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A necessidade de viver para além das nossas possibilidades

O JCD e o Carlos Novais têm insistido na tese de que só podemos investir depois de poupar. Segundo esta lógica é a decisão deliberada de poupar que liberta recursos para o investimento. Ora bem, essa posição é falsa, porque esquece que a poupança agregada não é um stock, é um fluxo endógeno que depende do rendimento global de uma economia

 

O acto de poupar, por si só, reduz a procura efectiva via queda do consumo. Se não houver um aumento do investimento que compense este efeito negativo, o PIB cai e a poupança agregada, que depende do rendimento disponível, acaba também por cair. Esta ou aquela pessoa podem poupar, mas não podem poupar todas as pessoas ao mesmo tempo. A poupança, em si mesma, nunca pode ser um objectivo deliberado de uma política económica.

 

A tese tradicional é a de que o aumento da poupança leva a um aumento imediato do investimento via queda das taxas de juro. O problema é que isto assume que a taxa de juro é o preço que equilibra a poupança  e o investimento, esquecendo que o investimento depende sobretudo de expectativas de vendas e rentabilidade futura.

 

Mas se os fundos libertados pela poupança não forem integralmente canalizados para o investimento, então vão para onde? Não vão para lado nenhum, desaparecem do sistema. O capitalismo é uma daquelas ousadias modernas que não respeita a lei de Lavoisier.

 

Para o JCD e o Carlos a verdadeira poupança não pode desaparecer, pois esta representa necessariamente recursos reais que não estão a ser utilizados para consumo e, portanto, estão sempre disponíveis para investimento. Ironicamente, estes dois liberais não percebem que o seu pensamento está preso a uma visão pré-capitalista da economia de mercado.

 

O capitalismo não depende de qualquer realidade material presente, pois aquilo que lhe confere dinamismo e criatividade é exactamente a sua capacidade de se fundamentar no futuro, isto é, numa realidade que não existe a não ser por antecipação. Parece paradoxal, mas para poupar é preciso primeiro investir. Viver a crédito não é uma opção, é uma necessidade.

 

O investimento só está limitado pela capacidade do futuro gerar rendimentos suficientes para pagar os compromissos assumidos no passado. Dizer que é a poupança presente que determina o investimento constitui a negação da temporalidade que caracteriza o capitalismo. Num certo sentido, viver dentro das nossas possibilidade seria o fim do capitalismo.

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