Quem investiga por que é tão baixa a produtividade em Portugal acaba mais tarde ou mais cedo por tropeçar no tema da dispersão da nossa população.
Um dos principais obstáculos à resolução destes problemas é a persistente ideologia ruralista que, invocando o bucolismo de qualquer aldeia miserável perdida no alto de um monte, combate a concentração urbana e exige que o Estado vá levar à porta de qualquer eremita tudo aquilo que ele entenda exigir.
Segundo depreendo, o grande argumento para continuar a haver essa ligação ferroviária é que dantes havia, mas eu tenho alguma dificuldade em me deixar impressionar pela força de tais razões.
Como seria de esperar, o José M. Castro Caldas considera desprezível a pequena dificuldade da, como ele escreve, "falta de verba". Ele vive na Lousã, dava-lhe jeito a automotora, que mais haverá a dizer? A verba tem que vir de algum sítio - provavelmente, do tal "imposto sobre as grandes fortunas" que duma vez por todas resolveria os problemas do país.
No mundo real, a "falta de verba" é uma dificuldade recorrente, de modo que é preciso fazer escolhas: ou ela vai para uma coisa, ou vai para outra. "Metros" na Lousã e em Mirandela não passarão certamente num teste de mérito comparativo face a outras alternativas mais prementes e racionais.
De Tiago a 17 de Janeiro de 2011 às 14:35
A dispersão e a baixa densidade da nossa população está mais relacionada com as regulações urbanas, tal como o pdm que propriamente outra coisa. O zoneamento, o limite de altura dos edifícios, entre muitos outros factores, provocam a baixa densidade e uma dispersão das cidades nada saudáveis e muito pouco funcionais.
Enquanto noutros países existe uma distinção mais ou menos clara entre rural e urbano, em Portugal isso não é verdade. O problema da ruralidade do país, não é pelas ideias bucólicas, mas pelas ideias erradas de cidade. é só reparar na aversão (mediática) à ideia da verticalização das cidades, quase como sinónimo de desumanização.
As pessoas não gostam que a cidade seja cidade e continuam a apostar no planeamento e na regulação da cidade, controlando o seu crescimento e que já provou há muitos anos não resultar.
Os pdms são para mim o principal factor dessa ruralização que fala neste post, e o exemplo do comboio não é de grande relevância.
De Zé Carioca a 17 de Janeiro de 2011 às 19:24
É tão raro, tão raro, tão raríssimo eu concordar com o que opina JPeC que admito estar errado quando verifico que a minha opinião e a de tão ilustre bloguista convergem.
Foi o caso agora.
De Honesto Intelectual a 17 de Janeiro de 2011 às 20:50
O quê? Também confunde fanatismo rural com transportes suburbanos próximos da terceira ou quarta cidade do país? Acha mesmo que se dessem um Mercedes a cada habitante da Região Centro eles custariam ao país o que custa cada lisboeta? Começo a ter certezas quanto às razões da falência do país!
Coimbra não é a terceira nem a quarta cidade do país.
Já desde há mais de um século que o Funchal e que Braga têm mais habitantes que Coimbra. Já assim era, de facto, nos últimos anos da Monarquia.
De Miguel a 19 de Janeiro de 2011 às 00:35
Coimbra até está mais próxima de ser a 30ª do que a 3ª...
De Pedro a 19 de Janeiro de 2011 às 11:39
O critério é esse? Então, a cidade de Agualva-Cacém é que já será a terceira cidade mais importante do País ;)
De jaime a 18 de Janeiro de 2011 às 18:13
Muitos rurais não desejam nenhuma das mordomias que existem nas cidades. Apenas querem que não os privem do direito a viver onde se sentem bem.
De nuvens de fumo a 17 de Janeiro de 2011 às 15:10
O que é mesmo estranho é eu ter de trabalhar em lisboa porque na província do porto não há grande trabalho, isso é que é estranho.
mais estranho ainda é : que raio fazem as pessoas que trabalham em locais ainda mais remotos ? de que vivem ?
que tipod e industria existe ? e serviços ?
mistérios insondáveis
De Nuno Gaspar a 17 de Janeiro de 2011 às 15:42
Nada disso. O que é mais estranho é saber como sobrevive um país populoso e sem petróleo com uma grande parte dos seus campos abandonados.
De Honesto Intelectual a 17 de Janeiro de 2011 às 22:24
Pois, caro nuvem. Há profissões que, infelizmente, não dá (ou dificilmente dá) para exercer fora de Lisboa.
A do meu filho é um dos casos. Por isso trabalha por aí. Se tudo correr bem, um dia será lisboeta. Se correr mal, será outra coisa qualquer. Só espero que ele seja sempre capaz de fazer contas e, não sendo economista, inclua as tais externalidades de que eles falavam quando pensavam que nós não sabiamos o que queria dizer!
De nuvens de fumo a 18 de Janeiro de 2011 às 09:39
mas essa necessidade de se estar em lisboa é uma anomalia que só se explica de uma forma: quase toda a venda de serviços é feita a quem ? AO ESTADO
as grandes empresas de serviços vivem de uma maneira ou de outra agarradas às tetas da grande mãe estado ( para evitar a figura paternal muito usada ) ou às tetas mais pequenas das empresas que derivaram de empresas do estado : PT, EDP, ZON, CGD, os institutos de uma maneira geral, etc
o resto é de facto paisagem o que diz muito da vivacidade do nosso empresário, diz muito da possibildiade de se cortarem despezas sem destruir toda a economia e diz muito sobre o abismo para onde poderemos caminhar se esta porcaria toda não for altereada
no limite um país com 10M de habitantes não pode ter apenas uma grande cidade com negócios e tudo o resto ser desemprego.
vamos mal se assim se mantiver
De G_L a 18 de Janeiro de 2011 às 00:38
"de que vivem ? que tipo de industria existe ? e serviços ?
mistérios insondáveis"
...do Estado?
De Honesto Intelectual a 18 de Janeiro de 2011 às 12:49
Meu caro, penso que conheço bem Lisboa (e gosto, obviamente). Há-de dizer-me onde estão as fábricas na cidade (ou no concelho) que produzem os bens que consome porque eu nunca as vi por aí!
A conclusão é simples: a culpa de haver tanta gente a viver em jota pimentas é dos gajos que moram a mais de quarenta quilómetros do mar. Qualquer dia esses é que são os culpados do desordenamento do território.
De fernando f a 17 de Janeiro de 2011 às 15:24
Para deitar por terra, 'terra que ironia' o post de JM Castro Caldas, não era preciso tanta lengalenga, bastava que "decretasse": para darmos lucro, 'lucro, mais uma ironia' três milhões vivem no Porto, sete em Lisboa. Sete, para para ficarmos com uma almofada de 4 milhões, p'ró que desse e viesse. Qual desertificação, qual desenvolvimento sustentado, qual carapuça!? Transporte invdividual, Já!
De Pedro M. a 19 de Janeiro de 2011 às 12:36
Tem que rever a sua geografia:
http://www.flickr.com/photos/30347394@N02/5097179562/in/set-72157625198529914/
De helder a 17 de Janeiro de 2011 às 15:32
Ou seja: havia serviço de comboio. O governo não se lembrou desses argumentos espantásticos que acabas de desfolhar. Prometeu á população um comboio novo e mais maneirinho. Gastou dinheiro de todos nós a desfazer o que havia e iniciar o novo.
Agora nem novo nem velho, amanhem-se.
Estamos a falar da demissão do ministro das obras publicas, é isso?
De p D s a 17 de Janeiro de 2011 às 15:49
João,
o seu post peca por um pequenissimo erro de abordagem inicial. Pode até ter muita razão nas varias analises e permissas que defende, mas parece-me que esqueceu um pequenisso detalhe que passarei a eslarecer:
- Não creio ter sido alguma vez levantada a questão de ser justificável ou não a ferrovia em causa. O que aconteceu foi que, estando a mesma mais que justificada, conclui-se que deveria ser “requalificada”. Posto isto, estudou-se, desenhou-se, viabilizou-se, aprovou-se e iniciou-se um projecto de requalificação da mesma.
Uma das primeiras fase do projecto consistia em remover o material da linha antiga para substituir por equipamento “requalificado”.
O que acontece é que tendo sido já removido o equipamento, e dispendidos os respectivos euritos, foi decidido abortar o tal projecto de “requalificação”.
Conclusão: neste momento, nem a linha antiga (sobre a qual não existiriam duvidas de necessidade!)... nem linha nova (pois dizem que não há dinheiro).... nem os euritos ou carris antigos que lá estavam (pois foi tudo arrancado a ferros, sabe Deus em favor de quem!).
Espero que agora já possa opinar de forma mais coerente com a realidade dos factos.
De pêga a 17 de Janeiro de 2011 às 15:55
1º O problema da produtividade pode ser resolvido com uma população menos dispersa.
2º A população dispersa é constituída por excêntricos ERMITAS que exigem coisas bizarras e incomportáveis ao estado.
3º A verdadeira vida, a vida a ser vivida, é a vida urbana.
(quarto, entre parentesis, que transportes, a título de curiosidade pensável, servem aquela região em que condições? ah, esquece, são excentricidades de bizarros rurais, densos e ignorantes, que se mudem pa lisboa_este texto tem particular má onda, não estou habituado a isto neste blog. Ad hominen ainda vá, mas isto é contra todo um modo de vida)
De xico a 17 de Janeiro de 2011 às 16:18
Sendo o ramal da Lousã do início do século XX, a população servida aumentou cerca de 1,5.
É uma população ao nível das cidades rurais inglesas. Tem mais população que Windsor e Eton juntas, cidade que tem duas estações ferroviárias, autocarros e auto-estrada.
Se no início do funcionamento do ramal a população era rural, actualmente a população servida trabalha e estuda quase toda em Coimbra. A estrada para a Lousã é um perigo.
Oxford parece muitíssimo mais rural do que Coimbra e os seus prédios não têm a altura nem de perto nem de longe dos de Coimbra, no entanto a sua população é maior o que indica que a cidade é mais extensa. Não há verticalidade nas cidades inglesas. Já estive em Coimbra com a área envolvente em chamas. É assustador. Experimentem deixar toda a quela envolvente ao abandono e vão ver o que custa em impostos.
A Lousã neste momento é claramente um satélite urbano de Coimbra. Faz todo o sentido em termos de planeamento urbanístico a ligação entre dois polos do que aumentar um em detrimento de outro.
Ó sô xico, faz todo o sentido é comparar Eton com a Lousã, Windsor com Coimbra e Oxford com, sei lá, as Caxinas, ou as Minas de S. Domingos! E, já agora, a Raínha ao Cavaco e... o Liverpool ao Sporting?
De xico a 17 de Janeiro de 2011 às 20:17
E um souto com a estufa fria?!
Subscrevo na íntegra este texto, seja no conteúdo ou na forma.
Obviamente que não esqueço duas outras realidadezinhas.
1.
O Portugal rural e analfabeto que Salazar idolatrava, deixou crescer e não consta que o incomodasse;
2.
A desertificação do interior do país - responsabilidade, já, das políticas pós revolução de Abril - associada ao novos fluxos de emigração e ao assalto às grandes zonas metropolitanas, sobretudo de Lisboa e Porto, geram gangrenas e incómodos políticos e sociais como este que o texto revela.
Gostei da prosa.
Caro Guilherme Pereira, a "desertificação" do Interior não é uma fatalidade, nem é incompatível com uma alteração do paradigma salazarista do Povoamento do País em Aldeias, Vilas e Cidades. É quanto a mim desejável o regresso das Populações do Interior, mas num novo modelo de Povoamento que tenha em conta a alteração tecnológica verificada na Agricultura, na Pecuária e, evidentemente, nos meios de Transporte e nas Comunicações. Resumindo: a população do Interior deve aumentar, mas concentrando-a nas Cidades e nas Vilas principais, que devem sim poder oferecer melhores condições de trabalho e de vida (em termos globais), e deixar as restantes Localidades seguirem o seu natural destino sócio-económico de locais de Turismo (Histórico, Artístico-paisagístico, balnear, cinegético, arqueológico, rural...), ou de Lazer. Mas esta opção tem custos para o País: é seguramente cara a curto prazo, mas talvez a médio e longo saia barata...
Caro Marcelo Alves:
Acato sem hesitação o seu ponto de vista.
Obrigado por me ter prorporcionado, ou despertado, para outra forma - inteligente - de ver o mesmo problema.
É um prazer conversar consigo. E repare que foi isso mesmo que aconteceu em Espanha, já para não irmos mais longe, que bem perto da nossa fronteira (mais "a Interior", portanto...), tem centros urbanos modernizados e com a mesma qualidade e desenvolvimento de Lisboa, ou do Porto - Mérida, Cáceres, Salamanca, etc....
Bom texto, plenamente de acordo. As questões dos Transportes e do Ordenamento do Território são aliás das mais emblemáticas daquilo que, em termos de Administração Pública, é grande demais para um Município (até para uma Associação deles...), mas demasiado insignificante para o Estado. Não admira que os disparates colossais se sucedam frenéticamente, não tanto em Coimbra ou Mirandela, mas sobretudo no Porto e ainda mais em Lisboa. Confiram-se as desditas das respectivas «Autoridades Metropolitanas de Transportes» (e se o ridículo matasse, muitos dos nossos Legisladores já teriam sido chorados...). Problemas que só terão solução decente um dia, quando se perceber por que razões os europeus mais desenvolvidos criaram as Regiões Metropolitanas nos seus Países. Quanto ao tipo de Povoamento são outros quinhentos, mas também concordo consigo: o ruralismo actualmente é um lixo e, como tal, deve ser pago por quem o pode suportar, que não o Zé Pagante das Cidades, que já paga o que deve e o que não deve por "solidariedade" com o "Interior". Chamasse-se o dito Irlanda, ou Grécia, e o Terreiro do Paço Brandeburgo (e o Sócrates Ângelinha) e muitos reclamariam por que carga de água o contribuinte "alamão" havia de estar a sustentar os "despesistas" da PIGlândia beirã, trasmontana, ou além-tejana...
Peço a maior das desculpas, por uma gralha demasiado grosseira: queria afirmar «o ruralismo actualmente é um luxo (...)», não um lixo, como é óbvio...
De Pedro a 17 de Janeiro de 2011 às 18:13
Os alemães, franceses e ingleses gastam fortunas do seu orçamento (e dos outros) para manter o seu modo de vida e paisagem rural (para que serve a PAC, por exemplo, que tanto interessa aos franceses?). É uma questão não só demográfica, como cultural. Mas nós não, havemos de ser todos urbanos, vivermos em grandes metrópoles urbanas, com uma cintura verde à volta, como reserva de oxigénio e espaço de lazer…
Mas o que tem isto a ver com a Lousã, não sei. A maior parte de vocês imagina a Lousã um local típico onde os lisboetas vão comprar queijo da serrra e casacos de lá de ovelha ;)
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