
Ao contrário do que os do costume têm gritado — ao ponto de mal se ouvirem —, Crespo saiu do JN pelo seu pé. Confrontado pelo seu director com o facto de a sua crónica de opinião ter pouco de opinião, Crespo "decidiu retirar o texto de publicação e informou que cessava de imediato a sua colaboração com o jornal". Ou seja, Crespo, e muito bem, resolveu autocensurar-se. A autocensura é algo muito recomendável e todos a devíamos exercer amiúde. Talvez assim o ambiente ficasse mais respirável.
NOTA: este texto não será publicado no site do Instituto Sá Carneiro. Se tal acontecer, garanto desde já que não sei como ele lá foi parar.
"Esta história nasceu porque alguém diz que alguém lhe disse que acha que ouviu alguém dizer alguma coisa na mesa ao lado num restaurante. Toda a gente compreende que isto não é assunto. Nós já não estamos falar nem de opinião nem de jornalismo. Estamos a falar de mexericos."
Silva Pereira (agora mesmo, na RTPN)
A minha arenga ranzina matinal deu origem a uma agradável conversa em que foram recordadas muitas palavras caídas em desuso ou de uso quase exclusivamente regional. Para terminar o dia em beleza a mdsol resolveu deixar-me(nos) um delicioso comentário que obrigará muitos a procurar um dicionário (actividade que sempre me encantou, quando abro um dicionário perco-me, saltando de entrada em entrada) mas que não resisto a fazer saltar das catacumbas:
"Vós por aqui sois desadreitos, não há escaleiras que vos párem e azangais qualquer obstáculo. Bulis com quem vos apetece. Se vos arrenegais com alguém e se cismardes em l'amolar o juízo, sois capaz de deixar a pessoa meia zorata. Gente treda, a da Jugular. Nunca estais quedos e, convosco, o melhor é não atiçar o lume, mesmo só com uns chamiços, que vós deixais qualquer um derrancado. Mas regulais bem do bestunto e não sois nenhuns bédeiros sempre metidos em mentrastices."
No rescaldo da polémica da burka, vale a pena a ler um artigo da New Humanist que trata da nova legislação inglesa que ilegaliza pagar «sexual services of a prostitute controlled for gain». Um pequeno excerto:
Feminists like Harriet Harman, who regard prostitution as a betrayal of women, have always found it difficult to square their sexual politics with the views of those who see it as just another life choice. They are perplexed by the so-called “post-feminist” position, espoused by many younger women who are gloriously unjudgmental: they have fun with pornography, see nothing wrong with lap-dancing or topless modelling and have no problem with prostitution if that’s what women want to do.
uma senhora de noventa anos passou mais de um mês com uma fractura numa vértebra apesar de duas idas ao hospital. é a mãe do eduardo. ler para crer.
No Afeganistão, oito anos após a queda dos talibans, os mais elementares direitos são negados às mulheres, que são rotineiramente presas e encarceradas por «fugirem», pelo «crime» de adultério e por tantas outras coisas. No Afeganistão, onde a lei não reconhece o crime da violação e onde 70 a 80 por cento dos casamentos são forçados, qualquer mulher que se atreva a falar ou a agir para alterar este estado de coisas incorre, na melhor das hipóteses, de abusos e ameaças, mas é mais vulgarmente assassinada.
«When you are outspoken and involved in political and social life you are bound to be the victim of attacks», segundo a Fauwzia Kufi, um membro do parlamento, citado num novo relatório da Human Rights Watch sobre a condição feminina no Afeganistão. «Olhem para os assassinatos, uma percentagem muito elevada são mulheres».
Tenho andado a passear pela blogosfera e, espantada e divertida, constato que parece existir um crime de lesa-linguagem quando alguém se afasta do cânone lisboeta. Não me vou pronunciar, pelo menos para já, sobre o caso que traz meio mundo entretido mas, sim, sobre as reacções que a palavra calhandrice suscitou junto de muitas almas bem pensantes.
Talvez por ser filha de uma alentejana desde miúda que ouvi chamar calhandrice a bisbilhotice. Lembro-me até de não saber o que significava bisbilhotice quando a ouvi pela primeira vez, pouco tempo depois da minha família se ter instalado definitivamente em Lisboa, no já distante ano de 1972. Um dos exercícios mais curiosos que me lembro de fazer com a minha irmã era, aliás, tentar acertar na "proveniência" das palavras que se usavam em minha casa. Com um pai nortenho e uma mãe sulista, família espalhada pelo país inteiro e muitas férias passadas em casa de múltiplos tios, éramos putos sujeitos a todo o tipo de variações vocabulares. Desde o estrugir/refogar, passando pelo sertã/frigideira até ao papo-seco/carcaça, o nosso mundo verbal era composto por uma infinidade de variações que nos fizeram crescer convencidos que o português era uma língua muito rica e que, a não ser que se fosse um tremendo pedante, todas essas palavras tinham exactamente a mesma dignidade que as tradicionalmente usadas no linguajar lisboeta. Aparentemente cresci enganada, usar uma palavra comum em certas regiões do país que não a capital torna-a popularucha, indigna, a evitar...
p.s. - Já agora, uma das palavras "importadas" da nossa família alentejana que usamos com mais frequência, e deixando quase sempre o nosso interlocutor à nora, é garganeira. Esta, contudo e ao contrário de calhandrice que consta de todos os dicionários, só está dicionarizada, que desse por isso, no Houaiss.
O Parlamento de sábado passado, dedicado ao OE, com a participação do João Galamba (e do Zé Guilherme), já está online.
está tudo doido.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
