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A morte das abelhas

As abelhas produtoras de mel (honeybees) estão a morrer e ninguém sabe porquê. Embora a maleita tenha chegado a Portugal, aparentemente por cá poucos se preocupam com isso, se o grau de preocupação puder ser aferido pelos nossos media. E este mistério dever-nos-ia preocupar e muito porque se as abelhas desaparecessem a vida na Terra seria seriamente afectada: cerca de cerca de «80% das plantas dependem da polinização e 40% da nossa alimentação depende directamente das abelhas». Ou seja, para além do mais, as abelhas asseguram o sucesso de inúmeras colheitas agrícolas essenciais para a alimentação humana.

 

Para estudar o problema, a UE lançou em Março o projecto de investigação BEE DOC, um projecto de três anos que pretende ajudar os apicultores a sobreviverem ao Síndrome do Colapso das Colónias - Colony Collapse Disorder, CCD. Nos Estados Unidos, o país onde o alarme soou pela primeira vez, o departamento de Agricultura, USDA, formou em 2007 um CCD Steering Committee.

 

Até recentemente, a varroose era o principal problema da apicultura ocidental, nomeadamente da norte-americana. A parasitose provocada pelo ácaro Varroa destructor, detectada em 1987 nos Estados Unidos, era só por si um problema preocupante para a sobrevivência das colmeias mas a esta adicionou-se uma doença misteriosa baptizada Colony Collapse Disorder, que tem devastado as abelhas nos Estados Unidos desde pelo menos 2006. Em 2007, alguns apicultores perderam 90% das colmeias embora a média nacional tivesse sido de 31%. Entre Setembro de 2007 e Março de 2008, desapareceram 36% das abelhas. Actualmente, o número de colmeias é metade das existentes há 70 anos.

O desaparecimento das abelhas tem sido alvo de investigação intensiva por parte da comunidade científica. Em Setembro de 2007, a revista Science publicou um artigo de um consórcio de cientistas norte-americanos, com a entomóloga Diana Cox-Foster como primeira autora, que apontou como principal suspeito o IAPV (Israeli acute paralysis virus), um virus descoberto em Israel em 2004. Os pesquisadores recorreram à sequenciação genética dos microrganismos encontrados nos intestinos de abelhas recolhidas em colmeias afectadas e colmeias «sãs» durante um período de três anos. O IAPV foi o único microrganismo presente em quase todas as amostras extraídas de colmeias afectadas.

 

Jeffery Pettis, entomólogo do ministério americano da Agricultura e outro dos autores do estudo na Science, explicou na altura que «esta pesquisa revela uma boa pista, mas é pouco provável que o IAPV seja a única causa». Uma das indicações de que outros factores estariam em jogo provém das abelhas importadas da Austrália desde 2004 que embora infectadas pelo IAPV não desenvolviam o CCD. O facto de as abelhas australianas não serem infectadas pelo ácaro Varroa parece indicar que os pesticidas utilizados para controlar a varroose podem ter um efeito sinérgico não despiciendo na CCD. Esse possível efeito sinérgico é corroborado pela investigação que se seguiu e que consistiu na introdução do IAPV em colónias saudáveis. Ao fim de um mês, as colónias infectadas tinham declinado acentuadamente e muitas tinham perdido as rainhas. A equipa de Diana Cox-Foster indicou que estes resultados não apontam inequivocamente para o IAPV como único culpado já que detectaram dezenas de pesticidas, muitos deles tóxicos para as abelhas, na análise do polén, cera, abelhas adultas e larvas das colónias afectadas.

 

Mais recentemente, um consórcio entre grupos de várias universidades e os militares, que desenvolveram uma técnica para identificarem agentes em possíveis guerras biológicas, sugere que a a causa é dúplice: uma combinação de um vírus e de um fungo que os cientistas encontraram em todas as colónias afectadas que estudaram. De acordo com o artigo publicado há dias na PlosOne, que tem sido louvado como fornecendo a melhor explicação até à data para resolver o mistério da morte das abelhas, é necessário que a colónia seja infectada com os dois agentes para colapsar. Para chegarem a esta conclusão infectaram colónias com o vírus, com o fungo e com ambos. Concluiram que as abelhas infectadas com ambos morrem mais depressa, algo que não me surpreende muito. Na realidade, não tenho a certeza que este artigo, tal como o artigo da Science de 2007, tenha dito a palavra final sobre o CCD. Mas tenho a certeza de que é necessário trazer este e outros problemas para a ribalta.

A Xerces Society disponibiliza uma lista de insectos polinizadores em risco de extinção apenas nos Estados Unidos. Como referem, «Para muitos animais, incluindo a maioria dos pássaros e mamíferos, existe e é acessível a informação básica que permite a identificação de espécies que precisam de conservação. No entanto, para os insectos que fornecem o serviço vital de polinização essa informação está muitas vezes escondida em ficheiros científicos ou não existe de todo».

Esta falta de informação não se restringe aos insectos polinizadores, na realidade não há grande informação sobre invertebrados em risco, apesar de os invertebrados corresponderem a cerca de 94% das espécies animais que partilham connosco o planeta.

 

De facto, tal como em relação aos batráquios, pouco ou nada se fala na extinção e declínio de invertebrados ou quando se fala é apenas para referir a necessidade da erradicação de espécies nocivas ao homem. Mas a sua abundância reflecte o enorme impacto ecológico destes organismos francamente pouco atraentes e «vendáveis» para o grande público. Como refere a Xerces, é necessário educar a opinião pública para o valor extraordinário dos invertebrados embora seja pouco provável que se desenvolvam afinidades por uma minhoca semelhantes às que o lince ibérico ou o panda, por exemplo, despertam. Urge no entanto que todos percebam que os problemas de conservação da vida animal não se restringem a baleias, pandas ou linces.

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