Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010

Vitor Cardoso e Luís Oliveira e Silva, do Departamento de Física do IST, foram reconhecidos pelo European Research Council como cientistas excepcionais. Ao primeiro foi atribuída uma ERC Starting Grant no valor de cerca de um milhão de euros e ao Luís foi concedida uma distinção normalmente referida como o Nobel europeu: uma ERC Advanced Grant, no valor de 1.6 milhões de euros. Estas bolsas reconhecem explicitamente o trabalho de excepção realizado por ambos os docentes do IST mas reconhecem implicitamente que Portugal, após alguns anos de investimento em I&D, começa a afirmar-se internacionalmente pela qualidade dos seus investigadores (e docentes universitários).

 

Esta qualidade reflecte-se nos profissionais que formamos, muito requisitados lá fora mas com a bizarra pouca saída nacional que comentei há pouco mais de um ano. Hoje, como nessa altura, e em particular quando o país soçobra ao pessimismo e desânimo colectivos, importa recordar o que, em minha opinião, é o nosso passaporte para o futuro: os profissionais de excepção que andamos a formar há já uns anos.

 

Continuamos a assistir ao «êxodo de 'cérebros' que volta e meia é tema  na comunicação social» mas hoje mais que então isso «merece mais abanões  pessimistas de cabeças por parte de alguns fazedores de opinião mais à direita no espectro político, que apontam esta fuga como a prova provadinha de que é um desperdício do dinheiro dos contribuintes - que tira pão da boca dos pobrezinhos - apostar em qualificação avançada. E a reforma que urge para o nosso tecido produtivo tarda em efectivar-se».


Mas se é certa essa «fuga de cérebros» é igualmente certo que muitos destes cérebros regressam a Portugal depois de as suas qualidades excepcionais serem reconhecidas no exterior. Aliás, o que nesta altura de crise nos deveria interrogar é a razão porque estes profissionais não conseguem inserir-se de imediato no mercado de trabalho nacional ou porque razão é por vezes tão difícil a penetração em Portugal de empresas nacionais inovadoras, fundadas por «cérebros» que não fogem. Assim de repente recordo a SisCog, uma empresa criada por dois colegas do Departamento de Informática do Técnico, que desenvolveu software para o London Underground que permite poupar 90% em horas extraordinárias dos maquinistas e que ainda não conseguiu convencer o Metro nacional. Mas há mais exemplos só entre a comunidade de spin offs do Técnico.

 

Por outro lado, recordando a campanha de promoção de Portugal lançada pelo anterior ministro da Economia e sabendo que Portugal é neste momento um dos países europeus que, em percentagem, mais forma profissionais altamente qualificados em áreas científicas ou tecnológicas, não percebo porque razão não se promove o país por estes talentos em vez de por «talentos» futebolísticos e afins. Em particular porque há já alguns anos que muitas multinacionais abrem centros de excelência e de investigação em Portugal que por vezes servem de centros de recrutamento de mão de obra altamente qualificada para os países de origem dessas multinacionais (e, por exemplo, na Alemanha a falta de engenheiros é crónica há já alguns anos...).

 

Numa altura em que o país está refém das discussões sobre o Orçamento, importa vincar o que escrevi em Agosto de 2009, é necessário «continuar as políticas de qualificação da mão de obra, investimento em ciência e em inovação (...) Mas importa sobretudo que essa reforma permeie mentalidades e que deixemos de uma vez por todas, como sociedade, como Portugal que somos todos nós, de objecções à Velho do Restelo, de queixumes 'No, we can't'. Porque sem fazer nada de facto não vamos lá!»


tags:
5 comentários:
De António Parente a 29 de Outubro de 2010 às 13:43
Muito bem. Apoiado.


De Zé do Telhado a 29 de Outubro de 2010 às 14:53
Convém referir que Portugal, devido ao esforço das últimas duas décadas nas universidades, conseguiu superar os países do sul da europa no que repeita a I&D. Portugal é um país de cerebros, mas que não têm espaço para desenvolver suas competências e potencialidades. Já digo isto desde os anos 90 do século passado. Mas a "quinta" tem dificuldades em aceitar isto.


De josé cid a 29 de Outubro de 2010 às 17:39
qual é a parte que cabe à Igreja Católica?O pessimismo?


De Palmira F. Silva a 29 de Outubro de 2010 às 18:44
sigh...


De Filipe Moura a 30 de Outubro de 2010 às 04:49
O Vítor e o Luís são dois ex-alunos da LEFT. Parabéns à LEFT pelos seus 25 anos. Viva a LEFT! (Sem trajes académicos.)


Comentar post

Autores
Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Diogo Serras
Domingos Farinho
Fátima Rolo Duarte
Fernanda Câncio / f.
Filipe Nunes
Gonçalo Pires
Hugo Mendes
Inês de Medeiros
Inês Meneses
Irene Pimentel
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão
Mariana Vieira da Silva
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Shyznogud
Tiago Julião Neves

Arquivo

Isabel Moreira

Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon

correio | twitter | facebook

Fevereiro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9


24
25

26
27
28
29


artigos recentes

Pelo simbolismo

Talvez as minhas preferid...

"Can we really make a dif...

Já experimentou esta técn...

Saúde nos media

o cinema do tempo

Porque a Grécia hoje não ...

Outras maneiras de ver, à...

Violência objetiva

Público contra Público

Poderei estar a ser injus...

Regeneração contínua

Já saiu

"Preveni-a contra si, car...

Uma "honra" o tanas, Sr. ...

últimos comentários
não será antes Hé Hé?
Há uns tempos atrás um amigo meu afiançava que a ...
A morte de dois jornalistas, como outras mortes, é...
Ó Xico você está a defender as Igrejas "estultamen...
Eh, eh, Shyz , o Texas tem o Rick Perry , Portugal...
Máquina de propaganda - cartoon!Tem versão portugu...
De facto errei completamente o alvo, mesmo mais do...
Está a esquecer-se de que continuamos a ter de imp...
a seguir vai-nos confessar que leu todos os livros...
Sim, não deixa de ser uma resposta trágica a uma P...
arquivo
tags

todas as tags

outros lugares
Subscrever feeds