(para ver melhor clicar aqui)
A lista, em construção, entretanto apagada (quando descoberta e comentada no twitter). Um verme.
Mão amiga fez-me chegar, não há muito tempo, o livro História dos Sete Enforcados, de Leonid Andréev. Na badana do dito está escrito "Na sua última obra, o romance inacabado O Diário de Satanás (1919), chega à conclusão de que a depravação do ser humano ultrapassa o próprio Diabo, encarnação do mal.". Fiquei bem curiosa.
Ainda não vi o Invictus, não sei que comentários me suscitará, se me deixará, como a muitos, à beira das lágrimas se, como outros, acharei uma tremenda lamechice, se, como alguns, ficarei deslumbrada com Freeman, não faço ideia. É esperar para ver. Entretanto vou tropeçando em textos escritos sobre o filme e, no meio deles, houve um, publicado ontem, que me fez sorrir porque me lembrou uma velha discussão que mantive com uma amiga minha, médica, a propósito de House.
A série tinha acabado de estrear e eu ainda estava na fase de encantamento em que mergulho com muitas séries de televisão nos últimos anos (fase essa que raramente dura muitas temporadas, as excepções de encantamento persistente, que existem, são raras) e ela olhava para mim horrorizada sem conseguir perceber que diabo de piada achava eu a uma série, e cito-a, "Tão pouco real. A medicina não é aquilo! Mesmo em termos de diagnóstico é uma patetice pegada". Tentava convencê-la a despir o fato de médica e a olhar para aquilo como ficçao, apreciar os personagens, etc., etc... impossível "Mas tu não percebes que não é possível? Ser médica também é o que eu sou!", nem com o derradeiro argumento - "Ora merda, a minha formação é história, mal estaria eu se não conseguisse abstrair-me dela para apreciar um filme ou uma série, tantas são as calinadas e os anacronismos que povoam a ficção histórica." - consegui levá-la a ter uma visão, no minimo, condescendente do House.
E tanto paleio para quê?, estarão vossas mercês a perguntar. Nada melhor que irem ver que reacção têm especialistas de rugby perante o Invictus.
Todos os anos há inúmeras iniciativas para promover um determinado candidato ao Nobel da Paz, algumas tão ridículas como a que pretendia indicar Berlusconi. Este ano, os brincalhões são fãs de Michael Jackson, que lançaram uma petição na Internet para incluir o rei da pop na lista dos candidatos.
Last week, two middle school students in Valparaiso, Ind., were caught sending nude pictures of themselves to each other on their cell phones. The students were caught when the 13-year-old girl's cell phone rang in class, and her teacher confiscated it, according to a police report. The girl cried that she would get in trouble because a 12-year-old boy sent her a "dirty picture."
The boy sent the girl a picture of his genitals and requested that she do the same, the report said. The girl then texted him a picture of her naked, police said.
The students have been charged with child exploitation and possession of child pornography, both felonies. They were referred to the county's juvenile probation department, which will determine whether authorities pursue or drop the charges, Gensel said. If convicted, the students could be required to register as sex offenders, he said.
Esperemos que a justiça americana seja mais sensata que a polícia e deixe cair as acusações. Se não o fizer, arruinarão a vida destas duas crianças para sempre já que, se colocados na lista de criminosos sexuais, durante 25 anos, terão limitações severas sobre o que podem fazer. Para além do mais, quando crescerem, se tiverem filhos provavelmente serão proibidos de se aproximarem da escola que frequentam. Tudo por umas fotografias de si próprios que enviaram um ao outro quando eram crianças.
Eça traçou-nos o perfil à espadeirada. Se percorrermos os seus romances, contos, cartas, acabamos por dar de caras, aqui e ali, com o filho da mãe e com a prima, com o doutor e com o vizinho. O deputado e a puta. O sério e o trafulha. O circunspecto e o fogoso. O cão e o gato. Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Estamos lá todos. Ainda que sem absoluta correspondência, é raro não obter, cortando daqui e colando ali, o retrato de alguém conhecido. Não há defeito ou feitio que Eça não tenha passado para o papel.
De todos os retratos traçados, o mais marcante – por ser o que mais predomina na selva – é o de Dâmaso Cândido de Salcede, o da adresse riscada e corrigida para Grand Hôtel, Boulevard des Capucines, Chambre nº 103.
Ao longo da vida, pude encontrar aqui e ali partes desse ser untuoso, escorregadio e gelatinoso. Desse sujeito em forma de jogo de aparências, onde nada é o que parece mas em quem, paradoxalmente, tudo acaba por ser deliciosamente óbvio. Esses dâmasos da vida encontram-se por todo o lado, aparecem-nos à frente em qualquer tipo de circunstância e ficam ali, presos ao chão por uma mola, a fazer poing-poing-poing.
A partir de certa altura, comecei a encará-los como um jogo com a natureza. A mãe dita coloca-me à frente um dâmaso, ou um braço dele. Nas olheiras de uma segunda-feira de manhã ou nos fumos de um sábado à noite. Na caixa de um supermercado ou de beca vestida. A qualquer momento, em qualquer lugar. É um pacto que temos, eu e a essência. Ela, quando lhe dá na gana, atira-me com um. A minha comissão é dar com ele, apontá-lo a dedo. Normalmente ganho, outras vezes aceito ter perdido, que nem todos são assim tão óbvios – atributo que ganharam quando perceberam o óbvios que são. Folha daqui, ramo dacolá e vão tapando as vergonhas.
Tudo isto para dizer que nunca – mas nunca, mesmo – tinha pensado encontrar O ser em toda a sua grandeza, de forma tão aparatosa, tão óbvia e tão declarada como me aconteceu recentemente. Ao primeiro vislumbre, que nem foi visual, ouvi logo do imenso clarão negro que dali emanava. E o meu coração acelerou – tu queres ver?, pensei.
Era (é) de forma tão esplêndida, o espécimen, que até fiquei algo enfeitiçado, por dessa feita me estar a ser dado como que um prémio por anos e anos de esforço e dedicação à cata de. Parecia o modelo de Eça, o da adresse corrigida ele mesmo. O original tão original que fazia o original parecer incompleto. Até errado. Eis o homem, pensei. E agora vou escrever um livro.
Apareceu de abraço sempre armado, de elogio sebento na ponta da língua e da pena. Mas, dissesse o indivíduo o que dissesse, escrevesse sobre o que escrevesse, eu só conseguia ler algo como isto: “Fizemos armas, bric-a-brac, discutimos... Um dia chic! Amanhã tenho uma manhã de trabalho com o Maia... Vamos às colchas”. Sentei-me e esperei e nunca fui às colchas com ele. Avisei quem tinha de avisar e quem podia dispor-se a ir às colchas. Esperei sentado. Não pelo tempo que a coisa ia demorar – que não perspectivava ser muito –, mas porque queria assistir de cadeira ao espectáculo que eu sabia inevitável, esperando que ninguém querido se magoasse.
Lamentavelmente, não foi assim. Talvez o meu aviso – desculpei-me – tenha sido um pouco tímido, talvez as pessoas não lhe tenham ligado muito. Fosse o que fosse, confessei-me depois, a verdade é quando a coisa se deu – o artigo plantado na Corneta do Diabo – até eu fui surpreendido, sem tempo de ir a correr ao Palma Cavalão (também esta curiosa personagem, director da Corneta, começa por aí a proliferar, qualquer dia dedico-lhe uns louvores).
Não era nada disso. Afinal, também o Eça tinha ficado aquém, percebi então. E eu com ele. Estávamos perante algo de novo, mistura de rematada insídia, intrujice cobarde e tiro nas costas. Qual Cavalão qual quê? O que eu tinha entre mãos era algo bem mais complexo. Não exigia o recurso – ainda que metafórico – a directores de jornais como o Cavalão, corruptos e caluniadores. O caso que se me apresentava, e essa foi a minha falha, é que aquele Dâmaso era auto-suficiente. Um Dâmaso-Cavalão. E nesse caso – pus-me nos sapatos dele –, para quê recorrer a outsorcing?
Com esta mistura explosiva é de chamar cópia ao original, que esse que eu conhecia e tinha antevisto e aprendido era só o velho e gasto Dâmaso. Cobarde, repelente, filho-de-agiota-agiota-é, vigarista, aldrabão, impostor, egoísta, sem réstia de ser homem – um cabrão, em suma. Este, sendo tudo isso, era mais ainda. Uma verdadeira e inútil aberração, espécie de prejuízo de pôr um burro a fornicar uma égua.
Andava ele, soube-se depois, de porta em porta a dizer: eu estive lá e sei dos recônditos. Eu conto! Quem dá mais? Não te chega? Não é suficientemente escabroso? – olha que ele chamou àquele filho da puta. Toda a gente já sabe? Então eu tenho aqui outro segredinho acabado de inventar – podes chamar-lhe investigação, se o publicares. Dou-te o que quiseres, quando quiseres, onde quiseres. É preciso é que me pagues com alguma coisa que me enfraqueça a dor que sinto. A dor de não ser gente.
(eu) Eu não sei o resto da história – que ainda está para vir –, mas adivinho-a. Nada te resolverá o problema, minúscula realidade!, nem à esquerda nem à direita. Nasceste com essa dor de não ser gente e há-de ser essa dor que te há-de enterrar, num cemitério deserto, sem ninguém a acompanhar os teus restos com forma de homem sem nunca o teres sido.
E até na morte serás falso.
É que nas costas dos outros vemos as nossas. Não sabes (eu sei que não), mas ensino-te se puderes: por mais que digamos mal uns dos outros – aquele “nós certos, eles errados” que te chega às ventas –, somos homens e mulheres. Tu és um verme e a gente – gente! – já percebeu.
Nem chegas a ser cabrão, que nem nunca terás quem te possa pôr os cornos. És apenas um remorso de gente.
(também no homem-garnisé)
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
