14 deste mês. Joana foi golpeada  na cabeça, enfiada no porta-bagagens de um carro e lançada a uma barragem perto de Viseu, na noite de 17. As confissões dos homicidas, de 28 e 22 anos, não sossegam as perguntas. Que pode levar dois jovens estudantes - um doutorando de Genética e um caloiro de Engenharia do Ambiente - a matar, e a matar assim? Que pode ter-lhes passado pela cabeça? Que leva alguém a achar que pode roubar de uma vez tudo o que alguém é, tudo o que alguém tem? Pode isto ser amor? Pode o amor ser tão mau? E se for amor, o que é o amor? "É só porquês", diz uma amiga de Joana. É, é só.  

 

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Shyznogud

Onde é que posso ver o França-Nova Zelândia de hoje à noite, alguém sabe?


Aguiar Branco tem um ar simpático, calmo, ponderado. Aguiar Branco passa genuinamente a imagem de quem não diz nada que resvale para fora das fronteiras do politica e democraticamente aceitável. Por isso mesmo, quando afirma, com a sua postura de pessoa amiga das liberdades, que se fosse Primeiro-Ministro divulgaria as escutas que estiveram na base de uma decisão do Procurador-Geral da República e do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o que contribuiria, pensa, para a dignificação da função de PM, alguém menos atento pode não dar pela facada mortal que estas palavras irresponsáveis significam numa conquista essencial do Estado de direito que é a reserva da intimidade da vida privada, protegida constitucionalmente.  

Na verdade, para além de ficar por saber como é que Aguiar Branco divulgaria as escutas, o que sendo demagógico talvez seja o menos interessante na ofensiva, passa-lhe completamente ao lado que a reserva da vida privada deve ser especialmente protegida exactamente quando, não havendo decisão judicial em contrário, outros actores - jornalistas, inimigos, opositores, etc. - disparam em argumentação juridicamente infundada para tentar chegar à reserva da vida privada do visado por outras vias, como é aqui exemplo a via da chantagem moral. 

Ora, não cola.  No caso, não há "níveis" de reserva de vida privada. O PM fala ao telefone com quem quer e se fortuitamente conversas suas são gravadas e não há interesse jurídico nas mesmas, por mais que a oposição, jornalistas e 300 Aguiares Brancos especulem à margem da separação de poderes sobre o teor das ditas conversas privadas do cidadão e PM José Sócrates, este, se renunciasse, como pretende Aguiar Branco, ao seu direito fundamental e pedisse - coisa gira - ao presidente do Supremo Tribunal de Justiça para divulgar a sua intimidade, estaria a ceder em duas dimensões totalitárias: na primeira, a sua própria reserva da vida privada ficaria reduzida a um brinquedo feito de plasticina à mercê das vontades não dos tribunais mas dos Aguiares Brancos desta vida; na segunda, a de todos nós, que saberíamos pelo PM quanto vale e para que vale afinal ter um sistema de direitos, liberdades e garantias, especilmente protegido, no caso esta coisa insignificante que é a reserva da vida privada.

Comecem a dar-lhe facadas, comecem. Uma, duas, três. Acham mesmo que é só o PM que sai prejudicado?


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Sean Hannity Uses Glenn Beck's Protest Footage
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Political Humor Health Care Crisis

 

Esta edição do Daily Show - 10 de Novembro - teve ainda outro momento curioso que me fez lembrar polémicas que estalaram em França na mesma altura. À imagem de Sarkozy ninguém deixou de lembrar que esteve in loco na queda do Muro de Berlim.


E que tal passar pelo supermercado?


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Rogério da Costa Pereira

Como qualquer coala (o Eduardo pôs-me a par da terminologia) que se preze, não li o 2666 antes da tradução. Leio-o, agora, à maneira do desejo de Bolaño: como cinco livros separados. A seguir à Parte dos Críticos, arrisquei a releitura do Primo Basílio; depois de Almafitano, aventurei-me (sou masoquista) na última xaropada de Dan Brown; após a Parte de Fate - e depois de ter espreitado os Crimes -, dediquei-me ao Alienista. O que vale um post é o facto de, entre Partes (Livros), sentir o olhar acusador da contracapa de Bolaño, como que ofendida - como se não tivesse sido ele a outorgar aquela herança, com o raio do fumo daquele cigarro sempre  a queimar e que não acaba nunca. Vou-te ler todo, pá, descansa, e depois vou pôr Borges a espreitar por detrás do teu cigarro. A decoração já está combinada - vais ficar bem, a olhar para mim assim que entro na sala.


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