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jugular

De relativismos morais

Na sua mui contestada visita ao reino Unido, Bento XVI debitou umas ainda mais contestadas palavras para explicar as causas do Holocausto:«Enquanto reflectimos sobre as advertências do extremismo ateu do século XX, não podemos nunca esquecer como a exclusão de Deus, da religião e da virtude da vida pública, conduz em última análise a uma visão truncada do homem e da sociedade.»

 

Uns meses depois destas afirmações e escassos dias depois de se saber que o Vaticano enviou (mais) um padre abusador de menores para um retiro de oração e penitência, certamente para confirmar que sem fé em deuses não há moralidade possível, o Vaticano confirmou o que há muito se sabia mas era veeementemente negado:

 

«Confidential Vatican reports obtained by the National Catholic Reporter, a weekly magazine in the US, have revealed that members of the Catholic clergy have been exploiting their financial and spiritual authority to gain sexual favours from nuns, particularly those from the Third World who are more likely to be culturally conditioned to be subservient to men.

 

The reports, some of which are recent and some of which have been in circulation for at least seven years, said that such priests had demanded sex in exchange for favours, such as certification to work in a given diocese.

 

In extreme instances, the priests had made nuns pregnant and then encouraged them to have abortions.»

 

Claro que todos sabemos que para o Vaticano os únicos maus da História são os ateus, os relativistas morais que conduzem a uma visão truncada do homem e da sociedade, responsáveis por todos os males do mundo, em particular, responsáveis por denunciar a muita roupa suja moral escondida pelo Vaticano.

Eleições na Irlanda

 

Numa altura em que estão decididos 131 dos 166 assentos parlamentares, o partido que tem estado no poder nos últimos 14 anos apresenta já os piores resultados dos seus 80 anos de existência. O Fianna Fail tem 14 deputados,  o Fine Gael, centro-direita, 59, os trabalhistas 32, o Sinn Fein 13 seats. Os restantes 14 assentos estão distribuídos por pequenos partidos. Enda Kenny, um político de carreira do Fine Gael, o próximo primeiro-ministro, ficará à frente de um governo que será muito provavelmente de coligação com os trabalhistas.

crónica efémera sobre um tema perene

Há poucos dias tive ocasião de alinhavar e apresentar uns quantos apontamentos sobre uma obra que envolve directamente a relação da Europa com o mundo árabe, o seu longo rosário de equívocos e mal-entendidos e, sobretudo, o conhecimento da academia "ocidental" sobre as realidades, historicamente consideradas, do "Oriente". O Orientalism de Edward Said veio inevitavelmente à baila, tanto mais que a obra em causa é uma vigorosa crítica ao célebre crítico e ao seu trabalho. E já em período final de troca de impressões, no qual um grupo de irredutíveis resistia ao apelo do jogo de Benfica já começado ou a ameaçar início e mantinha-se firme a expor algumas ideias, falou-se, entre desabafos e sorrisos irónicos, em Portugal. Portugal, onde estas temáticas do "orientalismo" estão (e sempre estiveram) completamente arredadas dos interesses das pessoas, onde a obra de Said (de 1978) só foi traduzida mais de 25 anos depois da edição original e onde o livro-mote da sessão ("For Lust of Knowing", de Robert Irwin) está e estará certamente inédito para toda a eternidade (mas já tem tradução brasileira).

E falou-se no desinteresse português sobre tudo isto, a forma como o debate desencadeado por Said, que modificou para sempre a percepção que o Ocidente tem do mundo árabe e que praticamente cindiu o mundo académico em dois campos, esteve e está ausente por aqui. Portugal é um país em reprise, onde andamos sempre desfasados e em eco. E achamos que estar em "cima do acontecimento" é possuir a maior árvore de Natal da Europa, o maior centro comercial da Península Ibérica ou ter o lançamento do Ipad em simultâneo em New York e no Dolce Vita da Pontinha. Não é novidade, sempre foi assim. "Sempre foi assim mas está a ser diferente"? Nem por isso. Ontem, as headlines do noticiário da RTP-1 do horário nobre foram, em primeiro lugar e antes de mais, a saída de Paulo Sérgio do Sporting, depois o caso dos dois jovens desaparecidos numa falésia e, por fim, os portugueses repatriados da Líbia. Fiquei esclarecido.

...! )

Ainda les beaux esprits

 Hugo Chávez condecora Khadafi durante um encontro em Porlamar, 2008.

 

Respondendo às angústias dos muitos que se interrogavam sobre a posição de Hugo Chávez em relação aos acontecimentos na Líbia, na sexta feira o ministro venezuelano dos Negócios estrangeiros, Nicolas Maduro, reagiu em apoio do ditador líbio, ecoando a posição de Fidel Castro (e Daniel Ortega), reiterada numa coluna recente. Ou seja, para o governo da Venezuela o massacre da população líbia não passa de uma conspiração ocidental para invadir o país. No Twitter, Chávez deixou bem clara a sua visão dos acontecimentos e o seu apoio a quem apelidou o Simon Bolivar da Líbia: «Viva Libia y su Independencia! Kadafi enfrenta una guerra civil!!»

 

Adenda: Outro beaux esprit, Robert Mugabe, enviou mercenários para a Líbia em auxílio de Khadafi.

não reclamados

Estou a almoçar com uma amiga quando recebo o telefonema. “É do hospital X”, diz a mulher. “Está aqui uma pessoa que talvez conheça”. O coração galopa: um atropelamento, um acidente, alguém da família, um amigo que chama por mim? Não: o nome nada diz. Mas o número de telefone é mesmo o meu, o nome é mesmo o meu. Quem é essa pessoa, que faz, que idade tem? “36 anos, sem ocupação ultimamente”. Mais nada. Não é possível falar com a pessoa – “Não pode falar”. Não é possível saber por que está no hospital, se por acidente ou doença. Não é possível saber como chegaram a mim a não ser isto: “A pessoa tinha o seu contacto”.

 

Inquieta e intrigada, pondero ir ao hospital. Ver um doente, um internado em coma, inconsciente? Talvez se faça luz. Mas tenho medo – medo de entrar nesta história que intuo ser tão desolada, medo da tristeza, do sem remédio que adivinho na voz da mulher que me liga, uma voz funcional, de quem cumpre um dever, de quem todos os dias faz isto e já não repara que ligar a alguém e dizer “é do hospital por causa de uma pessoa que aqui está” estremece na instantânea narrativa de dor, de pavor. Não, não vou. Contacto alguém que conheço no estabelecimento. Passadas umas horas, sei o nome completo e a última morada conhecida (ou relatada, inventada?) do homem. Sei o que o levou ao hospital, onde esteve internado nos últimos meses. E sei que morreu de madrugada. Que o hospital procura quem reclame o corpo. Que, para além da morada, a única referência é o meu número e o meu nome, num papel.

 

Um homem que não recordo, que não consigo perceber de onde ou como me conhece, tinha consigo isso: um papel comigo. Sou o elo deste morto com os vivos, um elo contingente, relutante. Existir para alguém que não existia para mim até este momento, o momento de não existir mais, o momento em que inscreve o seu nome, o seu destino, na minha história. Ser algo – o quê? – para este homem. Um nome, um número: talvez ele pensasse que isso o acompanhava. Ou um acaso, um papel que ficou ali, esquecido. Quem sabe. Ninguém para responder. Ninguém provavelmente para reclamar esse corpo tão só, para o levar para o lugar onde o levarão. 36 anos e este silêncio, este deserto – e eu. Um conto de Auster, uma novela de Chandler a começar assim: um filme negro, um morto que fala comigo, que me diz: descobre-me, ouve-me, segue o meu rasto. Lembra-me. Um eco nos corredores desse hospital, um mistério selado nesse papel que já está no lixo, amarrotado, sem uso, como o corpo que ninguém vela.

 

Penso nele, o homem do papel, perante esta epidemia de mortos descobertos em casa (melhor dito: esta epidemia da descoberta de que as pessoas morrem, e tantas vezes, quando idosas, em casa). Penso nele e em todos os mortos não reclamados que ao fim de um mês (mês e meio?) nas gavetas do Instituto de Medicina Legal seguem sem cortejo para o enterro ou a cremação. Penso nele enquanto leio, oiço, vejo debates e reportagens infindas sobre “a solidão nas cidades”, “o abandono dos idosos”, a “desumanização” não sei do quê. Penso como é possível que se desvie assim a conversa, que se restrinja a ideia de solidão e abandono a esta era e a essa categoria – idosos, como se fosse uma raça diferente – como se não houvesse tanta gente nova só, e como se não houvesse solidões optadas, escolhidas, como se não tivesse havido sempre corpos ignorados, esquecidos (estão a brincar com isto das cidades, só pode – que melhor sítio para morrer e nunca mais ser encontrado que o campo?). Como se a morte não fosse inevitável e não morrêssemos sempre sós, por mais que à volta haja gente. Como se o tempo e a sua lei surda não nos cercasse a todos, sem apelo, levando, se durarmos o suficiente, quase toda a gente que nos ama e que amamos. Como se, culpando alguém, ou uma noção de culpa mais ou menos colectiva, exorcizássemos o óbvio: que no momento de morrer, seja ele onde e como for, os outros serão para nós o que fui talvez nesse papel para aquele homem: uma esperança vã, nada.

 

(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 20 de fevereiro)

O trabalho paga-se

Ouvi na TSF, à hora de almoço, uma notícia sobre as declarações de Sérgio Sousa Pinto no Facebook. Confesso que demorei algum tempo até perceber que, realmente, Sérgio Sousa Pinto estava a defender a manutenção dos estágios não-remunerados (pois de outro modo, defende, quase ninguém conseguirá estagiar). E fiquei a pensar no assunto. À partida o meu instinto é para ser contra qualquer tipo de trabalho não remunerado. Mas, por outro lado, e agora que Sérgio Sousa Pinto fala nisso, talvez um estágio não possa ser considerado trabalho, e assim as suas afirmações já poderiam fazer algum sentido.

 

Alguém sabe em que circunstâncias é que um estágio pode não ser considerado trabalho (por oposição a ter que, necessariamente, ser remunerado)? E, mais importante, sabendo-se essas circunstâncias não é bom que elas fiquem reguladas por lei, para que a parte mais forte não possa prevalecer-se sobre a parte mais fraca? (o problema conceptual é fascinante mas aqui o problema normativo é que afecta a vida das pessoas).

 

Daí que, ouvindo o que disse Sérgio Sousa Pinto, parece-me que recai sobre ele, para mais sendo deputado, o ónus de mostrar em que circunstâncias é que os estágios são mesmo estágios, entenda-se, que não se podem confundir com trabalho efectivo que deve ser, necessariamente, remunerado (temos que acabar com essa praga do trabalho gratuito e eufemisticamente chamado de estágio).

 

É verdade que Sérgio Sousa Pinto se refere também especificamente ao caso dos estágios em Direito, que são uma condição de acesso à profissão (há outros casos assim) e que, por isso, sendo remunerados, e tendo as consequências que afirma, colocariam um dilema: ou, para proteger a igualdade de acesso à profissão se proíbe a recusa de estágios e com isso, na prática, se obriga a contratar (complicado); ou, para impedir que se crie uma situação de obrigação de contratar, se permite que os estágios sejam optativos e, com isso, se condiciona o acesso à profissão (pasme-se, é o que já acontece).

 

Sérgio Sousa Pinto, critica, pois, a realidade, porque entende que a consequência será que apenas os licenciados com conhecimentos ou notas excepcionais conseguirão um estágio. Devo dizer que, mesmo que estas últimas afirmações de Sérgio Sousa Pinto fossem verdadeiras, elas só poderiam ser compreendidas porque o estágio, no caso de Direito, é um requisito de acesso à profissão. De outro modo não vejo qual é o problema de apenas serem contratados os licenciados com melhores notas. Evidentemente já vejo problemas em serem contratados licenciados medíocres mas que têm familiares ou conhecimentos no meio mas não vejo como impedi-lo uma vez que há liberdade de contratar em Portugal, aliás, com protecção constitucional.

 

A crítica de Sérgio Sousa Pinto não é, portanto, contra a impossibilidade de acesso à profissão - isso já pode acontecer agora - é contra o agudizar desta situação. Mas se é verdade que há muitos licenciados em Direito (e noutras licenciaturas) que não conseguem estágios ou apenas conseguem estágios não remunerados - e isto, a princípio, poderia fazer confirmar as previsões de Sérgio Sousa Pinto - se pensarmos cuidadosamente tal apenas demonstra que a liberdade de contratar talvez esteja a ser subvertida, levando ao não pagamento de trabalho efectivo. E não há nada mais triste que o abuso de direito.

 

O que nos leva, novamente e sempre, para a questão fundamental de distinguir, sem medos, o que é estágio (e pode não ser remunerado) e o que é trabalho necessariamente remunerado (e como tal deve ser fiscalizado e quais devem ser as sanções para quem incumprir).

gisberta

 

foi há 5 anos. uma transexual sem abrigo foi torturada dias a fio por um grupo de jovens e finalmente mandada para um buraco, onde morreu afogada. no julgamento, em tribunal de menores, a sentença exarada falava de 'uma brincadeira que acabou mal'.

 

hoje, que temos uma lei de identidade de género aprovada duas vezes pelo parlamento à espera de promulgação, que temos o ódio homofóbico como factor agravante de crimes (à imagem do ódio religioso e político), revisitar o caso gisberta é como fazer uma viagem a um tempo outro. mas, claro, depois lembramo-nos que o homicídio de carlos castro nos mostrou que a homofobia e a transfobia estão bem e recomendam-se na sociedade portuguesa, e que matar alguém com requintes de crueldade psicopática pode ser visto por muita gente como 'estragar a vida' do homicida, coitado.

 

estive a reler alguns dos textos que escrevi sobre gi. aqui ficam alguns.

 

gis

 

traços de gis

 

são nossos filhos, são, sr padre. e seus

 

apagar a gis, 2

 

juntos pelo gang

 

querida gi

 

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