Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

 

 

Carta Aberta
Ao Director-Geral e Administrador da TVI
Ao Director-Geral da Plural Portugal
À Administração da Média Capital

Assunto: Cancelamento, pela TVI, de uma cena de afectividade entre casal de namorados, na série "Morangos com Açúcar"
28 de Julho de 2010

Exmo. Sr. Bernardo Bairrão,
Exmo. Sr. André Cerqueira
Exma. Sr.ª Ana Esteves,

Tomámos conhecimento, através de notícia publicada no Jornal de Notícias a 19 de Julho de 2010, da decisão de cancelar a emissão de uma cena de afectividade protagonizada por um casal de rapazes na série "Morangos com Açúcar". Segundo informa a mesma fonte, a cena, que inclui um beijo entre os dois rapazes, foi gravada pelos autores da série e rejeitada pela direcção de programas da TVI. Procuramos com a presente carta obter um esclarecimento quanto ao porquê desta decisão e alertar para o impacto extremamente negativo da mesma.


Entendemos não existir justificação para a não emissão de qualquer conteúdo que expresse a diversidade de afectos e relacionamentos que existem na sociedade, tendo em conta os critérios avaliados para o horário e público a que se destina a série, mas sempre com respeito pelo compromisso de igualdade consagrado na Constituição da República Portuguesa (Art. 13º), no Tratado da União Europeia (Art. 10º) e na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia (Art. 21º), que no caso aqui apresentado se relaciona directamente com um tratamento desigual baseado na orientação sexual das personagens.

Qual é a gravidade desta infracção? Tratando-se de uma série de jovens para jovens, em emissão desde 2003, com um público substancial que encontra nela um retrato das vidas de sucesso, complicações, dramas e conquistas da juventude portuguesa, compreendemos ser importante que o desenvolver da série “Morangos com Açúcar” seja inclusivo e se estenda sem discriminações à realidade de jovens lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros (LGBT) em Portugal.

A visibilidade positiva e a informação correcta sobre orientação sexual e identidade de género são aspectos cruciais na desmistificação destes assuntos, na educação de mentalidades e no desenvolver de uma personalidade e capacidades sãs entre jovens com uma orientação sexual minoritária, que, infelizmente, não contam ainda com modelos positivos no seu dia-a-dia devido à discriminação e ao preconceito.

A comunicação social e os média desempenham um papel importantíssimo nesta área, tendo o direito e o dever de retratar e noticiar, sem medo ou preconceito, mas com respeito e verosimilhança, as histórias desta camada da população, honrando e apoiando todos aqueles que ainda sofrem constantemente pelo preconceito direccionado pela sua orientação sexual ou identidade de género.

A omissão de personagens LGBT e de cenas que retratem o dia-a-dia destas pessoas, com dúvidas e receios tão legítimos quanto os de seus pares heterossexuais, e que fazem parte da vida de milhares de jovens no nosso país, é absolutamente preocupante, descaracteriza a série em relação à sociedade que pretende retratar e isola muitas crianças e adolescentes que encontram um sinal positivo na história das personagens Nuno e Fábio e na aparente legitimidade que a TVI confere à mesma, revelando-se afinal discriminatória e incapaz de respeitar as vivências destes jovens no seu todo.

Esta decisão reduz a existência e os sentimentos destes adolescentes e propicia a invisibilidade, veiculando a ideia de que são menos dignos que os seus pares heterossexuais, sentimentos e pensamentos que levam à instabilidade emocional e que poderão expressar-se no maior isolamento, insegurança, repressão, desrespeito próprio, auto-mutilação, tentativa e ideação de suicídio, como tem sido recentemente documentado.

Vivemos numa época em que estão reunidas todas as condições para o apoio e o respeito às pessoas LGBT, e estamos certos/as que a sociedade portuguesa está mais do que preparada para assistir às imagens desta história de amor, que afinal é igual a tantas outras. Pedimos que não deixem de participar e de contribuir de forma positiva para esta educação de mentalidades, repondo a cena cujo cancelamento representa uma infracção das normas nacionais e internacionais dos direitos humanos e um sinal triste de retrocesso civilizacional.

Com os nossos melhores cumprimentos,


As Associações:

AMPLOS – Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual (amplosbo.wordpress.com)

ATTAC (www.attac.pt)

ILGA – Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero (www.ilga-portugal.pt)

não te prives – Grupo de Defesa dos Direitos Sexuais (www.naoteprives.org)

Panteras Rosa – Frente de Combate à LesBiGayTransfobia (www.panterasrosa.blogspot.com)

PolyPortugal (polyportugal.blogspot.com)

PortugalGay (portugalgay.pt)

rede ex aequo – associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e simpatizantes (www.rea.pt)

Rede Portuguesa de Jovens para a Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens (www.redejovensigualdade.org.pt)

UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta (www.umarfeminismos.org)

 


6 comentários:
De Pedro Almeida a 29 de Julho de 2010 às 22:05
Se a grande preocupação dos activistas "pró-LGBT" é uma cena de uma novela da TVI (!? )é  porque nada mais há a conquistar, todas as batalhas já foram ganhas!

Silly season em todo o seu esplendor.
Pel'amor de Deus...menos, menos.


De Shyznogud a 29 de Julho de 2010 às 22:26
Silly? Olha q não, olha q não, o valor simbólico destas coisas é muito mais importante do q imaginas (a ver pela reacção q tiveste).


De aviador a 29 de Julho de 2010 às 23:13
Valerá a pena perder tempo com esses figurões, cobardolas, ao serviço das audiências e de tudo quanto há de mais conservador?
O que eles pretendem é fingir arrojo, mas só ao de leve, para manter o auditório com um mínimo de excitação, com um arremedo de transgressão.
É verdade são uns filhos daquela que bem sabemos!

 


De nuvens de fumo a 30 de Julho de 2010 às 08:12
Está tudo como deveria ser: uma entidade privada faz o que entende com a sua programação e a sociedade civil protesta com o impacto que merece.


Fosse sempre assim ....


De Paula R. a 30 de Julho de 2010 às 13:02

as mentalidades não são coisa de atar e pôr ao fumeiro, pouca ou nenhuma evolução registam em relação ao marco legistativo do CPMS. É discriminação pura e do mais deescarado que há, que se desenganem os que ingenuamente pensavam que situações grosseiras deste tipo pertenciam ao passado



De Kruzes Kanhoto a 1 de Agosto de 2010 às 12:26
Mai nada pá! E uns quantos gajos a enrabarem-se não?


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