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cor de pele

De cada vez que nos cortamos e vamos buscar um adesivo, o mais certo é que seja uma coisa em forma de tira, com uma cor algures entre o bege rosado e o mel. A ideia é passar despercebida quando colocada, o que, é claro, nunca acontece (a não ser que toda a gente fosse muito muito míope). Ninguém é daquela cor, motivo pelo qual faria muito mais sentido que os pensos e adesivos fossem comercializados em tons contrastantes, como se de acessórios se tratasse – preto, por exemplo, dava um jeitão – assumindo a intervenção e glamourizando a tragédia. Sucede que durante décadas (desde que aquilo foi inventado, supostamente em 1920, com o nome band-aid e por um empregado da Johnson & Johnson -- para a sacrificada esposa que passava a vida a arranjar aleijões na lida da casa) tais utilidades existiram apenas nos tons de bege com que os conhecemos, excepção feita aos enfeitados com bonecada da Disney, criados a partir do final dos anos 50 e com as crianças como óbvio alvo.

 

Ora os beges, rosados ou amarelados, dos pensos além de feiosos e tristonhos têm uma outra particularidade: a de uma resoluta recusa da diversidade do mundo. Chamar-lhes cor-de-pele é esquecer que há no mundo muitas mais peles que as habitualmente denominadas por “branca” e que muitas são as paragens e os países em que aquilo que se vende nas farmácias como “penso cor-de-pele” funciona, na melhor das hipóteses, como uma  anedota – e sim, em todos os sítios do mundo onde a cor dominante da pele é tudo menos bege os pensos vendem-se, como em qualquer esquina da Europa, beges. Sim, é possível termos chegado ao século XXI, uns bons séculos depois daquilo a que os europeus deram o nome de “descobrimentos” e até umas boas décadas após o proclamado fim do colonialismo, sem descobrir esta evidência: a cor-de-pele, enquanto referência imediatamente identificável, não existe. Aquilo que se vende como tal em forma de penso é cor-de-pele-de-branco (quando foge).

 

Parece que, finalmente, esta persistente estultícia exasperou alguém a ponto de fazer alguma coisa para a contrariar: no final de Setembro, o jornal britânico The Guardian noticiou o lançamento de uma marca de pensos com vários tons de castanho – a condizer, ou pelo menos tentar, com a pele de pessoas de origem indiana e africana. É um avanço – tão tardio que apetece chamar-lhe atrasado, mas pronto. Sucede que há ainda muita pedra para partir, e não é sequer do panorama mais largo e fundo do eurocentrismo e do racismo que falo, mas dessa ideia da cor-de-pele como cor universal. Há várias estações (entendidas como Outono/Inverno e Primavera/Verão, as do tempo da moda) que uma das tendências mais insistentes tem sido a dos “nus” (não, não estou a falar de modelos despidas) e do “tom de pele” como cores “novas”. Sapatos, acessórios vários e vestuário em rosas pálidos, salmões claríssimos e beges rosados têm assaltado as passerelles e as revistas da especialidade – e as lojas, claro está. A ideia é, é claro, o tom sobre tom, transformando a silhueta num nu vestido. Num universo onde, se a maioria dos criadores e dos grandes negociantes são “brancos”, muitos modelos (ainda não tantos como faria sentido, mas enfim) não são e cada vez mais compradores – ou compradoras, no caso – nada que se pareça, parece quase patológico, ou mesmo suicidário, o desenho de uma tendência com um tão disparatado nome.

 

Se a maioria dos estereótipos admite alguma racionalidade e muitas vezes é, infelizmente, e não apenas pelo seu papel reprodutor de realidade, coincidente com os factos maioritários, poucas coisas como a ideia peregrina de uma cor chamada “de pele” para demonstrar como as visões decretadas do mundo podem ser obtusas  – e mesmo assim tão inamovíveis.

 

(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 17 de outubro)

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