Sexta-feira, 9 de Julho de 2010
Rogério da Costa Pereira

A verdade é que esta é uma capa perfeitamente escusada. Por dois motivos: é feia que dói (nos olhos, nos ouvidos, nos sentidos todos) e é um aproveitamento barato da morte de Saramago. Para além de ser um ataque escusado à Santa Madre Igreja (eu sei, eu sei, mas têm-me dado umas cenas muito esquisitas para ler). Falando sério, quando se ataca uma religião que se ataque em modos — motivos não faltam — e com classe, agora colocar Cristo entre mamas e tatuagens naquela cama horrível com o título do livro de Saramago à cabeceira é que não. OK, confesso, estou-me assim um bocadinho nas tintas para o que possam sentir os crentes ao ver aquilo — aliás, quem estiver de bem com a religião em causa nem sequer olhará duas vezes para capa —, o que realmente me repugna é ver a memória de Saramago ser pontapeada desta maneira. Aquilo não é uma homenagem, aquilo reduz-se a somar mamas com religião para vender mais qualquer coisinha — cheira-me, no entanto, que lhes vai sair o tiro pela culatra. Lembro-me da reacção de Saramago quando acabou de ver o Blindness do Meirelles. Como ficou comovido e como levou logo um beijo do realizador na careca. Se ele visse isto, estou certo que não gostaria e que responderia à tentativa de beijo na careca com um belo dum murro nas trombas. Depois da novela das cinzas, que tem uma culpada insuspeita, depois dos aproveitamentos políticos todos, mais esta. Deixem o homem em paz, pode ser? Se o querem mesmo homenagear, leiam-no. É assim que se homenageiam escritores.

Só mais uma palavra em relação à liberdade de expressão e a quem acha que tudo pode ser dito, tudo pode ser feito, ou aqui d'el rei que isso é censura. Liberdade é precisamente o contrário disso que pensam: é não fazer tudo, não dizer tudo só porque se pode. O exercício da liberdade devia começar por uma espécie de auto-censura. Assim não sendo, não é verdadeira liberdade, porque fica tolhida logo a montante e sai desembestada em relação a quem se atravesse. Isso é mais libertinagem.

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23 comentários:
De Ricardo Alves a 9 de Julho de 2010 às 12:30
César das Neves não mudaria uma palavra ao seu último parágrafo.


De Anónimo a 11 de Julho de 2010 às 12:31
diz o roger que "Isso é mais libertinagem". e qual é o problema? 


De nuvens de fumo a 9 de Julho de 2010 às 12:57
Achei a capa estéticamente horrorosa, mão por ter mamas que aliás é coisa que vai sempre bem com barbudos com ar piedoso, mas porque a parte cromática é nojenta o arranjo é pior que vulgar e a gaja não tem ar suficientemente provocante para a coisa começar a ter piada. Vulgar é muito pior que rasca.

Relativamente a tudo o resto não concordo com uma linha.

cristo buda maomé ou quem quer que seja, passando por jupiter, são figuras que não direitos de autor, não têm dono e não podem ser condicionadas.  São como viriato, mitos e lendas sem direitos nenhuns a tratamentos especiais. Muito menos quando tais tratamentos estão ligados a interpretações a tender para o talibã do que é aceitável , uma versão do respeitinho ou do não se brinca com essas coisas.
Sou a favor de todos os pasquins do estilo do gaiola aberta  porque a liberdade ou mesmo a libertinagem valem mais que todos os moralismos parvos.

Se um bispo pode dizer coisas e loisas sobre a homossexualidade , sobre  o aborto etc porque não se poderia publicar fotografias de gajos cabeludos com ar de mitras junto a tipas mamalhudas ?


Mas isto não foi nem censura nem sequer uma aplicação de uma moral religiosa, são revistas privadas que gerem como querem os seus contratos e por isso é da época.


Quanto à auto-censura cada um toma a que quer , acho muito bem desde que não me imponha a sua esta-se bem, porque censura não obrigado.


De Rogério da Costa Pereira a 9 de Julho de 2010 às 16:02
Aqui (no posts) falava-se de Saramago. E esse já não é como "viriato, mitos e lendas sem direitos nenhuns a tratamentos especiais".


De nuvens de fumo a 9 de Julho de 2010 às 16:26
Falando sério, quando se ataca uma religião que se ataque em modos — motivos não faltam — e com classe, agora colocar Cristo entre mamas e tatuagens naquela cama horrível com o título do livro de Saramago à cabeceira é que não.

Esta parte é que me provoca receio de agitar o golem moralista 


Para além de ser um ataque escusado à Santa Madre Igreja


Lá está , a igreja não tem direitos nenhuns sobre os gostos de uma suposta figura mitológica relativamente a mamas. Meter pregadores de moral com gajas depravadas é o dia  a dia dos republicanos americanos, às vezes gajos.está-lhes no sangue puritano-..-.

que se critique a estética , já disse que aquilo é um dejecto, que se fala no tipo de sandálias como argumento é que não.


De Rogério da Costa Pereira a 9 de Julho de 2010 às 21:15
Volto a dizer: este post é sobre Saramago.


De Júlio de Matos a 9 de Julho de 2010 às 13:09

«Homem, se Homem queres ser e não uma sombra triste (...)».


Muito bom texto.


Como já dizia o Poeta (J. Gomes Ferreira?), «A LIBERDADE CONSISTE NO QUE A RAZÃO TE IMPUSER!»


(in "Livre", Canção Heróica de Fernando Lopes-Graça).


De rui david a 9 de Julho de 2010 às 13:13
Não percebo o que motiva tanto desconforto.
A revista anuncia coisas de interesse intelectual: Julião Sarmento, o Legendary Tiger Man, Saramago e uma  referência subliminar a um livro seu, o que promete ser mais uma interessante reportagem (réplica de outras que já devem ter saído na Única e na revista do Expresso) sobre "a linha do TUA"...
A única coisa verdadeiramente dissonante é não ser parecida com uma capa "normal" da Playboy... e nisso os americanos hão-de ter alguma razão. É que a figura central da composição ser um clone do avançado do Uruguai  "loco" Abreu vestido com bata e avental de chef (ou cirurgião mais ou menos plástico), amparando uma rapariga com um ar adoentado que ocupa uma percentagem descaradamente pequena da página, não lembra, literalmente, ao Diabo...


De agent a 9 de Julho de 2010 às 14:29
Os "americanos" perdem toda a razão a partir do momento que censuram a edição portuguesa e aceitam a mexicana, em que "Maria" apresenta-se (só de manto sobre a cabeça) na capa.


De rui david a 9 de Julho de 2010 às 17:00
Esta discussão (se é que é discussão) não deveria resvalar para a coisa do tipo, "pois, pois... censuram-me a mim e não censuraram aquele menino que fez uma coisa igual (ou pior) do c'a minha".
Se eles não gostaram desta capa (ou do par improvável formado pela rapariga adoentada e o "loco" transformado em maqueiro) e gostaram da outra (Marias há muitas...) e são "eles" (a playboy, não uma censura qualquer "oficial") quem tem a responsabilidade e o interesse directo de defender uma (imagem de) marca não me parece que nos caiba a nós a responsabilidade de avaliar da dualidade de critérios.
Não confundamos opiniões (como a expressa no post) e opções profissionais e empresariais (a cuidadosa gestão da imagem imprescindível a quem explora um terreno minado e passível de resvalar a cada número, a cada capa a cada fotografia), com censura.


De Joaquim a 9 de Julho de 2010 às 14:01
Extraordinário! Gostava de saber o que pensam deste post os outros membros do Jugular. Cá por coisas. Para que caiam as máscaras e se perceba finalmente quem é a favor da liberdade de expressão e opinião e quem é a favor da censura ou de "uma espécie de auto-censura", como aqui se diz.


De Rogério da Costa Pereira a 9 de Julho de 2010 às 15:58
Nem queira saber, recebi agora mesmo a nota de culpa. O mais certo é que o contactem para servir de testemunha.


De crp a 9 de Julho de 2010 às 14:41
eu acho que gosto desta capa!
Tem sexo, tem rock e se bem procurarmos tem drogas. E tem inversão
Esteticamente é tão mau que dá a volta, GOSTO


De Rogério da Costa Pereira a 9 de Julho de 2010 às 21:16
Acredite que cheguei a pensar isso.


De tudo bem, tudo bom a 9 de Julho de 2010 às 16:03
deviam mudar o título da Playboy Portugal para Playboy "à portuguesa"


De Nuno a 9 de Julho de 2010 às 17:22
Porque é não experimentam fazer sobre uma capa provocativa sobre o Islão, Maomé & afins? Ah, espera... Pois! Faltam-lhes "cojones"!


De Joaquim a 9 de Julho de 2010 às 17:50
A resposta evidencia mais uma vez a mentalidade do autor: só consegue raciocinar em termos persecutórios.


De desiludida a 9 de Julho de 2010 às 22:26
Houve erro na identificação do autor deste post?

Não deviam enganar, assim, os vossos leitores.


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