'Gostava que tivesse estado alguém da comunidade islâmica no protesto contra a lapidação. Se eu desconheço, se não fui, não significa que não concorde. Não fui informado, não soube. Se me disser que para a semana há uma manifestação dessas...'
'No caso do adultério o que conta não é os tribunais. É aquilo que se passou no tempo do profeta. Para acusar um adulto ou uma adulta de adultério o Alcorão diz que tem de haver 4 testemunhas oculares que têm de dizer exactamente o mesmo e de ter visto a penetração. E isso é impossível... Em todo o caso, mesmo que haja 4 testemunhas a pena de morte não é a pena adequada. Eu condeno a lapidação.'
'Se um homossexual da minha comunidade vier ter comigo eu não o vou condenar e mandá-lo para o inferno, não. Vou tentar saber um pouco mais, e se ele disser que é mesmo aquilo que ele quer, eu vou-lhe abençoar e dizer para ir em paz. E pode continuar a ser muçulmano e a ir à mesquita, claro. Um muçulmano só deixa de ser muçulmano quando decide assim, ele próprio.'
'O Alcorão não obriga as muçulmanas a usar o niqab e a burqa. Com o niqab, com o véu integral, a pessoa praticamente não tem identidade, há um problema de segurança, pelo que não sou contra a proibição. Mas também digo: até que ponto é que sendo eu livre, se eu posso vestir o q m apetece, se me estão a proibir não me estão a retirar uma certa liberdade?'
'Tenho 2 filhas e deixo ao critério delas. Uma acabou a licenciatura numa universidade de Lx, a outra está no 12º ano. Não andam de lenço, não andam de véu.'
'Se há integristas em Portugal? Há perguntas que me está a fazer para as quais não tenho resposta. Como é que eu posso saber? O que lhe posso dizer é que a comunidade islâmica é integrada, não é um gueto, são pessoas normais, que trabalham, que convivem normalmente com os outros, portugueses como nós.'
'Centro Islâmico em NY: Se é uma coisa privada, que se pode comprar e construir, se qualquer pessoa pode lá ir, por que não? E se não me engano quem está à frente é um iman que conheço pessoalmente e que considero um muçulmano equilibrado – é uma pessoa com quem já falei e aprendi imenso. Acho que se trata de algo que beneficia a humanidade.'
hoje, no programa agora a sério do canal q (15ª posição do meo), o sheik david munir, iman da mesquita de lisboa, fala sobre lapidação, julgamentos por adultério, mulheres, homossexuais e islão, a proibição do véu e da construção de minaretes e a polémica em nova iorque sobre a construção do centro islâmico junto ao ground zero.
Já cá faltava a ofensa das ofensas. É como dizes, Shyz, na senda da velha tradição, de lá e de cá, quando queres denegrir uma mulher chamas-lhe puta e está tudo dito: “A análise dos antecedentes de Carla Bruni mostra claramente porque esta mulher imoral apoia uma mulher iraniana condenada à morte por adultério e por ter participado na morte do seu marido, facto que faz dela também merecedora da sua própria morte”.
O dignitário mor da Igreja belga entre 1979 e 2009, o cardeal Godfried Danneels, cuja residência foi alvo de uma mui contestada busca há cerca de dois meses, tentou convencer o sobrinho do ex-bispo de Bruges Roger Vangheluwe, abusado sexualmente pelo tio entre os 5 e os 18 anos, a abafar o caso pelo menos até à resignação do bispo.
Os jornais "De Standaard" e "Het Nieuwsblad" publicaram o conteúdo de gravações divulgadas pela vítima, acusada de tentar chantagear a Igreja que, como se lê na Reuters, é triste de ler. É especialmente triste ler a parte em que o cardeal, cheio de comiseração pelo seu correligionário, recomenda à vítima que admita as suas culpas (!!!) e peça perdão... ao agressor, que, coitadinho, veria o seu nome na lama se o caso fosse tornado público - como acabou por o ser pela mão de amigos da vítima. Assim como é triste ler a reacção do cardeal à divulgação da gravação, divulgada pela Zenit. Não deixa de me espantar o contraste entre a compaixão e capacidade de perdão que a Igreja reserva ao seu clero e a forma como (mal)trata as vítimas, que, como neste caso, considera os maus desta fita. Tanto quanto sei, ainda não houve desculpas do Vaticano em relação à forma como reagiu às buscas, fundamentadas como se vê, de Junho.
«We’ve been attacked by the intelligent, educated segment of our culture». Reverendo Ray Mummert
«We face an aggressive secular attack*». Beato Tony Blair
Tony Blair, em refúgio nos Estados Unidos para evitar os protestos anunciados para o lançamento do seu livro de memórias, «A Journey», tem mostrado claramente que Tom Lehrer exagerou quando afirmou «a sátira política tornou-se obsoleta quando Henry Kissinger foi galardoado com o prémio Nobel».
quando alguém, para se justificar do facto de ter postado um texto execrável (para dizer o mínimo), mete pelo meio uma historieta sobre hitchens comparando-lhe a posição à do autor do post citado (qualquer pessoa, e é o meu caso, que seja admiradora e conhecedora de hitchens fica varada) e lhe acrescenta, para colorido, o relevantíssimo pormenor do que leu num papel numa cadeira, percebemos que se trata de arrependimento.
caro francisco, já percebeu que aquele texto que reproduziu sem um comentário, como quem o subscreve na totalidade e que agora diz que não teria escrito, é muito mau. óptimo. lamento que para tergiversar conte a historieta do papel na cadeira -- que a mim também me pareceu muito ridícula quando ma contaram mas que só pode ser assacada a quem lá o colocou. de uma coisa, porém, pode estar certo: eu não teria qualquer problema em sentar-me ao seu lado. para ouvir o hitchens ou para protestar contra a lapidação. é capaz de ser essa, na matéria em apreço, a mais fundamental diferença entre nós. a mesma que em 2006 me levou a ir à porta da embaixada da dinamarca manifestar-me pela liberdade de expressão. não perguntei quem ia estar ao meu lado. fui.
em adenda, um relato da 'manif' frente à embaixada da dinamarca. incrível, diz-se quem lá estava.
Para muitos qual será o objectivo de uma manifestação? Fazer barulho por fazer barulho e assim ficar em paz com a sua consciência? Se não é, parece, a julgar pelo que tenho lido por aí. Ponham lá os neurónios a trabalhar, vá lá, não custa muito.
Felix in Exile - William Kentridge
Nunca li um daqueles livros de boas maneiras dondocos. Se calhar devia. Dizem que são muito divertidos e se descobrem umas coisas. A única coisa do género que folheei foi em pré-adolescente e devia ser para aí dos anos 40 do século passado. Era tudo sobre banquetes e como apresentar embaixadores, que cor e comprimento de luvas e que tipo de chapéu escolher para cada ocasião e tal. Também havia uns livros “para meninas”: como sentar e andar e sorrir, do que falar, o que fazer quando um rapaz “mostra interesse”, o que desejar na vida e como lá chegar. Deliciosos.
Tal décalage temporal, porém, impede-me de poder certificar se algumas normas que me acompanham desde miúda no que respeita ao que “é bonito” e ao que “é feio” ainda constam dos tais códigos de bem conviver em toda a sala. Coisas, por exemplo, como “uma mulher honesta não tem ouvidos”. Uma mulher, desde logo: de um homem espera-se reacção, resposta, lavagem da honra (com sangue ou, pronto, umas pêras). Honesta: leia-se “séria”, “educada”, que “conhece o seu lugar” – humilde, reservada, aprimorada, adequada. Uma mulher que queira adequar-se espera que alguém fale por ela, a proteja, lhe guarde a dignidade – não se defende e muito menos ataca. Cala-se. Faz de conta que não ouviu. Se não quiser ser isso que se só se diz das mulheres: vulgar.
Vulgar é uma palavra interessante. Quer dizer normal, comum, mas também sem interesse nem apelo – ordinário. Ou seja, baixo, rasca, desprezível. Uma mulher que mostre ter ouvido algo de que não gostou e a quem passe pela cabeça responder; uma mulher que tente fazer valer a sua dignidade e ideias; uma mulher que, impensável, se lembre de discutir e levantar a voz é portanto uma mulher sem qualidade: medíocre, reles, em distinção – menos mulher, então.
Se não sei se ainda se dizem estas coisas às meninas assim desta forma, não tenho dúvidas de que ainda se dizem às mulheres – todos os dias, em todo o lado, e muitas vezes dito por mulheres. Qualquer uma, por exemplo, que se apresente publicamente a defender as suas ideias será sempre “histérica” e “arrogante”, ou, claro, “peixeira”, isto descontando tudo o que se dirá sobre o penteado, a largura das ancas, as rugas ou falta delas, a escassez ou excesso da sua vida sentimental, etc. Que as mulheres sejam as principais fautoras deste controle do género, esforçando-se, em manada, por manter o “decoro” das que tresmalham, não é pequeno milagre. É como se estivessem, o tempo todo, a assegurar-se de que não vão ter de se portar “como homens”, ou seja, a reagir e a defender-se e a atacar sempre que tal seja necessário, mas que podem continuar a pedir e esperar protecção (o que é o mesmo, talvez não se tenham dado conta, de pedir e esperar agressão). E que quem fura o esquema levará a etiqueta que merece, a do ridículo e do opróbrio.
Como as regras sobre colocação de pernas – sempre cruzadas, nunca “abertas” -- que só fariam sentido (esteticamente) no tempo em que as mulheres não usavam calças e funcionam como mais uma conformação à ideia de reserva e decoro e não ocupação de espaço, a maioria das normas chamadas “de boa educação” que se recomendam/impõem às mulheres são uma demonstração eloquente do quanto há a fazer em termos de desconstrução dos adquiridos e dos estereótipos. Podemos começar até por coisas aparentemente anódinas e simpáticas, como a regra de que os homens deixam sempre passar as senhoras ou lhes devem dar o lugar. Que fragilidade especial ou deferência específica distingue as mulheres dos homens, que os deverá levar a tratá-las com tal paternalismo? Todo um programa, então, a “boa educação” – e tanto a apontar-lhe. Com o dedo, sim, e bem espetado (e alguém, de caminho, que explique também esse aparvalhado interdito).
(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 22 de agosto)
é óptimo. mas não chega. espera-se do governo que faça o mesmo. ou mais, acompanhando o apelo de sarkosy para que a ue se mexa.
nesta matéria, e por muito que custe aos que se entretêm a ver pidices e censuras e policiamentos no normal e até obrigatório registo de posições -- tudo o que sirva para distrair do essencial e para fazer exactamente aquilo de que acusam quem se limita a fazer o óbvio --, o silêncio não é aceitável. a distracção não é admissível. nada menos que a mais absoluta recusa, nada menos que a mais veemente condenação.
em momentos como este, ou se está contra os lapidadores, ou se está com eles. (sim, é uma adaptação do célebre discurso de bush pós-11 de setembro. sim, eu estou a citar george w bush. figure that).
Parece simples, Besugo, não é?
Sobriety, Obesity & Growing Old (1991)
Eu acho que não, Rui, mas parece que há gente em total desacordo. Enfim, "opiniães".
não gosto de -- nem acho que deva -- falar de casos judiciários intrincados dos quais nada sei, e mais ainda quando metem mortes. mas neste romance negro em que duarte lima foi erigido em suspeito número um pelos media nacionais parece haver, para além do já habitual atirar às urtigas da presunção de inocência e do dever de não fazer acusações sem provas (de que o rui já falou e muito bem aqui), um problema básico de racionalidade.
um advogado que recebeu, alegadamente, cinco milhões de euros de uma cliente, dinheiro que outros afiançam não pertencer à cliente para dele dispor, e que teria nesse dinheiro, seguindo a trama do romance, o seu móbil, iria colocar-se, no dia da morte (supostamente 'encomendada') da cliente, com ela, e levá-la no seu carro ao encontro do assassino/assassina? ou iria, ele mesmo, com as suas mãos, matá-la?
tudo é possível, responder-me-ão. é, admito: tudo é possível. mas há coisas bastante mais possíveis que outras. e por mais que a ideia de um advogado de alta cilindrada, ex-dirigente do psd, estar implicado numa morte seja de molde a fazer babar os autores das manchetes, usar as sinapses (e não as pedras) talvez não seja má ideia -- vá, de vez em quando.
"Portugal adoptou o Serviço Nacional de Saúde como modelo de organização dos cuidados de saúde. Cobre toda a população residente, mesmo os emigrantes e estrangeiros, garante a prestação da totalidade de cuidados e nada cobra dos doentes quando estes o procuram, a não ser taxas moderadoras relativamente pequenas das quais a maioria da população está isenta. Cumpre-se o que prescreve a Constituição: o SNS é universal, geral e tendencialmente gratuito.(...)", continuar a ler a Sofia.
é que como nos ladrões e nas ocasiões, às vezes parecem tão irresístiveis para quem as faz que ocorre isto.
anoto que o 31 da armada continua apostado na sintonia com o totalitarismo putrefacto que se reclama de 'extrema esquerda', sendo apenas, se se quiser ser piedoso -- e eu quero, porque deus sabe o quanto aquela gente sofre e não é o facto de saber o que me sucederia se algum dia mandasse que me impede de lhe deplorar a miséria -- de extrema cretinice. parece que no 31, e não só, estão um bocado chateados por eu ter feito um relato factual das presenças e ausências de gente com responsibilidade política, institucional e associativa na manif de ontem. quem sabe acham que dei pela falta dos ora signatários -- não, caros, estava mesmo a anotar, com critério jornalístico e não de revista de coração, quem estava e quem, fazendo sentido estar por posições anteriores em relações a assuntos conexos (isto do meu modesto ponto de vista, como não poderia deixar de ser, já que dos pontos de vista dos outros ocupar-se-ão, desejavelmente, os ditos) não esteve nem disse sobre o assunto uma vírgula para amostra.
mas isso agora não interessa nada. interessa que há quem não consiga -- e tudo sobre a resistência a este protesto de ontem no camões releva disso -- entender que há gente que não se encaixa na sua pequeníssima, infinitesimal, microscópica de tão medíocre, visão do mundo.
se alguém é de esquerda -- e eu julgo sê-lo -- se defende os direitos das mulheres (e eu defendo) e das chamadas 'minorias sexuais (é o meu caso), se é contra expulsões e perseguições xenófobas (eu sou), então só pode, como tenho constatado em inúmeras e infalíveis (por suposto) apreciações sobre mim, ser anti-israel, anti-eua, pró-árabe e sei lá mais o quê, que passa, mais tarde ou mais cedo, por se ter de certeza oposto à invasão do iraque pela coligação eua-reino unido-polónia e não me lembro dos outros.
isto tem vários problemas, não sendo o menor deles ser uma estupidez. é que demonstra várias coisas, uma delas sendo uma a que estou felizmente tão habituada que ao invés de me irritar já só me diverte: muitas das pessoas que têm e exprimem certezas absolutas sobre mim e as minhas opiniões e posições, certezas as mais das vezes ofensivas, para não dizer injuriosas e caluniosas, não devem ter lido meu mais que três parágrafos, e mal. estão, naturalmente, no seu direito; mas esse direito tão total deveria desaconselhar-lhes a expressão de apreciações definitivas sobre o que penso ou defendo -- ou seja, o que sou.
isto para não falar dessa coisa também completamente incompreensível, e mais ainda vinda de um blogue de alegados liberais de direita e onde já se leram coisas de arrepelar os cabelos que levaram até em alguns casos a que quem as escreveu saísse com um casaquinho de alcatrão e penas, que é achar que a opinião de uma pessoa de um blogue vincula todas as que escrevem no mesmo.
pois não. não há aqui 'os jugulares'. há a fernanda câncio, neste caso, que é a autora do post lincado, e que, como é público há muitos anos e também muito recentemente, apoiou a invasão do iraque. uma posição que decerto não comungo com a maioria das pessoas deste blogue nem com a generalidade das que estiveram no camões ontem, mas que não me impediu de lá estar nem as outras pessoas comigo, como me não impede de estar neste blogue. aquilo que nos juntou é muito mais importante -- eu vejo-o assim -- que aquilo que nos separa.
assim, parece que a graçola faz ricochete. não fui eu que cheguei tarde a algo -- mesmo se não considero que invadir o irão ou bombardeá-lo seja a solução, até porque estou ainda para ver o resultado das invasões que apoiei (afeganistão e iraque) --; parece ter havido alguém que se lançou, e de voo como é costume nos rapazes que confundem boçalidade com coragem, no vazio. espero que não se tenha magoado muito. até porque vai haver mais ocasiões, decerto, para se estampar.
nas minhas contas, éramos entre 250 e 300, ontem, no camões. muito menos do que deveríamos ser, decerto -- mas há um ano, como a joão/shyz bem diz ao público, numa concentração convocada por iranianos a residir em portugal na sequência da revolta de rua contra o resultado das eleições para a presidência (alegadamente 'marteladas'), éramos bem menos.
como tinha anunciado aqui, estive muito atenta aos silêncios e às ausências. reparei que, à excepção de januário torgal ferreira, nenhum alto representante da igreja católica portuguesa, que tanto latim gasta com a 'defesa da vida', abriu a boca para comentar o destino de sakineh, quanto mais estar presente no camões. reparei que nenhuma das figuras de organizações tão vocais contra o que consideram 'o morticínio de inocentes' e que se reúne sob o chapéu 'federação de defesa da vida' esteve no camões, como reparei na ausência das primeiras figuras de organizações de defesa dos direitos das mulheres como a umar (que divulgou o evento, por sinal).
já tinha aqui assinalado o silêncio de gente habitualmente obcecada com o combate ao que consideram ser -- muitas vezes bem, diga-se -- o fundamentalismo islâmico. não havia lá um 'blasfemo' para amostra. também não vislumbrei um único elemento identificável da comunidade islâmica de lisboa nem, já agora, da representação portuguesa dos inimigos ajuramentados do irão (os judeus, pois então -- para disfarçar, dirão alguns pobres idiotas).
dos partidos, havia gente. o daniel oliveira e o rui tavares (deputado europeu independente pelo be). edite estrela e ana gomes, eurodeputadas socialistas; ana catarina mendes e inês de medeiros, deputadas do grupo parlamentar do ps. do governo, elza pais, secretária de estado para a igualdade, que foi ostensivamente ignorada por todos os jornalistas presentes (aposto que por não fazerem ideia de quem se trata).
vi ainda a presidente da comissão da igualdade e o director geral da saúde -- ambos discretos, apesar de francisco george ter sido 'lobrigado' pelo dn, e a sub-directora da rtp-2 paula moura pinheiro. e não vi, mas esteve lá, o dirigente sindical antónio avelãs.
ninguém do pp e do psd, que se tenha reparado -- se estavam lá, desculpem, não os vi. e do pcp também moita -- embora uma das organizadoras da manif, a juju inês meneses, seja militante. a ausência de membros notórios do pp é talvez compreensível -- afinal, estavam decerto agrupados para a rentrée pauloportista dos referendos sobre a justiça (e referendar o apedrejamento sumário dos detidos em flagrante delito? -- uma ideia também tão gira) -- mesmo se me recordo bem que em 2005, aquando da crise das caricaturas, o pp se mandou como gato a bofe a freitas do amaral, então ministro dos negócios estrangeiros, por ter feito um comunicado (absolutamente inadmissível e patético, por sinal) a 'contextualizar' a reacção dos que em nome de deus andaram a matar como reacção a desenhos. como será compreensível a de gente grada do pc, toda decerto a construir a festa do avante. o psd, bom, deve estar de borracha e corrector à volta da proposta de revisão constitucional, sem cabeça para mais.
nem um candidato presidencial para amostra; nem um alto representante de uma amnistia internacional.
é verão e estava muito calor, bem sei.
noutros países, noutras cidades, as concentrações como a que ocorreu em lisboa -- 111 no mundo todo -- contaram com organizações, de associações de mulheres a partidos comunistas, a coordenar e a convocar. aqui, meia dúzia de facebookianos fizeram a festa. o que explica os megafones de má qualidade, os materiais fotocopiados em casa, as convocatórias por sms para listas telefónicas individuais. mas, apesar disso, éramos tantos ou mais que em paris, por exemplo -- a paris na qual um presidente de direita já apelou à ue para que tome uma posição conjunta por sakineh e por todos os que nas prisões iranianas aguardam sentenças de morte tão bárbaras e obscenamente surreais como a que impende sobre ela (seja lapidação ou enforcamento).
não podemos parar aqui, no entanto. outra acção se prepara em várias cidades do mundo, agora para 2 e 3 de setembro, agora por shiva nazar ahari, com julgamento marcado para 4 de setembro por conspiração e 'incitar à guerra contra deus' (que, adivinharam, é punida com a morte). isto nunca acaba, até acabar.
adenda muito oportuna: este texto de rui bebiano, no terceira noite.
Não sei se o Ministério da Virtude iraniano foi formalmente instituído mas a Oriflame já sentiu a sua acção. Querendo certamente cortar pela raiz a causa da actividade sísmica na região, abalada na noite de sexta por mais um terramoto, o regime dos ayatollahs resolveu suspender a actividade da firma sueca de venda directa de cosméticos, que tinha no Irão o mercado mais florescente do oriente: cerca de 20% das vendas na Ásia. Como sempre, o que passa por justiça neste país tem-se entretido na última semana a fabricar acusações para justificar a sentença. Primeiro, tentaram acusar a Oriflame de vender os seus produtos através de um esquema fraudulento. Como a acusação não pegou, depois de prender por espionagem 5 dos seus funcionários, ontem o ministro iraniano das secretas afirmou, usando o mausoléu de Khomeini como pano de fundo, que a Oriflame é uma ameaça à segurança do país:
Francisco, estavas em frente à AR no dia da "luta" pela liberdade de expressão? Assinaste a petição?
Alô Tiago remember me?
uma das lições a tirar, antes mesmo do protesto que esta tarde vai unir lisboa a mais 110 cidades de todo o mundo, é que mesmo num caso aparentemente tão claro de barbárie e selvajaria as hostes se organizam em função do que pensam serem as identidades e objectivos de quem organiza. blogues habitualmente tão críticos de tudo o que cheire a islão mantêm ou um rigoroso silêncio sobre a iniciativa ou reproduzem textos de confrangedora infantilidade (para não dizer estupidez pura), espécie de 'não contem comigo para ir para a rua gritar, eu cá é mais bombas' -- como se a inacção perante o horror fosse uma alternativa mais 'pura' que a expressão do horror perante o horror, e como se mais não houvesse no mundo senão egos televisivos.
alguém sabe o nome de quem organizou este protesto, além do grupo de pessoas que estão desde o início -- há uns dias, no facebook -- nele? alguém sabe mais que o facto de serem pessoas ligadas à esquerda e à defesa da liberdade individual e dos direitos das mulheres que o subscrevem? não. e porquê? porque nenhum dos que organizaram quer palco -- quer apenas que hoje, em lisboa como em sidney, nova york, ancara e rio de janeiro, haja gente na rua a dizer não às repugnantes decisões de tribunais religiosos e às execuções decididas por um governo teocrático e brutal (e se foi eleito democraticamente ou não, francamente, não interessa para o caso: não age como um governo democrático).
é instrutivo, sim, assistir ao silêncio e aos insultos que são a reacção de uma parte considerável da blogosfera portuguesa e dos grupos organizados da sociedade em relação a isto.
de um lado, a direita caceteira e sempre pronta a arrasar tudo o que cheire a islão mas que recusa associar-se a um protesto contra a lei islâmica do irão porque lhe parece ter objectivos 'esquerdistas'; do outro aquilo que passa por esquerda mas mais não é que a putrefacção das ideias mais totalitárias, que acusa milhares, talvez milhões de cidadãos autónomos e anónimos que não suportam a ideia de execuções arbitrárias ou simplesmente de execuções tout court de serem 'manobrados' pela cia e pelo 'sionismo'. gente tão desgraçada, esta, que nada mais vê que 'instrumentalizações' e 'maquinações' naquilo que há de mais espontâneo e generoso e justo: protestar contra a barbárie.
nós escolhemos dizer não. vocês escolhem calar-se ou, pior, escolhem tentar calar-nos. fica escrito, fica dito.
adenda: miguel madeira e miguel serras pereira.
'Estou fora de Portugal e por esse motivo não estarei presente nesta manifestação contra a iniquidade. Mas quero agradecer às organizadoras e aos organizadores por provarem que neste país ainda há pessoas sensíveis e civilizadas.
Queria também lembrar que morrem em Portugal muitas, tantas mulheres assassinadas pelos maridos e namorados e que quase ninguém fala delas.
Neste caso, porém, trata-se de uma morte decidida pelos tribunais, pelo Estado e pela religião, o que é ainda mais terrível e revoltante.'
(declarações anotadas após um telefonema deste bispo português. januário torgal ferreira é a primeira voz da hierarquia da igreja católica portuguesa a declarar o seu apoio ao protesto por sakineh e contra a lapidação e as execuções no irão. entretanto, são já 111 as cidades que se juntaram a este protesto mundial)
Em Maio escrevi um post em que me indignava com a eleição do Irão para a comissão de promoção dos direitos das mulheres na ONU. Hoje, é ainda mais incompreensível a manutenção do Irão neste cargo.
Gabriel Abrantes hoje no "ATUAL/ Expresso" entrevistado por Celso Martins e Francisco Ferreira
Com imagens de Nuno Botelho
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
