Domingo, 17 de Outubro de 2010
Ana Matos Pires

De acordo com o último Eurobarómetro sobre Saúde Mental os portugueses são os maiores consumidores de antidepressivos (AD’s) da União Europeia - um em cada sete (14,2%) dos portugueses da amostra tomou-os nos 12 meses prévios. Conclusão tirada pela ministra da Saúde: os médicos portugueses não fazem uma prescrição racional destas substâncias e, pior ainda, andam para aí a prescrever medicamentos caros que não são primeira linha na terapêutica das doenças depressivas (e ansiosas).

 

Que a generalidade dos antidepressivos - e mais ainda dos antipsicóticos - são muito dispendiosos estamos de acordo, já que as moléculas mais "recentes" (julgo que era a elas que Ana Jorge se referia quando falou em "última geração") não sejam para uso de primeira linha está errado e é falso.

 

Há erros de prescrição? Há, com toda a certeza, daí até serem a norma vai uma distância. enorme. Os erros de prescrição contribuem para o desperdício? Sim, mas apontá-los como prática corrente e como responsáveis maiores desse desperdício financeiro é grave, leviano e desonesto.

 

Talvez quem tutela a Saúde se tenha esquecido que o primeiro inquérito epidemiológico nacional, integrado num estudo multinacional, concluiu, há poucos meses atrás, que Portugal é o país da Europa com maior prevalência de doenças mentais, nomeadamente depressivas e ansiosas - se a memória não me falha 23% dos inquiridos sofreram de uma dessas patologias nos 12 meses anteriores.

 

Como escreveu um destes dias um médico interno de psiquiatria, "as declarações da ministra demonstram que (1) não é minimamente conhecedora das guidelines de tratamento da maioria das doenças mentais; (2) ignora que os portugueses apresentam prevalências de doenças mentais significativamente elevadas no contexto europeu; (3) quer reduzir a factura do SNS à custa dos psicofármacos mas em vez de assumir esse ónus pretende imputar aos médicos o facto de estes estarem a prescrever mal quando se limitam a evidência científica e aos consensos internacionais.".

 

Vale a pena explicar que "novos antidepressivos" é um epíteto com mais de duas décadas, altura em que 'nasceu' uma nova classe de AD’s, os inibidores selectivos da recaptação da serotonina. Este novo grupo veio acrescentar aos ‘dinossáurios’ AD’s tricíclicos, mais que uma maior e mais rápida eficácia terapêutica, uma maior comodidade na toma e um melhor perfil de efeitos secundários, com consequente aumento da adesão terapêutica em regime ambulatório, bem como um menor risco em caso de sobredosagem.

 

Caminho parecido foi seguido pelos "novos antipsicóticos", também conhecidos como "antipsicóticos atípicos", que vieram sobrepor-se aos neurolépticos e trazer evidentes ganhos na qualidade de vida e no funcionamento geral dos doentes psicóticos, nomeadamente dos esquizofrénicos.

 

Percebo a situação difícil em que o país se encontra mas não aceito que se arranjem bodes expiatórios nem que se deixe de ter atenção a situações limite que implicam com um grupo de cidadãos particularmente desprotegidos. A maioria dos doentes psicóticos dependem de terceiros e não têm capacidade reivindicativa. As estruturas secundárias de suporte são escassas, mesmo contando já com os anunciados 15 projectos piloto na área das residências protegidas e do apoio domiciliário a este tipo de doentes, e um controlo minimamente aceitável da situação clínica passa obrigatoriamente pelo cumprimento e manutenção da terapêutica instituída, já de si difícil pelas características da própria patologia. A precariedade económica e social de muitos destes doentes é uma realidade à qual não me parece justo nem digno fechar os olhos. A redefinição das percentagens de comparticipação dos medicamentos nos diferentes escalões e a revogação da portaria 1474/2004 vêm agravar esta situação.

 

Referi o que considero ser o grupo de doentes mais preocupante, digamos que o caso extremo no conjunto das doenças mentais. Julgo, contudo, que se poderão estar a correr riscos graves com outras entidades clínicas de evolução crónica, com repercussões prognósticas importantes e com implicações económicas que acabarão por determinar um aumento real dos custos, directos e indirectos, nomeadamente pelo incremento das necessidades de internamentos e da abstenção laboral.

 

Está muita coisa em causa, de facto não vale tudo senhora ministra.

 

(Publicado hoje no Público)

13 comentários:
De Sofia Loureiro dos Santos a 17 de Outubro de 2010 às 14:31
De acordo.


De Fernando Cardoso a 17 de Outubro de 2010 às 15:18
Não ponho em causa a correcção técnica da sua análise ainda que mostre um leve toque de corporativismo. O que me preocupa e gostaria de ouvir opiniões sobre isso é o facto de que quase 15% dos portugueses dependam de antidepressivos. Obrigado.


De Ana Matos Pires a 17 de Outubro de 2010 às 17:35
Onde vê o corporativismo?
Não são 15% que 'dependem', atenção. Qto ao resto as causas são múltipla mas a discussão é importante, de facto.


De Isabel Moreira a 18 de Outubro de 2010 às 00:07
boa, aninhas!!!!


De Damião Fernandes a 17 de Outubro de 2010 às 16:33
O problema não é só o combate ao desperdício, o problema é a falta de fundos para manter o nível actual de comparticipação dos vários medicamentos (psicofármacos ou não).
Por outro lado, não me pareceu que a ministra tenha dito que as moléculas de ultima geração não devam ser usadas como primeira linha, o que elas não podem é ser usadas como primeira linha em todos os casos.
Quanto aos 14,2 % de Portugueses que fizeram ADs nos ultimos 12 meses o número parece-me, de facto, excessivo. Por exemplo, nos EUA cerca de 10% da população tem sintomatologia depressiva mas só cerca de 3% tem critérios de Depressão Major, sendo a maioria da guidelines respeitantes a essa situação (isto a propósito do interno e das guidelines).
Era preciso saber que ADs foram prescritos e quais os critérios usados para o início da terapêutica nesses 14,2%, só assim se podem tirar conclusões: as da ministra ou as suas Ana Matos Pires.
Uma hipótese que certamente poupava dinheiro sem muitas das consequências dramáticas para os doentes que (e bem) a Ana refere, seria limitar a prescrição de alguns ADs aos especialistas à semelhança do que ocorre com outros fármacos (noutras especialidades) mantendo o nível actual de comparticipação, embora perceba que esta opção levanta um novo conjunto de problemas.
Concluindo, se continuarmos a prescrever venlafaxina a pessoas que estão tristes porque lhes morreu o gato, inibidores da bomba de protões a toda a gente que tem azia, antibióticos a todas as constipações não há comparticipação estatal (feita com dinheiro emprestado) que resista e os médicos vão ser cada vez mais condicionados na sua prática com consequências imprevisíveis para a saúde de todos.  



 


De Ana Matos Pires a 17 de Outubro de 2010 às 17:41
Não posso estar mais de acordo com a sua conclusão. Qto às guidelines discordo, elas não existem só para a depressão major, estou a lembrar-me do pânico e da ocd mas também de outros quadros depressivos em - o diagnóstico de pert. distímica não exclui a farmacoterapia (do mm modo q não implica obrigatoriamente) e existem consensos.


Ps: note que a tristeza pós morte do gato não é uma depressão, qto mto é uma reacção depressiva e deve ser entendida como tal.


De Damião Fernandes a 17 de Outubro de 2010 às 17:58
Claro que não é uma depressão! Nem tem indicação para ADs. O problema é exactamente esse.


De Ana Matos Pires a 17 de Outubro de 2010 às 18:10
Claro que é, também mas 'não só' e 'não sobretudo'.



Ps: Então não sabe que eu sei que você sabe que não é uma depressão?:)


De Damião Fernandes a 17 de Outubro de 2010 às 18:57
:-) claro que sei que você sabe que eu sei que aquilo não é uma depressão!
E agora até fiquei com o humor menos depressivo...sem fármacos e tudo!


De Ana Matos Pires a 17 de Outubro de 2010 às 21:00
Que menos depressivo., eutímico


De Damião Fernandes a 17 de Outubro de 2010 às 21:11
Close...but no cigar!


De Luís Oliveira a 17 de Outubro de 2010 às 17:20
Também me parece que há aqui alguma ligeireza da ministra ...


De Noughtone a 17 de Outubro de 2010 às 20:42
hipotéticamente vamos imaginar a situação em que o dinheiro acabou e tem de se cortar 10% com os gastos em doentes da especialidade neuro/psiquiátrica, onde se fariam tais cortes?
Isto é porque não há dinheiro, não é porque existem erro ou engano.


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