Domingo, 13 de Janeiro de 2008

O original sueco tem um nome impronunciável: Bröllopsbervär. A edição que tenho é francesa e traduz o título à letra: Ennuis de Noce (Aborrecimentos de Núpcias). A portuguesa, da Relógio de Água, dá pelo nome de As Sete Pragas do Casamento. É o último livro do autor, Stig Dagerman, publicado em 1949, quando tinha 28 anos. Li-o há muito. Não voltei a relê-lo. É estranha esta coisa dos livros preferidos. Serão ainda preferidos se os voltarmos a ler 10, 20 anos depois? E faz sentido, reler os mesmos livros para aferir neles da nossa passagem pelo tempo, quando há tantos que ainda não lemos? Hoje fui buscá-lo. Não estava com os outros Dagermans. Pensei tê-lo perdido, emprestado, esquecido com alguém que esqueci. Senti uma angústia estranha, desproporcionada. Afinal, pode-se sempre comprar outro livro. Não é como se fosse uma edição original. Porquê então o drama? Muitas explicações para isso – mas a mais simples e provavelmente mais verdadeira tem a ver com querer reler o livro que li, não um outro que, sendo o mesmo, não o era. Encontrei-o, afinal, fora dos dês, entre dois Conrad. Folheei-o para certificar o enredo, o ritmo – que, ao contrário do dos primeiros Dagerman, plenos de uma angústia adolescente, é suave e circular. E procurei a frase que do livro mais ressoa em mim, e o seu leit-motiv: “faz-se com o que se tem”.

O prefácio certifica que é, como o nome da maioria dos capítulos, um dito comum na Suécia, um provérbio. No caso, baseado no primeiro livro de cozinha sueco, do século XVIII. A ideia é, portanto, a que se só se pode cozinhar com o que se tem. Uma noção óbvia, a remeter para a resignação face ao que a vida oferece, uma espécie de estoicismo. A narrativa descreve 24 horas na vida de uma comunidade rural. O dia do casamento de Hildur com o talhante local, mais velho e que ela não ama. “Cozinha-se com o que se tem”, repete a noiva para si ao longo do dia, ao longo do livro. A ideia chave é então de que não vale sequer a pena tentar encontrar outros ingredientes que aqueles que estão à mão. Que se deve, ao invés de buscar a felicidade, fugir dela: o medo do fracasso é tão grande que o aviltamento e a procura da derrota são preferíveis. “O que é a salvação? É, julgo eu, o processo através do qual conseguirmos de repente suportar a ideia de que esta vida é vazia, fria, indiferente, um nada”, escreve Dagerman no final da obra. Mas a resignação, afinal, não existe. Repetir “cozinha-se com o que se tem”, não impede de desejar, de sonhar com o que nunca se experimentou. Alguém que oiça e compreenda tudo. Alguém cujo desespero irmão, cuja solidão em espelho, ofereça afinal o alívio possível – ou impossível. “Todos nos perguntamos: Em que pensam os outros homens quando estão sozinhos? Se pensam como nós, por que é então que nunca o sabemos? Talvez saibamos todos a mesma coisa sem nos atrevermos a revelá-la uns aos outros? Talvez nos perguntemos: Onde está o amigo que procuro em todo o lado? Talvez o encontremos, todos nós, quando amarfanhados e em sangue o descobrirmos deitado, amarfanhado e em sangue, também ele, no fundo desse abismo para onde nos impele o nosso desespero? (…) Talvez, simplesmente, esperemos descobrir nas trevas uma luz que a própria luz nos recusa, talvez esperemos descobrir na solidão um amigo que a comunidade dos outros nos nega.” Aparentemente, Dagerman desistiu desse encontro a 4 de Novembro de 1954, quando aos 31 anos acelerou a fundo numa garagem fechada. Mas, se for verdade o que escreveu, buscava-o ainda – sendo afinal o maior desespero o de não ser capaz de desistir, de viver com o que se tem. Mesmo suspeitando que não há mais nada. (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 6 de dezembro)

11 comentários:
De cfa a 13 de Janeiro de 2008 às 17:43
Fantástico texto, Fernanda. Inquietante e tão verdadeiro (o teu e o do sueco)! Vou comprar o livro.


De A. Castanho a 14 de Janeiro de 2008 às 18:58
É a maior força da Literatura: nela encontrarmos tantas vezes os nossos próprios pensamentos mais íntimos, de uma forma que nunca conseguiríamos explicitar...


De cadeiradopoder a 14 de Janeiro de 2008 às 19:55
Muito bom texto. Intimista e, no entanto, penso que fala para qualquer um que o leia, o que é no fundo, apanágio da boa escrita.


De CARLOS CLARA a 14 de Janeiro de 2008 às 21:42
"Talvez saibamos todos a mesma coisa sem nos atrever-mos a revelá-la uns aos outros "
É o que me parece de mais real no seu texto. Contudo a fantasia alivia a dor. A fantasia, é por assim dizer, o melhor analgésico para o tormento da condição humana.
Let´s play the music and dance!


De João José Fernandes Simões a 15 de Janeiro de 2008 às 12:09
Num blog onde o seu autor gosta de mandar umas bocas, e onde eu próprio não resisto, por vezes, a também mandar algumas, li há dias o seguinte: «... No dia da entrevista com o presidente venezuelano, Naomi deixou escapar: «O homem com quem eu me casaria um dia deve ser sincero comigo e ter muita energia. Os homens fortes atraem-me».
E o autor do blog remata no seu post, a meu ver a despropósito, que «É tempo de o nosso "engenheiro" desenterrar a namorada e fazer do acontecimento (ou não-acontecimento como ele gosta) um factor de popularidade. Talvez lá mais para perto das eleições. Que tal?».

Tendo um registo e um objectivo diferente nas minhas vistas ao Cinco Dias, daquele que tenho nas visitas que faço ao blog em questão, o qual deliberamente não identifico, não resisti a comentar a parvoíce daquelas passagens do post com este meu comentário: «Não acho, pois tenho (muitas) dúvidas que a "namorada" se deixe "desenterrar", porque não estou a vê-la no papel de "Cinha". E, se estiver enganado, será mais uma ingenuidade minha, mas também não seria a última, mesmo em tempo em que as surpresas vão sendo poucas».

E este post da FC, que eu li já várias vezes, reforça aquela minha opinião.
Sendo estranho esta coisa da blogosfera que nos dá a sensação de que conhecemos melhor certas pessoas que nunca vimos em carne e osso e que nos transporta para uma certa intimidade, que não conseguimos sentir com outras que vemos todos os dias e a quem nunca conseguimos descobrir a alma.


De Model 500 a 15 de Janeiro de 2008 às 12:59
"É a maior força da Literatura: nela encontrarmos tantas vezes os nossos próprios pensamentos mais íntimos, de uma forma que nunca conseguiríamos explicitar… "A. Castanho

Muito bem. Não diria melhor.


De Julio Amorim a 15 de Janeiro de 2008 às 17:51
Bröllopsbesvär = "Incómodos de Núpcias"
de....bröllop = casamento, núpcias
e ....besvär = incómodo, maçada

Besvär, não tem nada a ver com "aborrecimento"

"Man tager vad man haver" ......faz-se com o que se tem


De João José Fernandes Simões a 15 de Janeiro de 2008 às 22:57
Hum...!
Lápis azul no Cinco Dias...?
Ou atraso no despacho do expediente...?


De Fernanda Câncio a 16 de Janeiro de 2008 às 12:41
ena, um leitor que fala sueco. obrigada, júlio amorim. de facto, ennuis também permitiria essa tradução. burrice minha.


De JA a 16 de Janeiro de 2008 às 21:07
Burrice nenhuma minha Senhora......traduziu bem, só que traduções de traduções...podem dar confusão.


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