Sábado, 25 de Setembro de 2010
A deportação de ciganos em curso em França – que mereceu já o protesto do parlamento europeu e poderá vir a implicar um processo àquele país por parte da Comissão Europeia – traz, ou devia trazer, para o debate público a integração desta minoria étnica.
Uma das questões de partida que se pode colocar quanto ao que se pode chamar “o problema cigano” é de índole paradoxal. Falaríamos sequer de ciganos como grupo se os indivíduos com esta “pertença” ou “registo” cultural estivessem integrados na sociedade? Não sendo uma minoria religiosa nem uma minoria cujas características “físicas” ou “de origem” permitam distingui-la da maioria da população portuguesa, os ciganos só se distinguem e apartam por aquilo que se denomina por “costumes”, “tradições” e “modo de vida”, assim como pela discriminação de que são alvo (sendo que esta última reforça aquelas e vice-versa). Mais concretamente, os ciganos distinguem-se e apartam-se da maioria da população pelo seu esforço consciente de distinção e apartamento -- que chega ao ponto da recusa de socialização básica, por exemplo no que respeita à resistência a colocar (ou a manter) as crianças na escola e à deliberação de preservar a “pureza” daquilo a que chamam “raça”, eximindo as meninas do convívio com rapazes não ciganos, combinando casamentos desde tenra idade e casando-as logo que possível (facto que tem vindo a ocasionar investigações e processos judiciais por abuso sexual de menores).
Há quem – caso do antropólogo José Pereira Bastos, coordenador científico da conferência internacional “Ciganos no século XXI”, que decorreu em Lisboa há duas semanas -- considere que a história de perseguição e discriminação dos ciganos configura até hoje um “genocídio” (com momentos de metódica eliminação como o da Alemanha nazi e que o antropólogo garante estar longe de ser excepcional) e que esse facto implica um esforço de discriminação positiva e de rectificação de atitudes semelhante ao que ocorreu nos EUA com os negros e na Índia com os intocáveis, com a criação de quotas para esta minoria nos empregos e ao nível da representação política. Pereira Bastos defende até “uma lei especial para ciganos”, em que, por hipótese, se não aplicaria a norma geral da República que situa a idade do consentimento para efeitos de relações sexuais nos 14 anos e qualifica todas as aproximações sexuais de adultos antes dessa altura (quanto mais as relações sexuais ou o casamento) como abusivas e constituindo, por definição, crime.
Parecendo evidente que a minoria cigana é vítima de uma discriminação violenta, reiterada e historicamente provada, e que medidas de discriminação positiva podem fazer todo o sentido no esforço de “equalização” das oportunidades, levar essa discriminação ao ponto de criar excepções no que se refere a direitos humanos básicos, assim como à protecção das crianças, é simplesmente intolerável. A igualdade inscrita no pacto social da sociedade democrática e do Estado de Direito em que vivemos significa igualdade de oportunidades e de dignidade – e portanto de responsabilidade -- perante a lei; significa dar o mesmo valor a uma pessoa nascida cigana (seja lá isso o que for) e a uma nascida não cigana. Se pelo reconhecimento desse igual valor se pode defender uma discriminação positiva, jamais se poderá justificar a ablação de direitos fundamentais, sejam eles o da integridade física -- manter intacto o clitóris, por exemplo -- ou o da decisão informada e da escolha de um futuro. Defender, “em nome da diferença”, que crianças não devem ser tratadas, respeitadas e protegidas como crianças que são por serem ciganas é afinal dizer que os ciganos “não têm lugar na sociedade”. Entre esta expulsão simbólica e a praticada por Sarkozy, o diabo escolha.
(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 19 de setembro)
De
JC a 25 de Setembro de 2010 às 18:12
Mtº bem! parabéns.
De vm a 25 de Setembro de 2010 às 18:44
entao porque o ps voto a favor do sarcos, mais uma vez como o cao da velha fartam se de ladrar e depoia mete o rabo entre as pernas e vao embora
De josé cid a 25 de Setembro de 2010 às 19:46
"manter intacto o clitoris"??
esta não entendi!?
mas os ciganos destroem o clitoris?removem-no?ofendem-no?
o que tem o clitoris que ver com a virgindade perdida antes de certa (ou mesmo depois) idade?
De Anónimo a 26 de Setembro de 2010 às 12:45
Para o pós-feminismo moderno, manter o clitóris intacto é fundamental. É sagrado. Repare que "intacto" significa "não tocado". O pós-feminismo mantém-se virgem desde que os dedos não toquem aí.
De
f. a 26 de Setembro de 2010 às 19:32
há gente realmente mto idiota, benza-a deus.
De Anónimo a 27 de Setembro de 2010 às 00:32
Não é "gente muito idiota". O comentário é "muito idiota" e foi propositado porque o clitóris apareceu no seu post metido a "martelo". Se a mutilação genital feminina não é criminalizada em Portugal ora aí está uma boa causa para lançar. Se existem comunidades em Portugal que praticam a mutilação genital feminina, denunciem-se esses casos. Tem o meu total apoio. E a minha bênção também, já agora.
De
f. a 27 de Setembro de 2010 às 00:52
adorava perceber como é q alguém diz coisas como 'a mutilação genital feminina não é criminalizada em portugal'. é q é realmente extraordinário. acha q a mutilação não é criminalizada, portanto? ou é só a genital feminina?
como é evidente, a alusão à mutilação física
servia no texto para frisar a comparação com a mutilação do futuro. quanto ao resto, aconselho-lhe q s informe, não vá alguém mutilar-lhe alguma coisa e achar q não pode queixar-s à polícia.
De Anónimo a 27 de Setembro de 2010 às 07:14
primeira resposta: não sei, não faço ideia.
segunda resposta: mutilação do futuro? interessante, essa não conhecia.
De Manolo Heredia a 25 de Setembro de 2010 às 20:11
Uma cigana engravida em Portugal, vai às connsultas de borla no hospital português, tem a criança no hospital português, à borla.
Vocês julgam que nasceu mais um português? não! nasceu com defeito, é um ROM, pertencente a uma minoria que tem que ser protegida!!!
ISTO É QUE É RACISMO!!!
De Romeu a 26 de Setembro de 2010 às 20:02
"Uma cigana engravida em Portugal, vai às connsultas de borla no hospital português, tem a criança no hospital português, à borla."
Ela e qualquer mulher portuguesa. Lá por ser cigana, não quer dizer não pague impostos.
De
f. a 26 de Setembro de 2010 às 20:07
olá, romeu. ainda bem q aparece. houve dois comentários seus q julgava ter aprovado e q não aparecem aqui. desculpe.
De Romeu a 26 de Setembro de 2010 às 21:18
Sim, é verdade, não se preocupe. Eu reparei mas pensei que tivesse sido por ficarem fora do contexto, por não se perceber ou que fosse melhor não estarem lá. Eu posso criticá-la muitas vezes, mas em geral confio bastante no seu bom senso. ;)
De
f. a 27 de Setembro de 2010 às 00:46
eheh. é pena os comentários terem desaparecido, porq m poupavam o trabalho d ter d explicar coisas óbvias.
quem já experimentou viver perto de ciganos e interagir com eles conhece bem a camisa de onze varas em que se meteu... não são pessoas fáceis nem pretendem ser. e se falarmos em integração, falta saber se a podemos impor ou se a verdadeira integração não implica uma vontade mútua: nossa e deles (os ciganos).
De Luis Moreira a 26 de Setembro de 2010 às 00:13
F., palavra que percebo isso tudo, mas eu que vivo aqui há 32 anos no meio dos ciganos não saberei nada?
De si engano a 26 de Setembro de 2010 às 03:15
culturas nómadas geram conceitos de vida e praticas nómadas
mesmo quando essas culturas são sedentarizadas sejam tartaros iugures tetchenos kabardos inguches ou tziganes
e há sempre respostas das culturas agrícolas tierra-tenentes
resumindo é tudo uma batalha cultural
e não étnica, a etnicidade é uma consequência da cultura e não vice-versa de resto os meus vizinhos moldavos são mais brancuchos que a mim e talvez que a si
e têm sardas e olhos verdes
e as mulheres fumam e vestem coisas com flores
mesmo no luto...isto há gentes
De ??? a 26 de Setembro de 2010 às 09:14
Há alguma razão para os meus comentários não serem publicados?
De
f. a 26 de Setembro de 2010 às 19:30
uma, e bem simples: nada têm a ver c o tema do post.
De Calíope a 26 de Setembro de 2010 às 15:01
Fiquei algo confusa. Então, são discriminados ou auto-discriminam-se? E a resposta é : São discriminados, mas são eles que assim querem? Ou antes: São discriminados, apesar de sempre terem querido integrar-se?
É que o interesse que eventualmente têm em integrar-se também não é declaradamente defendido no seu texto!
De JESAnto a 26 de Setembro de 2010 às 19:25
discriminação positiva não me cheira bem. Mas também não é fácil de ler "pelo seu esforço consciente de distinção e apartamento".
Os filhos dosemigrantes portugueses, no Candá ou em França por exemplo, casam frequentemente com filhos de outros emigrantes portugueses. Muito emigrantes portugueses ao fim de muitos anos no país de acohimento não dominam a língua desse país. Também aqui é um esforço consciente de distinção e apartamento?
De
f. a 27 de Setembro de 2010 às 00:47
acha mm q as duas situações são comparáveis?
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