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jugular

e-indisponibilidade

Senhores do SNS: quando tiverem e-disponibilidade, por favor tratem de e-resolver o e-problema da e-solução criada para resolver parte das afluências aos centros de saúde, chamada de e-agenda, mas que infelizmente não e-funciona, dia após dia, a várias horas da manhã, da tarde ou da noite, sim? Já agora, que verifiquem o significado do termo "temporário" nos dicionários. Muito e-obrigado. (ass. um e-utente, que vai ter que perder tempo e dinheiro para ir marcar uma consulta e entupir o atendimento respetivo.)

eagenda.jpg

 

A luxúria da inteligência

O Nome da Rosa foi o livro que apresentou Umberto Eco a muitos da minha geração, e eu não fui exceção. Teria uns 17/18 anos quando foi publicada a tradução portuguesa, ainda estava na (maravilhosa e saudosa) fase da leitura compulsiva, não largava um livro até que o acabasse e este foi devorado (eheh felizmente não tinha um Jorge de Burgos por perto e os envenenamentos não acontecem em "devorações" não literais).

Como aconteceu com vários livros de Eco posteriormente, voltei a ele várias vezes. Dessas revisitações do Nome da Rosa há uma de que guardo especial recordação, foi quando acompanhei a leitura tendo à mão o Histoire intellectuelle de l'Occident médiéval de Jacques Paul e abençoei muito quem inventou os índices onomásticos. Foi um exercício particularmente curioso porque para um não erudito há uma série de ínfimos pormenores que passam ao lado e quando os descobrimos, ou nos são mostrados, a diversão da leitura aumenta exponencialmente (é como ver o Schrek e descobrir as piscadelas de olho à história do cinema). Se um dia o puderem fazer, recomendo. Adiante... 

Sei que toda a gente me chateia por causa da francofonia mas, paciência, esta conversa de 1982 merece. Amusez vous bien com a "luxúria da inteligência". 

Eco

O meu primeiro post no meu primeiro blog foi a transcrição (ainda não havia Youtube) de um excerto desta cena 

Discutir taxas de suicídio (parte II)

Na sequência do meu último post partilho uma reflexão: discutir taxas de suicídio em Portugal com os registos que existem? Pois, deve ser.

 

O rácio Mortes violentas por causa indeterminada/Mortes por suicídio (r IND/S) é um indicador importante da fiabilidade das taxas de suicídio apresentadas em qualquer país ou local. Discutia eu isto ali no mail e vá de receber a seguinte Informação (segura):

"Mesmo em 2002, quando todos os registos foram revistos um por um pela DGS, para 1220 suicídios houve 200 mortes por causa indeterminada, um rácio absolutamente obsceno de IND/S=0,16. Na maioria dos anos o r IND/S é próximo ou superior a 1.

 

Ana, nos outros países europeus é inferior a 0,05, à exceção do Reino Unido que tem um sistema de coroner que valida a probable doubt.

 

Em 2014, já com o SICO* completamente implementado, houve 1215 suicídios para 800 mortes indeterminadas, um r IND/S=0,65. Para que serve o SICO sem uma lei decente e um empenho dos clínicos e da OM para que os certificados de óbito sejam bem preenchidos?"

 

Deixem-me também dizer-vos que o Baixo Alentejo é das zonas do país com um dos r IND/S mais baixos (não tenho números certos aqui comigo). Não estou a afirmar que com registos bem feitos aquela zona deixaria de ocupar o primeiro lugar da lista, não sei e muito provavelmente não, mas existiriam muitas variáveis assumidas como importantes fatores desencadeantes - e não causais como habitual e erradamente são referidos - que deixariam de fazer sentido, ai disso não tenho qualquer dúvida. E que uma hipótese a considerar, ou pelo menos a testar, seja a de que a religiosidade, em paralelo com os seguros, contribua de modo significativo para o incorreto preenchimento do certificado de óbito também não. 

 

*Sistema de Informação dos Certificados de Óbito 

A distância da memória, para memória

Tive oportunidade de relembrar, há pouco mais de dois meses, que em 2015 assinalou-se meio milénio sobre a chegada dos portugueses a Timor, e que esse facto (provável e deduzido, por não haver evidência segura de que tenha ocorrido realmente em 1515), que poderia constituir um importante momento de reflexão sobre a História, a memória e o relacionamento comum de Portugal e Timor, fora praticamente esquecido por cá, enquanto por lá o evocavam com pompa e circunstância e em simultâneo com os 40 anos de independência. Tive o prazer e a honra de ser convidado a dar o meu contributo para o evento, a bem da História partilhada de portugueses e timorenses, numa obra em versão trilingue (português, inglês e tétum) lançada na ocasião, em Díli, pela Fundação Mário Soares e pelo Arquivo & Museu da Resistência Timorense. A quem interessar, a Casa Comum acaba de disponibilizá-la online.

Porque é que no Henrique Raposo o disparate é natural?

O Henrique Raposo escreveu um livro sobre o “seu” Alentejo. Tem todo o direito, não pode, ou não deve, é pegar em assuntos do domínio da saúde pública com uma perigosa leveza.

 

A questão não pode ser “Porque é que no Alentejo o suicídio é natural?” mas “No Alentejo o suicídio é “natural”?” – e natural entre aspas, começando por definir natural. Desse ponto de vista, aliás, o texto é verdadeiramente fantástico. A pergunta inicial, que serve de título, assume como verdade que o suicídio é natural no Alentejo para terminar a justificar que o suicídio no Alentejo é monocausal e determinado pela cultura e suas ramificações. Estamos conversados.

 

O suicídio racional existe. Discuti-lo implica contrapor a razoabilidade da escolha da morte por uma mente sã face a motivos lógicos versus a morte auto-infligida por discernimento alterado por patologias, emoções intensas, impulsividade, etc. Não foi o suicídio racional que Henrique Raposo optou por discutir: não o refere uma única vez no texto, não o define, não apresenta dados sobre ele. E se é verdade que existe também é verdade que representa uma franca minoria (inferior a 5%) da realidade suicida no mundo: a larguíssima maioria dos suicídios surge em contexto de doença mental e, por isso, é verdade o que me dizia um amigo e colega, homem que tem dedicado parte da sua vida clínica a estas temáticas, “Uma pessoa que se suicida não é uma pessoa que está a escolher digna e livremente o modo de morte nem as circunstâncias da mesma quando ela se avizinha e nada para o sofrimento físico e o horror do não-controlo último. É uma pessoa sem alternativa face a um comboio mental multideterminado que o transcende. E que fica aliviada quando sobrevive e é tratada e melhora.”. No Alentejo como em todo o mundo.

 

As observações sobre a "amoralidade" local face ao suicídio são, diagamos assim, engraçadas mas a cereja em cima do bolo chega com a afirmação de que “No Alentejo, a eutanásia não é um debate, é um modo de vida; o suicídio alentejano não é um ato individual, é uma prática colectiva.”. Não me vou alargar em comentários, apenas deixo um apontamento e duas perguntas.

 

Decide-te, Henrique, como é que um sítio em relação ao qual defendes que o suicídio é monocausal e culturalmente determinado tem na eutanásia um “modo de vida”? Em última análise não precisa dela. Vês no que dá baralhar conceitos que não dominamos? De caminho mostra-me um, apenas um, caso de suicídio coletivo no Alentejo. Obrigada.

 

A pesporrência intelectual é uma coisa triste. Todos temos o direito de romancear os nosso Jacintinhos e os nossos medos e receios, não podemos é apresentar as nossas interpretações como factos e muito menos fazermos perguntas ajustadas às respostas que já demos ab anteriori.

 

Adenda: Lembrei-me de outra coisa, ao lado da temática principal do post, relativa a esta afirmação "os Manuéis Palitos fazem parte da paisagem humana do norte, não do Alentejo". Pois, pois, há outros Manuéis que matam a mulher, a filha e a neta.

 

Nota: vou gostar de perguntar aos(às) alentejanos(as) o que sentem ao ler isto "(...) o reencontro traumático ocorre quando regressam à aldeia os irmãos que migraram para Lisboa; os irmãos que ficaram olham para os irmãos lisboetas e sentem que também podiam ter tido aquela roupa fina e aquela mulher decotada. (...)".

Na véspera do 14 de fevereiro (bleurgh)

Ainda em relação ao post abaixo, a consciencialização e identificação do que é violência no namoro (ou doméstica) é fundamental e é ela que explica, por exemplo, que os países nórdicos tenham em números oficiais muitos mais casos de violência de género que Portugal. Não é que a realidade seja forçosamente (bem pelo contrário) essa, a consciência da ilegitimidade de comportamentos é que é muito mais presente. 

As coisas vão mudando, e ainda bem, no tempo das nossas avós isto seria uma romântica canção de amor

 

 

Repare-se em particular nos versos 

I'm'fout des coups
I'm'prend mes sous,
Je suis bout
Mais malgr tout
Que voulez-vous

Je l'ai tell'ment dans la peau
Qu'j'en d'viens marteau,
Ds qu'il s'approch' c'est fini
Je suis lui


quem em tradução resumida e selvagem dizem "enfarda-me, rouba-me, mas que querem? está-me na pele, assim que se chega sou dele)

Não ligar pevas ao que é dito é isto

Tenho à minha frente o Relatório de Imprensa dos Dados  da Violência no Namoro de 2016. Nele lê-se, após a apresentação dos números, o seguinte:

 

Sem Título

 E que aconteceu ontem nos media portugueses? Eis um cheirinho:

Sem Título

Eu bem que tinha razão para desconfiar dos títulos quando ontem os vi a cair um atrás de outro.

 

Adenda - Estive a comparar os números do inquérito de 2016 com os de 2013 e, apesar de serem ainda uma catástrofe, houve claras melhorias na perceção do que é abusivo e violento. Exemplos:
. proibir o/a namorado/a de vestir uma peça de roupa era considerado legítimo por mais de metade dos rapazes e das raparidas em 2013 e agora esse número desce para 37%
. quase a mesma descida para o mexer no telemóvel do outro sem autorização ou proibir de sair com determinados amigos.

 

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