Esta madrugada Christopher Hitchens, contra, e Tony Blair, a favor, debateram a moção «Be it resolved religion is a force for good in the world» no Canadian Munk Debates. Hitchens, sem surpresas, foi o grande vencedor da noite que acabou com 32% da audiência a favor da bondade da religião e 68% contra.
Infelizmente, adormeci e não consegui assistir ao debate ao vivo e este ainda não está no Youtube - apenas estão disponíveis as reflexões pré-debate de Hitchens de que escolhi o excerto que se segue para responder a algumas efabulações que se desenvolvem no post da agradável surpresa. E digo infelizmente porque uma pesquisa rápida na net e no twitter permitiu-me perceber que este foi um debate muito, mas mesmo muito, bom.
Enquanto o Youtube não disponibiliza o debate, transcrevo algumas das afirmações que, pelo índice de tweets, parecem ter sido muito marcantes e que constituem, todas elas, bons pontos de partida para futuros posts.
Tony Blair:
1- "For me, faith's not about certainty... it's an awareness of my own ignorance."
2- "I cannot deny for a moment that religion can be a force for evil... but it is a perversion”
3- "It's important for people of faith to have Hitchens to challenge us to be...better at being people of faith."
Hitch
1- "Religions may do good, but they do so in order to proselytize."
2- "We don't require divine permission to know right from wrong."
3- "The cure for poverty is the empowerment of women."
Só é pena o Blair não ter tido consciência da sua profunda ignorância antes, quando invadiu o Iraque, quando apoiou os radicais islâmicos do Londonistão, etc..
Mas uma coisa certa disse, que são precisas e que são muito importantes pessoas como o Hitchens, o mundo seria muito pior sem ateus a refrear os ímpetos totalitários e violentos das religiões
Cara Palmira Tenho-a em conta de pessoa de grande cultura e inteligência. É evidente que não é difícil ganhar a Blair. Até eu, um crente, podia votar em Hitchens por melhor argumentação num debate. A boa argumentação contra a má, em geral ganhadora, não significando que tem razão. É assim a retórica. Porque se formos a votos com a população inteira mundial, ganhará o argumento que a Terra está parada e o Sol se move em seu torno. Porque esse é um argumento visível e entendível pela maioria das pessoas. Levar a razão destas coisas à conta de votos, parece-me uma tremenda ignorância indigna de si. O argumento nº 1 de Hitchens parece-me incorrecto. Onde está religiões devia estar igrejas. O 2º pode ser uma evidência que sustenta até a própria crença. O 3º é machista no sentido que as mulheres são primeiro mães antes de tudo o resto. Os argumentos de Blair, são sinceros e provém de um impressão pessoal e do senso comum. Independentemente de se ser ateu ou crente, a pergunta que se põe é se o mundo poderia ter passado sem a experiência religiosa e se essa não é intrinseca ao ser humano no início das suas interrogações.
Não percebo as suas objecções. Recordo o que escrevi: «Hitchens, sem surpresas, foi o grande vencedor da noite que acabou com 32% da audiência a favor da bondade da religião e 68% contra.»
Não há aqui nenhum argumentum ad populum, há uma constatação dos factos. Que o Xico leia mais nesses factos do que está escrito é um problema seu que devia ter explicado à partida.
Agora sobre a sua argumentação das 3 declatações de Hitchens (noto, sem supresas, que não se refere a Blair) algumas notas:
1- No contexto, parecem-me indistinguíveis, isto é, a sua objecção é só poeira para o resto da afirmação:
2- Sigh, remeto-o, para já, para este post e respectivos comentários. Depois, lamento informá-lo que o que Hitch disse é que não são precisos deuses nem fadas para distinguirmos o certo do errado.
dizer que deus ser desnecessário sustenta a crença em deus é algo absolutamente disparatado.
3- esta nem merece comentários de tão imbecil porque me parece que seria inútil explicar o que Hitch disse a alguém para quem as mulheres são meras parideiras, sigh
Dado o tópico em debate, parece-me que escolher para o debater Blair e Hitchens seria o mesmo que por um militante de um qualquer PC e von Hayek a discutirem o comunismo. O militante falaria certamente com sinceridade da sua experiência pessoal e das suas crenças, mas duvido que a respectiva argumentação resistisse a Hayek.
o politico em defesa do seu aliado...a super falácia de que religião e política não se misturam, é olhar para a história e nela está evidente a simbiose entre política, religião e violência : os ‘santos inquisidores’, o massacre da noite de São Bartolomeu, a guerra civil espanhola, e não foi a religião que legitimou barbaridades como a escravidão dos negros e a submissão secular da mulher?...uns em nome de Deus outros na defesa do Estado em comum a violência
Não percebo onde está a suposta contradição entre Blair e Hitchens, pelo menos, nos tópicos que cada um defendeu e que a Palmira destacou. Eu como crente, não teria qualquer problema em subscrever todos eles em simultâneo. Mais. Se me perguntarem se a religião é, neste momento e nas últimas decadas, motivo de pacificação ou de conflito. Direi, pensando nas várias religiões, que é de conflito. Aliás, basta lembrar que há uns anos atrás, quando o Papa JP II propôs um dia de paz mundial, dos poucos que fizeram gazeta a esse dia, foram os "católicos" do IRA. Também sobre esta temática, ver também a interessante discussão, de há uns 3 anos atrás, entre o gay católico Andrew Sullivan e Sam Harris no Belief.net http://www.beliefnet.com/Faiths/Secular-Philosophies/Is-Religion-Built-Upon-Lies.aspx
Eu não disse que havia contradição nenhuma nas afirmações que transcrevi, disse apenas que «constituem, todas elas, bons pontos de partida para futuros posts».
A audiência era esmagadoramente a favor de Hitchens antes do início do debate (57% contra 22% a favor de Blair). No fim a margem quase não se alterou. Blair subiu 10% e Hitchens 11%.
Sobre os pontos de partida para debate:
Blair: 1 - A consciência da própria ignorância tanto pode estar na base da fé como da ausência de fé. 2 - Sabe que o mal que as religiões fazem é uma perversão da própria religião. Não poderia estar mais de acordo. 3 - Na mouche. A fé não faz qualquer sentido para quem a tem a menos que seja constantemente desafiada.
Hitchens: 1 - Um argumento que pode ser feito acerca de tudo e de mais alguma coisa (comunismo, capitalismo, socialismo, ateísmo, etc.) 2 - Este é de uma banalidade que nem vale a pena comentar. 3 - Na mouche.
Bem, considerando que à partida 75% da audiência se declarou disposta a mudar a opinião consoante o debate diria que Hitch ganhou mesmo :)
Sobre o ponto 2 de Blair, a questão não é ele ter reconhecido o óbvio é ele ter insistido ao longo do debate que, em devíamos esquecer todo o muito mal feito em nome da religião e que apenas as coisas boas são a “true face of faith”. Ou seja, para Blair basta que umazinha pessoa religiosa faça o bem para que todo o mal feito em nome da religião seja irrelevante...
«I do not think I do a disservice to the former Prime Minister when I say that his argument as it developed throughout the debate never really reached the dizzying heights that this opening salvo seemed to promise. Indeed, to Christopher’s numerous and incisively posed objections – that the best way to eradicate poverty was to oppose the religious warrant for the subjection of women; that secular charities do the work for its own sake and not as a way of proselytizing; that to be a force for good religion would have to give up its supernatural claims – Blair did not have much to offer other than to say that prejudice and persecution are not only particular to religion and that, since “we cannot drive faith out of the world” we must “see how we can make it a force for good.”