Domingo, 26 de Setembro de 2010
Miguel Vale de Almeida

Há uns meses atrás convidaram-me para escrever um artigo para a revista de bordo da TAP. Era suposto ser sobre o que me atrai em Portugal – obviamente para consumo dos não-portugueses. Não encontro o artigo online mas o argumento era o seguinte: Portugal não tem nada de espectacular do ponto de vista monumental ou de referências culturais; mas também não é uma faixa de gaza (assim, sem maiúsculas); não é um destino d’ A Europa (assim, com maiúsculas), mas também não é um lugar tropical de voos charter diretos para a praia; não tem daquelas gastronomias criadas em grandes côrtes do passado, mas também não se come sempre a mesma coisa básica; a água do mar é fria demais, mas as praias não são cinzentas nem cortam os pés com os corais; and so on. O “ponto”? Portugal é um local intermédio, sem a grandeza (e a vaidoseira) dos grandes centros, e sem as doenças e os perigos de muito sítio periférico. Local de transição e mistura, uma pessoa sente-se aqui um terço na Europa, um terço no Norte de África e outro terço na América do Sul. No bom de cada uma, sem o mau de cada qual. Era um texto meio tolo, a puxar para o divertidóide, para ler up, up and away.

 

Mas outro dia dei por mim a pensar nele. Porque não é assim que a maioria dos meus conterrâneos pensa sobre o burgo. O pessoal é um pouco de extremos nesta matéria: ou se incha com as glórias do passado (descobrimentos e essas coisas assim), ou denigre isto como os cus de judas (e o cheirinho anti-semita não poderia estar ausente). Pensar Portugal como intermédio não ocorre a ninguém, é chocho demais, águas de bacalhau, banho-maria. Ou grandeza ou miséria, prontoS. Dei por mim a pensar nestas coisas em pleno Parlamento e, portanto, em termos mais ou menos políticos (coisa que às vezes acontece ali). Temos uma cultura política que pensa o país exactamente naqueles mesmos termos extremados. Uns pensam num grande passado e não se conformam com a ideia de que tal não se repetirá; outros pensam que com isto não há nada a fazer. O salazarengo, o taxista ou o empreiteiro dominam o nosso pensamento político enquanto colectividade. Quando se projecta o futuro  pensa-se com excessiva grandiosidade e novo-riquismo, em grandes obras e grandes sucessos; ou pensa-se que não há nada a fazer e mais vale cada um tratar da sua vidinha.

 

Acontece que nunca Portugal será o que foi (o que supostamente foi, mas isso é outra H/estória), e nunca Portugal será uma potência – mas isso não quer dizer que seja necessariamente um fracasso. Portugal deveria ser, simplesmente, uma república decente. Tem tudo para isso: ganhou, como dizia um amigo meu, a independência do Brasil (esse sim, será uma potência), livrou-se das colónias (mas ninguém parece meter isso definitivamente na cabeça...), “entrou na Europa” (deliciosa expressão). Tudo isto é bom. É um país pequeno, com apenas 10 milhões de almas (OK, algumas pessoas não terão tal coisa, mas vá). É dos mais pobres entre os mais ricos, dos mais ricos entre os mais pobres. Tem tudo para ser um sítio decente, onde a prioridade seja garantir que esta mão-cheia de gente espalmada à beira-mar seja escolarizada, tenha emprego, tenha segurança social, tenha saúde, seja criativa, seja solidária com o resto do mundo e goze a vida. Caramba, não somos uma Índia com triliões de problemas para resolver. Não se percebe, sinceramente, como construímos tanta desigualdade e como desperdiçámos tantos recursos. Não faço o elogio do “orgulhosamente sós”, da velha direita, nem vivo o sonho da autarcia utópica, da velha esquerda. Mas também não compro os delírios de grandeza – quer os da prisão atávica a uma imagem do passado, sempre cheia de ranço colonial (a panca com a língua e a Lusofonia, por exemplo, é irreal; somos 10 milhões a falar um dialecto exótico e pronto - what’s the big deal?), quer os da emulação (impossível) das potências que passaram a sério pela revolução industrial. Acho mesmo que, no nosso caso, small é beautiful e que há que aproveitar essa circunstância. Há sítios assim, com todas as diferenças entre eles e em diferentes graus relativamente ao seu contexto, dos uruguais às noruegas. Eu só queria um lugar decente. Sem manias, sem complexos, sem uma desigualdade obscena, sem preconceitos nojentos.

 

Ali pelos anos oitenta chegámos a uma situação em que tínhamos todos os trunfos para dar certo, para dar decente: país pequeno, sem colónias, na Europa, com recursos q. b., com democracia – e ainda por cima (OK, vá) com umas praias, uma comida e um clima porreirinhos. Deus deu-nos nozes. Ou estávamos desdentados ou partimos os dentes com a fuçanguice.


17 comentários:
De Paulo Pinto a 27 de Setembro de 2010 às 00:07
Lembro-me sempre dos casos mais interessantes (e porventura os mais comuns): aqueles que acham que Portugal é simultaneamente - daí o interesse - o melhor e o pior; para os amigos, o pior, para os estranhos (leia-se estrangeiros) o melhor; os que passam a vida a dizer mal e o "só neste país" mas para consumo interno, porque se um estrangeiro resmunga um decibel, arreiam logo as quinas. Uma espécie de "é uma merda mas é a nossa merda".


De João Pinto e Castro a 27 de Setembro de 2010 às 00:20
Não posso concordar mais, Miguel.


De Ana Vidigal a 27 de Setembro de 2010 às 00:57
eu para te falar verdade dos anos 80 só me lembro da noite...
mas devo ter comido imensas nozes com casca e tudo, pois a coisa era de uma abençoada "fuçanguisse". parece que não parti dentes mas paguei belas contas ao meu dentista. :)


De Miguel Vale de Almeida a 27 de Setembro de 2010 às 09:11
tu nem me fales disso, ana, que até córo :-) 


De Ana Vidigal a 27 de Setembro de 2010 às 18:35
;)


De joão gaspar a 27 de Setembro de 2010 às 01:50
acho que foi ao alberto pimenta que uma vez ouvi dizer que «portugal é um país igualzinho aos outros».


De tiago a 27 de Setembro de 2010 às 07:04
Caríssimo, antes de mais parabéns pelo texto. Espero que não se importe com a referência que faço ao mesmo no meu blogue.
Cumprimentos.


De Filipe a 27 de Setembro de 2010 às 07:07
Só uma pequena nota. Em boa verdade, existe uma região na costa portuguesa onde a temperatura da água do mar atinge níveis idênticos àqueles que se verificam no Mediterrâneo Ocidental: falo da baía de Monte Gordo (praias de Monte Gordo, Praia Verde, Manta Rota, Cacela Velha, Fábrica). 


Devido à orientação da costa (voltada para leste), à baixa profundidade e à proximidade da desembocadura do Mediterrâneo, esta região costeira costuma ter temperaturas da água do mar que rondam os 24ºC durante o Verão, e que podem atingir ocasionalmente os 28ºC, sendo o único local em toda a nossa costa onde tal sucede. 


Contudo, a restante costa algarvia tem temperaturas mais baixas. No cabo de Santa Maria a temperatura média da água do mar durante o Verão já anda pelos 22ºC, e em Sagres já é inferior a 20ºC. Já na costa ocidental, pode variar entre os 14ºC no Norte e os 18ºC na costa alentejana. 


Em termos de turismo de sol e praia, pegando no clima e na temperatura da água do mar, só a Madeira ou o sotavento algarvio têm condições para competir com o sul de Espanha ou de Itália, as ilhas gregas, Malta ou Chipre. 


De Irene Pimentel a 27 de Setembro de 2010 às 09:50
É isso mesmo, Miguel.


De Morcego a 27 de Setembro de 2010 às 10:17
Pois é. A questão é que nos últimos 25 anos tivemos um assomo colectivo de novo-riquismo. Esquecemos a nossa condição de "o mais pobre dos ricos". Quisemos viver como os mais ricos e esquecemo-nos que precisamos também de trabalhar como eles. Sem querer ser miserabilista, quem se lembra como vivíamos há 25 anos atrás? Quem discorda que, de uma forma geral, se trabalha mal no nosso país e que uma boa parte das pessoas é um pouco indolente? Querer as condições de vida dos mais ricos e continuar a trabalhar mal só se consegue quando entram riquezas do exterior: seja a título +/- gracioso, como os subsídios da UE, seja a título de empréstimo, situação que é, estamos a ver, insustentável. Que cada um ganhe consciência do problema e tire as suas conclusões.


De fernando f a 27 de Setembro de 2010 às 12:07
Um belo discurso para fazer aos seus pares, lá no Parlamento, rematando assim: embora lá pessoal, vamos trabalhar esta ideia até dar certo!?, até porque, como sabeis, este parlamento conseguiu coisas que ainda á uns pares de anos eram perfeitas utúpias.


De Luís a 27 de Setembro de 2010 às 19:50
Miguel, por acaso lembro-me de ter lido esse texto num voo da Tap .
Só há uma coisa que não percebi. Porque razão havemos de dizer que uma pessoa sente-se aqui "...  um terço no Norte de África e outro terço na América do Sul" e não que uma pessoa sente-se no Norte de Africa e na América do Sul "um terco em Portugal?"
Parece-me mais lógico, digo eu. Sobretudo em relacão à América do Sul.


De Marco Silva a 28 de Setembro de 2010 às 14:31
Olha quem fala? O que raio fez você como deputado? Recebeu o ordenado ao fim do mês, sentou-se e levantou-se, das poucas vezes que lá foi, e deu cara num acto de provincianismo típico da esquerda caviar, ou seja, assumiu ser eleito na condição de homossexual. Unidimensional. Limitado. Pseudo-modernaço. Mas tão tachista quanto o mais analfabeto dos grunhos das berças que sentam a anafada peida em S. Bento. Discurso republicano sem brio nem nada. Vá-se catar!


De Miguel Vale de Almeida a 28 de Setembro de 2010 às 22:53
Marco Silva (se é o seu nome): gostava que me explicasse porque diz isso. Gostava que o fizesse à minha frente, expusesse as suas razões e, já agora, qual a origem de tanto ódio. Se quiser marcamos um encontro. Fique bem. MVA


De Marco Silva a 29 de Setembro de 2010 às 11:05
Ódio? De modo algum! Fiquei desiludido consigo quando aceitou ser um deputado-troféu, por causa da orientação sexual, que é uma coisa que não devia ter a mínima relevância. Nem é assunto. E logo pelo PS! Por ESTE PS! Na Assembleia acabou por ser unidimensional, prejudicando a causa da igualdade e do direito á indiferença.

Depois, fiquei desiludido por se juntar a um blog de propaganda ostensiva deste lamentável Governo, uma lavandaria em que umas lavadeiras de Caneças branqueiam as grunhices deste PS (tão grunho como o PSD do Cavaco), e fazem umas manobras de diversão quando a coisa aperta, usando cavalos de batalha como precisamente o do casamento gay, uma "causa fracurante" que serve às mil maravilhas para dar um ar modernaço e distrair o povão.

Agora, este seu texto tão republicaninho, tão pequenininho, tão sem brio nacional... Não havia necessidade!

Não odeio, repito. Só me custa vê-lo em más companhias a e a absorver ideários tão fraquinhos.

PS - Parabéns pela sua coragem! Imagine que eu era um psicopata de 1,99m, cheio de esteróides! Arriscava-se a levar uma tareia... Ou podia ser o início de uma grande amizade. Fique bem! :)


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