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jugular

A ler, Nuno Brederode Santos - o ornitorrinco

No «Expresso» de hoje, Nuno Brederode Santos regressa às suas maravilhosas e imperdíveis crónicas.Revisita a «Balada do Ornitorrinco», animal que não «tinha a macrovisão do alto voo, antes se arrastava como se algemado por varizes», desprezado pelos peixes de grande Oceano por não ir «além das lentas gincanas de poça de água», que resiste no tempo, mas está «uma ruína, um destroço, um cavaco».

Memórias e manias a propósito da edição de aniversário do Expresso

 

Esbarrar nesta página da Revista do Expresso de hoje fez-me ir escarafunchar na chafarica original e recuperar um post de 2007 que trago para aqui

 

Tinha 12 anos e este dia marca o início de uma das minhas múltiplas manias. Ontem à noite a RTP2 recordou-mo, ao passar um documentário sobre o tema (que já vão descobrir qual é).
Se calhar porque estava "habituada" a olhar para grandes mortandades como consequência de guerras ou acidentes (naturais ou não), os acontecimentos de Jonestown nesse já distante 78, que escapavam a essas categorias, impressionaram-me imenso. Lembro-me de ter ficado muito perturbada porque incapaz de entender o porquê. Nos dias seguintes li todos os jornais que podia para tentar arranjar respostas às minhas dúvidas. Ainda hoje não consigo perceber bem porque é que tudo aquilo me marcou. Mas a verdade é que marcou e a data tornou-se uma espécie de momento de viragem na minha relação com o mundo, quase como uma perda de inocência. É verdade que já era uma criança relativamente original, lia jornais (hábito iniciado muito cedo - aos 6 anos - com a secção de bonecadas do Diário de Lisboa) e padecia de uma curiosidade quase patológica. Estas características aumentaram exponencialmente com o 18 de Novembro. Por exemplo, passei, eu mesma, a gastar dinheiro em jornais e revistas e - e agora é que vem a história da mania referida no início - tornou-se habitual criar dossiers de recortes de imprensa sobre acontecimentos específicos e marcantes da actualidade. O meu primeiro dossier é o da tragédia da Guiana, que ainda hoje guardo. Esta mania, que alguns dos meus amigos, consideram... hum, pitoresca, não é fácil de gerir. Para além de ser pólo de tensão frequente com a minha arrumadinha irmã, nos anos em que partilhámos o quarto, transforma qualquer mudança de casa numa epopeia digna de um herói grego.

da apologia do crime

quem acha que não se pode pedir ao tribunal constitucional que fiscalize o orçamento porque "depois falta dinheiro" deve defender que o governo possa fazer assaltos na rua também, não?

 

e, claro, se alguém chamar a polícia é porque é anti-patriótico -- vindo logo catroga (depois de pôr os bens a salvo, naturalmente) apelar para que se retire do código penal a parte que criminaliza o roubo.

 

não faltará até que se exija a quem se tenta proteger do saque que apresente, desde logo e à cabeça, soluções para o problema de falta de rendimento do ladrão. é que o pobre, coitado, não sabe fazer mais nada.   

Morrer na praia?

Algumas pessoas, cujas opiniões respeito, têm vindo a defender nos últimos tempos que, por muito má que seja a política económico-financeira subjacente aos OE2013, a sua aplicação é indispensável para evitar que o país “morra na praia”.

Subjacente a esta tese parece estar a ideia de que, tendo o país feito já o essencial do seu caminho e estando a meta à vista, não será este o momento de desistir.

O argumento faz-me confusão, porque não entendo que caminho fez o país até agora. Dentro de dias confirmar-se-á que o défice de 2012 será idêntico ou marginalmente inferior ao de 2011, apesar de um programa que, entre aumento de receita e redução de despesa, se propunha reduzi-lo em 9 mil milhões de euros. Decorre daí que não só o endividamento do estado aumentou, como parece evidente que continuará a aumentar nos próximos anos.

Contrapõem-nos que os juros da dívida pública portuguesa baixaram drasticamente nos mercados secundários. Porém, como o mesmo sucedeu na generalidade da zona euro (e na Grécia mais que nos restantes), prova-se que a sua variação depende muito mais das decisões do BCE do que daquilo que os países façam ou deixem de fazer para equilibrar as suas contas – opinião que quem estas linhas escreve sempre defendeu. Objectivamente, a situação do país piorou em todos os aspectos (o mesmo sucedendo com a Espanha, a Irlanda, a Grécia, a Itália e a França), mas os juros baixaram. Estão a ver?

Ao fracasso financeiro do governo soma-se o económico: queda acentuada do produto, dramático agravamento do desemprego, falências em série, empobrecimento descontrolado da população, redução da produtividade horária, quebra da confiança nas pessoas e nas instituições – tudo isso torna claro que crescem os obstáculos a qualquer redução futura do défice até se chegar aos desejados 2,5%, tanto mais que ele nem buliu em reacção ao tratamento de choque aplicado em 2012.

Não, caros amigos, a praia não está à vista. Bem pelo contrário, fortes correntes cuja direcção e ímpeto não controlamos estão a puxar-nos irremediavelmente para o mar alto. Só uma inversão urgente e decidida do rumo até hoje seguido poderá evitar o desastre iminente.

Delícias matinais

Ferreira Fernandes - quem mais podia ser? - relembra hoje uma crónica de Luis Fernando Verissimo que é uma delícia. Ora confirmem lá e fiquem de bom humor:

 

O Jargão

 

Nenhuma figura é tão fascinante quanto o Falso Entendi o cara que não sabe nada de nada mas sabe o jargão. E passa por autoridade no assunto.

Um refinamento ainda maior da espécie é o tipo que nãoo sabe nem o jargão. Mas inventa. 

- Ó Matias, você que entende de mercado de capitais... 

- Nem tanto, nem tanto... 

(Uma das características do Falso Entendido é a falsa modéstia. 

- Você, no momento, aconselharia que tipo de aplicação? 

- Bom. Depende do yield pretendido, do throwback e do ciclo refratário.Na faixa de papéis top market - ou o que nós chamamos de topi-marque -, o throwback recai sobre o repasse e não sobre o release, entende? 

- Francamente, não. 

E o Falso Entendido sorri com tristeza e abre os braços como quem diz "É difícil conversar com leigos...". 

Uma variação do Falso Entendido é o sujeito que sempre parece saber mais do que ele pode dizer. A conversa é sobre política, os boatos cruzam os ares, mas ele mantém um discreto silêncio. Até que alguém pede a sua opinião e ele pensa muito antes de se decidir a responder: 

- Há muito mais coisa por trás disso do que vocês pensam... 

Ou então, e esta é mortal: 

- Não é tão simples assim.. 

Faz-se aquele silêncio que precede as grandes revelações, mas o falso informado não diz nada. Fica subentendido que ele está protegendo as suas fontes em Brasília.

E há o falso que interpreta. Para ele tudo o que acontece deve ser posto na perspectiva de vastas transformações históricas que só ele está

sacando. 

- O avanço do socialismo na Europa ocorre em proporção direta ao declínio no uso de gordura animal nos países do Mercado Comum. Só não vê quem não quer.

E se alguém quer mais detalhes sobre a sua insólita teoria ele vê a pergunta como manifestação de uma hostilidade bastante significativa a interpretações não ortodoxas, e passa a interpretar os motivos de quem o questiona, invocando a Igreja medieval, os grandes hereges da história, e vocês sabiam que toda a Reforma se explica a partir da prisão de ventre de Lutero? 

Mas o jargão é uma tentação. Eu, por exemplo, sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlanticos onde a única linguagem técnica que você precisa saber é "Que horas servem o bufê?". Nunca pisei num veleiro e se

pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjôo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados.

Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes da equipagem. 

Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulacão: 

Recolher a traquineta! 

- Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu!

 O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África e volta nas Malvinas e nos ataca a boribordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive no primário.

 - Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua! 

- Cuidado com a sanfona de Abelardo! 

A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parada em certas condições atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o

piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo. 

- Cruzar a spínola! Domar a espátula! Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e dois quartos de trela senão afundamos, e o capitão ‚ o primeiro a pular.

 

Método de compor discursos em Belém

O João Galamba achou ilógico o discurso de Cavaco Silva porque desconhece o método que presidiu à sua elaboração. Eu explico:

1. Cada assessor de Belém escreve cinco frases à sua escolha, uma em cada papelinho.

2. Maria Cavaco Silva lança os papelinhos para dentro de um saco de pástico do Pingo Doce.

3. O Chefe da Casa Civil retira os papelinhos de olhos vendados e passa-os a Cavaco Silva.

4. O Presidente da República cola-os numa folha A4 pela ordem que se lhe são entregues.

5. O Presidente da República lê o texto assim montado o melhor que consegue.

Explica-me lá tu, João (se és capaz),o que vês de ilógico nisto.

Um discurso incoerente e irresponsável

Cavaco entende que o OE2013 é injusto na repartição dos sacrifícios, razão pela qual decidiu enviá-lo ao TC para fiscalização. Minutos depois, declara que o país não pode neste momento dar-se ao luxo de uma crise política. Por outras palavras, pede por todos os santinhos ao TC que perdoe ao governo mais esta maldade.

O Presidente poderia ter evitado a crise política que tanto teme. Primeiro, tentando persuadir o governo a corrigir o OE mal tomou conhecimento do essencial da proposta apresentada à AR. Segundo, se essa iniciativa falhasse, promovendo a fiscalização preventiva, garantindo que o TC emitisse a sua posição até final de Janeiro.

Não fez nem uma coisa nem outra, pelo que, se o país ficar a meio do ano sem OE e sem governo, a responsabilidade será sua.

O outro ponto saliente do discurso é a tardia adesão à tese segundo a qual “sem crescimento não há consolidação orçamental”. Cavaco finge não entender que a estagnação da Europa (que prejudica as nossas exportações) é um efeito inevitável da austeridade generalizada imposta a todos os países do continente. Vai daí, pede crescimento com austeridade e sem contestação do memorando de entendimento.

E donde virá então esse crescimento? Na ideia do Presidente, deveremos “exigir o apoio dos nossos parceiros europeus”. E em que consistirá essa exigência, se ela não deverá envolve nem uma renegociação tendo em vista o alívio das medidas de austeridade, nem a redução dos juros, nem o prolongamento do período de redução do défice?

Adivinhe quem quiser. Pela minha parte, tendo em conta a histórica crença natural de Cavaco, estou em crer que ela envolverá o pedido de fundos estruturais em condições mais favoráveis para aplicação em projectos considerados prioritário pela UE. (Sem dúvida do tipo do TGV, que dará um impulso às indústrias da França e da Alemanha…)

Mas serão talvez inúteis estas interrogações, dado que, na parte final do seu discurso errático, o Presidente parece acreditar que, afinal, o crescimento resultará, como que por milagre, do mero empenho de cada um “em fazer bem o que lhe compete”.

Em suma, mais do que uma viragem, a mensagem de fim do ano do Presidente da República confirma o seu empenho em fazer tudo o que estiver ao seu alcance para evitar chatices e atirar os problemas para cima dos outros.

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