Sexta-feira, 30 de Julho de 2010

As perguntas que os jornalistas colocam não são necessariamente as mesmas que interessam à justiça. A justiça investiga procedimentos considerados faltosos do ponto de vista da lei; os jornalistas podem fazer o mesmo e até pensar como investigadores judiciais - desde que tenham sempre presente que o não são - mas podem também explorar zonas de penumbra, ligações suspeitas/perigosas, fazer um levantamento de indícios e "estranhezas" e até retratos de carácter. O que não é suposto suceder, nunca, é os investigadores judiciais pensarem como jornalistas - ou seja, procurarem aquilo que julgam que poderá interessar ao (seu) público ao invés de se concentrarem em confirmar ou infirmar factos relacionados com matéria criminal.

 

Quando se lê, no despacho final do inquérito do processo Freeport, que os dois procuradores que há 17 meses têm o caso em mãos lamentam não ter podido ouvir o primeiro-ministro e uma outra pessoa (o seu secretário de Estado quando ministro do Ambiente), e que dizem não ter podido fazê-lo por lhes ter sido imposto um prazo para encerrarem a investigação e ser necessária autorização superior para ouvir o PM (já no caso do ex-secretário de Estado era só convocá-lo, mas pronto), fica-se de boca aberta. Então depois de durante ano e meio saírem repetidas notícias sobre o envolvimento do PM - quer como alvo da investigação quer como autor de "pressões", pressões essas denunciadas precisamente pelos dois procuradores que assinam o despacho - o caso chega à acusação com os investigadores a dizer que não lograram fazer-lhe as perguntas (27, nem mais nem menos) que "importavam"? Quem os impediu? Que força os bloqueou? Que pressões os travaram, suficientemente ponderosas para impossibilitar a demanda mas não para obstar à queixa?

 

O procurador-geral da República já determinou a abertura de um inquérito com o objectivo de responder a estas questões. Mas, enquanto esperamos, podemos satisfazer a curiosidade: as tão importantes perguntas estão no despacho e foram reproduzidas nos jornais. Por exemplo, os procuradores queriam saber se o PM recebeu uma carta de um dos acusados, Manuel Pedro, em que este lhe chamaria "Caro Amigo"; se consegue explicar afirmações de um primo sobre o facto de o pai desse primo se gabar da sua relevância no licenciamento do Freeport; se consegue explicar porque é que o PS mandou um e-mail de propaganda para outro dos arguidos, Charles Smith, "apesar de este ser estrangeiro". Sim, paremos de esfregar os olhos: é mesmo uma resenha das manchetes do caso Freeport. E é mesmo a entrevista ao PM que toda a gente queria ler. Dá-se o caso de ter sido alinhada por dois procuradores num processo-crime e de não haver nas perguntas qualquer relevância criminal. Mas é uma boa prova.

 

(publicado hoje no dn)


8 comentários:
De Marcelo do Souto Alves a 30 de Julho de 2010 às 13:14

Autoclismo e muita lixívia para cima desses patifes!


De j a 30 de Julho de 2010 às 13:55
uma excelente 'tradução' do que escreveu daniel oliveira no arrastão.
mas a sua 'camarada' aqui por estas bandas não percebe (ou não quer).


De Romeu a 30 de Julho de 2010 às 18:43
Muito bem, f., disse tudo! ;)


De Miguel a 30 de Julho de 2010 às 19:48
Eu acho que os procuradores fizeram muito bem em deixar esses "queixumes" nos despacho.

Afinal de contas eles contavam lançar estas perguntas só no inicio do próximo ano, quando é previsivel que voltemos a ter eleições legislativas. Por agora eram as férias, depois mais uns atrasozitos, as cartas rogatórias que não chegam, as presidenciais e, logo depois... zumbas! 27 perguntas para o PM com transmissao em esterio no SOL.

27 perguntas! "tasse" mesmo a ver. 3 por semanas, dá 9 semaninhas de romance quase-porno como o filme quase-homonimo.

Alguem estragou tudo! exigiram a conclusão agora! Estragarm a festa e o plano. O pequeno arquitecto o presidente do sindicato e os procuradores "pressionados" ficaram piursos!!

Assim, talvez tenha de ressuscitar a Manela-que-esta-de-baixa-na-praia-verde, ou talvez o Crespo ouça qualuqer coisa numa tasca, o o JMF vai ter de denunciar uma babala de sócrates, desta vez, contra o Papa.

isso vai dar uma trabalheira e não é justo liquidar um plano tão bom.

Não há Direito!!

miguel


De nuvens de fumo a 30 de Julho de 2010 às 20:56
Um programa da manela com o crespo ?
Não haverá limites para o horror ?



De Miguel a 30 de Julho de 2010 às 23:59

O limite do horror seria um jornal diário, apresentado pelo Crespo e pela Manela.
Em cada dia da semana, um comentador residente: 2ª José Manel, 3ª Grande arquitecto Saraiva, 4ª Cintra Torres, 5ª Filomena Mónica e 6ª O Pacheco.
Como comentador residente, com 30 minutos diários a comentar a actualidade...Medina Carreira.

Isto sim, era digno do titulo de "horror Show"!

miguel


De nuvens de fumo a 31 de Julho de 2010 às 11:29
 cruel


De Anônimo a 30 de Julho de 2010 às 23:41
A "coisa" é ainda mais complicada. A Dra. Cândida diz que as perguntas são pertinentes mas a resposta às mesmas não levaria a lado nenhum. Perguntas pertinentes que não levam a lado nenhum?


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