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jugular

Com dedicatória agradecida*

 

* Para o Rui Tavares e o Paulo Pena

 

Adenda: outro agradecido aqui "De repente, numa espiral de emoções e pensamentos cruzados, acordamos, é fim de tarde em Lisboa e estamos sentados no Jardim de Inverno do S.Luiz a ver Andrew Bird de olhos fechados a balouçar ao som de The night they drove old Dixie down, de violino na mão pronto a cantar-se e a contar-se. E a cidade parece fazer um pouco mais de sentido."

Uma inovação terapêutica

Tem 49 anos e está completamente incapaz de se governar sozinha, depende de terceiros para as tarefas mais básicas - fazer a sua higiene diária, por exemplo. Mas já foi diferente, muito diferente.

 

Uma excelente estudante, conseguiu fazer o magistério primário e, posteriormente, uma licenciatura. Na sua área profissional esteve sempre entre os melhores, actualizando-se permanentemente. Foi-lhe diagnosticada uma perturbação bipolar, não sei exactamente quando. Aprendeu a doença e continuou a fazer a sua vida pessoal e profissional.

 

Entretanto, dentro de casa, o inferno. Numa terra pequena, com dois filhos, viveu enrolada na vergonha e no medo. Um dia os gritos eram tantos, os dela e os dos filhos, que se tornou impossível aos de fora manter a aparente surdez. Um homem novo bate à porta da mãe, que vivia perto, pede-lhe que vá em auxílio da mulher e avisa-a que ele próprio irá chamar a GNR. A pretexto de ir entregar ao genro "umas camisas passadas a ferro" bate à porta da casa do casal, onde os gritos e o choro continuavam. O homem barrou-lhe a entrada. Decidiu, então, pedir ajuda a um vizinho, com muito medo até porque achava que poderia ser desta que a filha lhe morria. Diz-lhe o vizinho "está bem, entre, eu marco o número e a senhora fala com os guardas, não quero problemas, o seu genro é mau, muito mau". Lá chamou a GNR que chegou pouco depois, já havia sido contactada.

 

Estava mal, ela, mal e muito estranha. Refugia-se em casa da mãe e do padrasto com as crianças. Não consegue estar sozinha, dorme agarrada à mão do padrasto e pede-lhe que não a deixe. Levada ao médico é-lhe reajustada terapêutica para "um episódio depressivo grave". Inicia-se o processo de divórcio - não vou descrever as peripécias macabras, os dinheiro que foram necessários arranjar para "safar" a casa da família. O estado clínico não evolui, o medo continua e as alterações de comportamento não remitem. Mais terapêutica "para a depressão". Muitos efeitos colaterais depois e muda-se de médico. E muda-se outra e outra vez. O já ex-marido foge do país, depois de ajustadas as mais valias da casa, claro. A incapacidade laboral é total, a baixa médica é mantida. Volta à escola sem actividade lectiva, por determinação dos colegas é colocada na biblioteca. Sol de pouca dura, as alterações comportamentais falam mais alto. A "depressão" não passa. Finalmente, 4 anos depois, um TAC. Bingo! Múltiplas lesões corticais, duas delas, as mais extensas, frontais, com mais que certa etiologia traumática. Irreversíveis. Está explicado o novo quadro clínico, um síndrome demencial. Se algum dia teve uma perturbação bipolar está curada, à tareia.

 

Ps: É, infelizmente, uma história real e fui autorizada por quem de direito a falar dela. Talvez ainda possa fazer-se alguma coisa por esta mulher, conseguir uma réstia de dignidade nos dias que lhe restam. Talvez. Não é fácil. Quantas mais existirão?

desenganos

Eis o pacote de medidas brutas que há muito se agoirava. Perante isto, várias reacções possíveis. Desde logo, o protesto: vem tarde e já não resolve nada; era mais ou menos isto mas não chega; é um crime - baixar ordenados e subir impostos não pode, por definição, ser certo (excepto em Cuba, onde se despede 10% da população sem meia grevezita geral para amostra); é ceder à chantagem "dos mercados" e "da Europa dos ricos" e vai lançar o País na recessão. Há também, claro, o aplauso: o Governo teve a coragem de fazer aquilo a que o forçaram.

 

E há a perplexidade. Afinal, foi com este ministro das Finanças e este primeiro-ministro que em finais de 2008, o Governo anterior, depois de ter levado o défice a 2,8%, considerou ter condições para aumentar os funcionários públicos 3% e baixar o IVA de 21 para 20%. Um ano depois, o actual Governo assumia um erro na previsão do défice de 2009, colocando-o nos 9,5% (um mês antes calculara-o em 8%). "Eu engano-me mas não engano" disse, a propósito, Teixeira dos Santos, defendendo no Programa de Estabilidade e Crescimento 2010/2013 uma redução de défice de mais de metade para 2011 - igualzinho ao da Alemanha, nem mais nem menos, com subida de impostos e cortes na despesa. Nada que comovesse as empresas de rating, entidades descobertas este ano pelos portugueses e que, na sequência da crise grega, despencaram a dívida soberana ameaçando Portugal com a ruína e a intervenção do FMI. Que, enquanto isto, a economia portuguesa desse mostras de ser das que na UE melhor recuperavam da crise, enquanto a da Irlanda, farol do liberalismo e das "medidas certas" (inaugurou os pacotes draconianos), ia por ali abaixo, não interessou nada: "os mercados" apertaram o garrote. E se em Maio o Governo resistiu a avançar com os cortes já efectuados pela Irlanda, Grécia e Espanha, agora não teve outro remédio.

 

Aqui chegados, algumas conclusões. Primeiro, quanto ao que disse Teixeira dos Santos: enganar-se é, nesta matéria, enganar - por mais honesto (não intencional) que seja o erro. Segundo, e pior, parece que seja o que for que Teixeira dos Santos ou o Governo façam, seja o que for que como comunidade façamos, o destino financeiro do País não está nas nossas mãos nem sequer num qualquer reduto de racionalidade exterior à "lógica dos mercados" e que, talvez seja de lembrar, conduziu o mundo à maior crise desde os anos 30 do século passado (e a essa também). O que não significa, é claro, que não tenhamos andado a fazer muita coisa mal (a quantidade de fraudes encontradas nas prestações sociais faz pensar como raio, se era tão fácil descobri-las, não tinham sido descobertas - e em todas as outras áreas onde igual afinco racionalizador é vital); significa que por mais que façamos "bem" ou o que nos dizem que temos de fazer, o resultado pode ser o mesmo.

 

(publicado hoje no dn)

Algayquerque

 

Confesso que um temporário afastamento destas lides da blogosfera me deixou desactualizado sobre o que de mais interessante se vai escrevendo. Que ninguém se admire, portanto, se eu me referir a coisas de há 6 meses como se se tratasse de últimas novidades. Foi, assim, com prazer que retomei o contacto com alguns dos meus blogs favoritos, e com alguma admiração que constatei evoluções de discurso, mudanças de poiso, renovações e novos nomes. Há quem, todavia, permaneça sempre igual a si próprio ainda que mude de estendal. Assim, e para meu deleite, verifiquei que o terríbil Rui Crull Tabosa continua a escrever perspicaz e inteligente prosa, depois de uns belos posts (sobre os quais fiz uns quantos laçarotes no embrulho) que lhe valeram a promoção de grumete a moço corta-fitas (excelente inspiração para nome de blog, aliás, que sempre me recorda a carinhosa alcunha com que o saudoso almirante Thomaz era chamado aqui pelas minhas bandas, a de corta-fitas e papa-almoços).

Constato agora que o camarada blogger indigna-se com um subsídio anual que o governo concede à ILGA, no valor de 6000 euros, e abespinha-se que os nossos impostos sirvam para alimentar "os amig@s coloridos do PS". Quando alguém aqui da casa lhe respondeu, replicou com a sagacidade inovadora a que já nos habituou. É que, caramba, aos gays não se lhes pode mandá-los para a terra deles, como se faz a outros géneros sub-humanos como pretos, monhés e ciganos, não é? Tem que se aturá-los, agora casados e tudo. Mas cumulativamente gays e amigos do PS já é demais. Curiosamente, a fonte que cita tem uma infindável lista de entidades, tudo amigalhaço do governo, pois então, e a comer dos nossos impostos: muitas associações, fábricas, clubes, empresas, rádios e sabe-se lá que mais ao serviço do Largo do Rato, um rol de gente. E ora vejam que até o Santuário do Cristo-Rei é amigo do PS e papa 37458,75 € ao erário. E o Clube de Caça e Pesca de Penamacor saca mais de 50 mil euros. Mas concedo que são boas causas, dinheirinho dos nossos impostos bem aplicado, nada que se compare aos antros esbanjadores e inúteis de rabinagem que o colega denuncia.

Acho que devia ir mais longe e prosseguir a cruzada, porque anda para aí muita gente a precisar de libelos idênticos. Então não é que um certo autor espanhol (certamente amigo do PSOE e a soldo da ILGA lá do endemoninhado país dele) escreveu um livro onde alega que várias figuras da egrégia História Pátria, D. Pedro, D. Sebastião, o Infante de Sagres, era tudo gentinha dessa? Gays, pelo menos, mas nessa condição passariam certamente a amigos do PS, como é inevitável. Até Afonso de Albuquerque, símbolo da virilidade lusitana e ícone e ídolo do nosso compincha corta-fitas? Como é possível, valha-nos S. Sebastião Assetado?

Pela minha parte, desconheço qualquer prova documental de tal aberração anti-patriótica. Parece que, como vai sendo hábito, e na ânsia de dizer coisas chocantes à moda do Correio da Manhã, o autor espanhol alinhavou umas linhas e uns dizeres mal-enjorcados e baseou-se numa obra de um médico do início do século XX que, por sua vez, cita uma laracha que o próprio governador da Índia gostava de proferir, segundo o cronista Diogo do Couto: "sabeis quão má gente é a da Índia, que me puseram que era puto". Inimigos e ódios era coisa que Albuquerque coleccionava e comia ao pequeno-almoço, e aqueles que faziam correr estes rumores eram provavelmente os mesmos que se queixavam ao rei dizendo que, logo após a conquista de Malaca, o governador ter-se-á fechado na fortaleza de Goa "com 40 ou 50 putas (...) e meteu-se com elas todas em uma torre sem nunca sair nem lhe poder falar homem nem mulher". Ah garanhão, então não se vê logo por aqui que era um verdadeiro português de raça?

Mas cuidado, porque "provas", arranjam-se as que se quiser e há gente capaz de tudo, não é verdade? Sabe-se lá o que farão alguns com o dinheiro dos nossos impostos, inspirados pelo hijo de puta. Prevejo que, não tarda, temos as ILGAS e tudo o que é associação de tarados e freaks (amigos do PS, evidentemente) a transformar os heróis da nossa História, em especial o conquistador do Oriente, em símbolos  gay. Lanço portanto um apelo sentido ao Tabosa para que nos brinde com um dos seus brilhantes exercícios neuronais para desmentir e prevenir tal ignomínia. A Bem da Nação.

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