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jugular

Das Bail-out

 

A taxa média ponderada da operação organizada pela UE para socorrer a Irlanda é de 5,85% (0,05 pp podem parecer uma mesquinhez, mas trata-se na realidade de muito dinheiro). Como o FMI vai emprestar a uma taxa a rondar os 5%, deduz-se que o custo da liquidez cedida pelos amigos da zona euro ficará próximo dos 7%.

É caso para dizer que, com amigos ferozes como estes, a Irlanda talvez preferisse lidar exclusivamente com inimigos. Acontece que não pode, porque a própria intervenção do FMI exige o aval prévio da chanceler Ângela Hamlet.

Que fez de mal a Irlanda para merecer tal tratamento? Durante duas décadas comportou-se como o inultrapassável bom aluno: liberalizou por completo o mercado de trabalho, retirou todos os obstáculos à entrada e saída de capitais, baixou os impostos até ao limite (com destaque para os que incidem sobre os capitais), cortou nas despesas públicas para compensar a quebra de receitas fiscais.

Transformou-se num gigantesco esquema off-shore, a ponto de quase 1/4 do seu PIB não contribuir um cêntimo para o Rendimento Nacional. Alguns êxitos efectivos na economia produtiva foram rapidamente submergidos pela maré alta da especulação financeira e imobiliária que, por um tempo, pareceu transformar o país no mais rico da rica zona euro.

Que pode agora fazer a Irlanda para perpetuar o seu estatuto de bom aluno. Fazer mais "reformas"? Mas quais, se o receituário foi esgotado?

À Irlanda, como a nós, só resta rezar para que a anunciada catástrofe do euro se agrave tão rápida e dramaticamente que torne inevitável uma inversão de 180 graus na governação económica europeia.

Do que precisamos, afinal, é da iminência de um desastre tão completo e total que nem tribunal constitucional alemão nem BCE tenham força para se oporem à necessária união fiscal que qualquer zona monetária bem formada requer e sem a qual rapidamente caminharemos para a desagregação da zona euro.

Há responsáveis por isto, certo? E consequências, hum?

"Metade das unidades de saúde envolvidas num estudo da Deco nega consulta a jovens que procuram contracepção de emergência e a maioria das farmácias não segue as melhores práticas na dispensa do medicamento."

 

Se calhar valia a pena relembrar aos profissionais de saúde das referidas unidades o Decreto-lei 229 de 2000 e a Lei 12 de 2001, nomeadamente:

 

Plano inclinado

"Irei argumentar que os postulados da teoria clássica se aplicam apenas a um caso especial e não ao caso geral. (...) Acontece que as características do caso especial assumidas pela teoria clássica não são as da sociedade económica em que vivemos actualmente, com o resultado do seu ensino ser enganoso e desastroso quando tentamos aplicá-lo a factos reais"

 

John Maynard Keynes, A Teoria Geral

Carta para o Financial Times

No dia 25 de Novembro enviei a seguinte carta ao editor do Financial Times:

 

"Sir, you article 'Blow for Portugal as state deficit widens' seriously distorts and misrepresents the data for the first 10 months of 2010. According to the European Union’s accounting rules, the total public deficit is the consolidated data for five subsectors: central government, autonomous services, local administration, regional administration and social security. Having said this, and contrary to what is written in the aforementioned article, the deficit did not widen 215 million euros - that is the value for the subsector central government only. When we take into account the five subsectors, the total consolidated public deficit decreased 371 million euros (-3.63%). This trend is in line with the most recent Government’s forecast for this year’s budget deficit of 7.3 percent of GDP.

 

Since the relevant indicator is public deficit in % of GDP, the data for GDP in 2010 reinforces this positive result, because Portugal is expected to grow 1.5%, more than doubling what was implied in the budget for the same period.

 

Also, the budget for 2011 – under approval by the Parliament as I write - aims to reduce the public deficit to 4.6 percent of GDP, which amounts to one of the boldest consolidation efforts in the Eurozone."

 

O jornalista Peter Wise respondeu o seguinte:

 

"Thank you very much for your letter of November 25 to the editor of the Financial Times. As the journalist who wrote the article, please allow to take this opportunity to reply and address the main point you raise. In essence, I believe it’s based on a difference over the terms used. I was certainly aware that the figure I was referring was only one component of the overall budget deficit. For this reason, I referred to it as the ‘state deficit’ and the ‘core state deficit’, intending to make the distinction with the budget deficit. You refer to it as the ‘central government deficit’ and I believe this is where our difference over terms lies. I fully accept your term, the ‘central government deficit’, as equally appropriate, but would also like point out that ‘core state deficit’ is a term for the same item that is often used in analysts reports for this item. I go on to quote a Commerzbank economist as saying that, based on this figure for the core state or central government deficit, he believes it will be difficult for the government to meet its target for the overall budget deficit this year. To give balance, I also cite the government as rejecting this forecast, saying that it is on track to meet its 2010 goal for the overall budget deficit. In a subsequent article, ‘Portuguese unions strike over austerity plan’ on November 24, I quote the finance minister as saying: “the budget outcome in October was affected by the “one-off” effect of a “concentration of interest payments”, insisting that Portugal remained on course to cut the budget deficit from a record 9.3 per cent of gross domestic product in 2009 to 7.3 per cent this year”. Thank you very much for your letter and the interesting points you raise. I hope that you find this a satisfactory response. I would welcome any further comments you might like to make on this or other questions relating to Portugal."

Nunca é de mais insistir num erro

O inefável Oli Rehn volta a atacar. No dia em que ficamos a saber que a Comissão Europeia estima que o défice português de 2011 fique pelos 4.9% por causa de um agravamento das condições económicas e da subida dos juros, o todo-poderoso Comissário para os Assuntos Económicos e Monetários dá um salta lógico e conclui que podem ser necessárias medidas adicionais de consolidação orçamental. Está certo: se a austeridade não convence os mercados e deprime a economia, a conclusão, como é óbvio, só pode ser: mais austeridade. Se dúvidas houvesse ficamos a saber que a estratégia suicida e irracional defendida pela CE não é passível de ser avaliada quanto à sua eficácia, pois é um apriorismo dogmático que, dê por onde der, tem de funcionar. Porquê? Porque a teoria (a dele) diz que tem de ser assim. Estamos no campo do fanatismo e da mais pura cegueira ideológica. Se a realidade parece desmentir a teoria, o problema só pode ser da realidade. E o plano b, sabemos agora, não é mais do que a radicalização de todos os planos a. Daqui a uns anos, ainda veremos todos os liberais dizer o que disseram os comunistas sobre o socialismo real: a verdadeira austeridade falhou porque nunca foi verdadeiramente tentada. Primeiro como tragédia, depois como farsa. Estamos nisto.

Eles não percebem identidades contabilísticas básicas

"One thing is clear from the remarks that continue to emanate from Germany’s policy makers, including the latest from Schauble. They do not understand basic accounting identities. They fail to see any kind of relationship between their own export model and their trading partners. It is ironic (and more than a touch hypocritical) that Germany chastises its neighbors, like Greece, or its trading partners like the U.S., for their “profligacy”, but relies on these countries “living beyond their means” to produce a trade surplus that allows its own government to run smaller budget deficits. (...)The entire European Monetary Union structure is a mess. The euro zone members are all trapped within this monetary monstrosity, Germany included. Germany might occupy the penthouse suite, but it’s the penthouse suite of a roach motel. The EMU was conceived under profoundly anti-democratic circumstances (the German voters never had a chance to vote by referendum on whether to abandon the Deutschemark in favor of the euro), so it isn’t fair to extend the charge of hypocrisy to the nation as a whole. But the German people have been significantly ill-served by elitist technocrats such as Wolfgang Schauble. As one of the architects of European Monetary Union during his time under the Kohl Administration, he at least bears some responsibility for this abominable fiscal/monetary halfway house, which serves nobody’s interests, Germany included. Herr Schauble would be on much stronger grounds to critique U.S. policy making if he had the guts to acknowledge this and try to sort out what he helped to create before hypocritically lecturing Americans on their profligate ways. Our “sins” enable them to sustain their export juggernaut."

 

Marshall Auerback, How do you say 'Hypocrite' in german

Quatro reparos a um debate

 

 

Ler este post da Palmira (seguido deste, com o debate completo) deixou-me desconcertado. Não exactamente o post em si, nem as afirmações dos intervenientes, nem sequer o resultado da sondagem à audiência. Trata-se, afinal, de dois participantes de peso, cada um à sua maneira, pelo que não duvido que, como diz a Palmira, o debate tenha sido muito bom e interessante. Mas não o vi e não tenho intenções de vê-lo, pelos motivos que passo a explicar. O que me deixou desconcertado foi o próprio tema em discussão: "Be it resolved religion is a force for good in the world", com um a favor e outro contra. Raras vezes fui confrontado com tamanho absurdo: avaliar a bondade da religião? Não de uma religião numa problemática concreta, de uma classe sacerdotal de um país num contexto específico ou da componente religiosa de uma certa questão, mas da religião; e não se tratou de analisar temáticas religiosas, de debater os desafios do mundo actual às religiões ou, simplesmente, abordar ecumenismos, secularismos ou "diálogos de civilizações" (religiosas ou não). Tão-somente, decidir se a religião é "uma força para o bem no mundo". Assim mesmo, é ou não é, quem é a favor, quem é contra, quem acha que sim, quem acha que não, bem e mal, coisa boa ou coisa má. E, no fim, a audiência pronuncia-se sobre "quem ganhou". Pelos vistos, "ganhou" Hitchens, a religião é, portanto, uma coisa má, faz mais mal que bem. Que se segue? Um referendo a favor da abolição da religião?

 

...! )

 

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