Domingo, 18 de Julho de 2010
Rogério da Costa Pereira

A minha avó, que me criou e me ensinou este meu fado de estar – estes maus fígados que me impedem o calar –, vive há dez anos para além da vida. Um acidente idiota, um médico incompetente, uma mulher que viveria até aos cem anos. Há dez anos numa cama, num sofá. Raramente a visito. Agora está no hospital, a oxigénio. Não me reconhece. Sou o menino dela e não me reconhece. Não a visito. Guardo dela a imagem de uma mulher forte, cuja vida foi interrompida, há dez anos, por uma puta de uma argola levantada numa tampa de esgoto. Tropeçou, caiu, partiu. Operaram-na. Deram-nos as indicações erradas – a folha que dão a todos (que nos deram), uma coisa de papel com letras escritas, não era para ela. Afinal, uma mulher daquelas não devia fazer "levantes". O peso!, o peso?, o peso!! (era pesada, hoje já não é) não aconselhava o tratamento habitual. E nós a forçá-la, anda-anda-anda. Levanta-te e anda e anda e anda. E ela andava, cheia de dores. O osso era fraco para tamanho peso. Há dez anos. Foi operada outra vez e a segunda anestesia matou-a. Enterrou-se num sofá. Dez anos passaram. Hoje está à espera, num hospital. E eu ainda não tive coragem de ir vê-la. Já deixei de esperar o que tu anseias (rezarás?). Vou lá amanhã. Talvez. A minha mãe diz-me para não ir. Ela não me reconhece e eu não a reconheço – falo de “reconheceres” diferentes. A minha avó está para morrer, dizem. A minha avó morreu há dez anos, digo. Não amparo este sentir e repudio-o com todas as minhas forças. Gostava de ajuizar diverso, que este meu abandono parece-me egoísta – traição ao “até que morte nos separe”. Quando é que se morre, afinal? A certificação das carpideiras?, a terra que nos tapa? Nunca me vais morrer, querida. Para os homens que passam certidões vais desaparecer um dia destes; para mim, embora o teu corpo já cá não esteja, não vais morrer nunca. Madrinha?, fazes-me uns ovos com chouriço? Madrinha?, tosse a tua tosse na missa a que me obrigavas a ir (toda gente sabia que estavas lá; era uma tosse que não posso adjectivar – acho que a forçavas – forçavas, sim? –, só para me dizeres que estavas ali e que não me abandonarias nunca). Madrinha?, emprestas-me dinheiro para comprar um livro? (gozavas-me, já eu adulto, quando recordavas o puto que nunca te pedia dinheiro dado). Não mereces o fim que a carne te deu. Que te está a dar. O reiródes (um homem mau, explicavas; só muito mais tarde percebi donde vinha a palavra) bembonda (como se não bastasse) tudo o que já te fez insiste em não te deixar descansar. Quero-te paz, minha mãe.

(guardado aqui)

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6 comentários:
De Isabel Moreira a 18 de Julho de 2010 às 09:34

esta tua escrita de verdade e de verdades.
um bejo.


De mdsol a 18 de Julho de 2010 às 12:19
:))


De natalia santos a 18 de Julho de 2010 às 14:48
Olhe para dentro dela e vá abraçá-la e dar-lhe a mão. Não importa se o reconhece ou não.


De Virgínia a 19 de Julho de 2010 às 09:56

Vá visitar a sua avó, dê-lhe um beijo, não a abandone; ela merece.
A sua avó cuidou de si quando você era bebé e você não a conhecia, mas ela conhecia-o a si.
Agora ela não o conhece, mas você conhece-a; a ela e a toda uma vida em comum.

Havia uma linda e antiga canção que dizia:
"Ela que tudo sabia e que tudo me dizia, hoje tudo me pergunta".

E, já agora que pergunta quando é que uma pessoa morre...
Uma pessoa não morre nunca, enquanto for recordada por aqueles que amou e que a amaram.

Um beijo



De Paulo a 19 de Julho de 2010 às 13:56
Há textos que metem nojo. Este é um deles. Se fosse ao contrário podes ter a certeza que a que a tua avó já la tinha ido muitas vezes, seu comodista de merda.


De André Filipe a 19 de Julho de 2010 às 23:43
Eu, por acaso, também não gostei deste texto. ...mas enfim, cada um com a sua sensibilidade...


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