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Andar nas nuvens

Os halos, solares e lunares, são um fenómeno óptico bastante vulgar que ocorre em determinadas condições atmosféricas, mais concretamente, a formação de halos deve-se à difracção (e reflexão) de luz nos minúsculos cristais de gelo existentes nas nuvens que dão pelo nome cirros-estratos.

 

Os cirros-estratos, nuvens que lembram um véu transparente, formam-se entre 5 e 11 km e portanto o fenómeno pode ocorrer em qualquer ponto do globo, dos pólos ao equador, como confirmaram há uns anos os gaúchos de Rio Grande do Sul.

 

Por vezes, em latitudes que permitem temperaturas suficientemente baixas, ocorre um fenómeno conhecido como «Pó de diamante», em que os halos são formados por difracção da luz em cristais de gelo formados próximo do solo, tão próximo que o fotógrafo pode «tocar» os raios de luz com as mãos.

 

(crédito: Alberto Frias/Expresso)

Ontem, em Fátima, foi vísivel um destes fenómenos habituais e facilmente explicáveis. Como o dia de ontem em Fátima era dedicado ao mais recente beato católico, o papa João Paulo II, houve imediatamente, como não podia deixar de ser,  inúmeras vozes a clamar milagre. Como deveria ser óbvio para todos, media em particular, não houve qualquer suspensão das leis da natureza, por acaso ontem estavam reunidas as condições atmosféricas para o fenómeno, fascinante mas banal, tão banal como outros fenómenos ópticos da atmosfera, o arco-íris ou as auroras, por exemplo.

 

Tenho uma certa dificuldade em perceber como, no século XXI,  se atribui a milagres fenómenos tão corriqueiros como os halos solares - que na maior parte das vezes em que ocorrem passam completamente despercebidos e não dão origem a manchetes como a granizada que se abateu, selectivamente, sobre a região de Lisboa. Aí ninguém gritou milagre ou maldição porque a data não tinha qualquer conotação religiosa. Assim como não percebo porque razão se aceita como milagre fenómenos luminosos e não se espera algo que corresponda de facto a uma suspensão das leis da natureza e, já agora, não fútil. Sei lá, a transmutação da cera das velas do santuário no ouro que nos salvaria da crise ou quejandos.

 

Como escreve o Carlos Oliveira, «O mundo seria excelente se as pessoas em vez de gritarem “milagre”, tentassem compreender as causas dos fenómenos».  A que acrescento que o conhecimento deveria ser a beleza oculta em fenómenos que a todos nos maravilham como sejam as auroras, os halos solares ou o arco-íris. Infelizmente, neste país com uma longa tradição de iliteracia científica, as crendices substituem-se demasiadas vezes ao conhecimento. Talvez por isso, ou melhor, também por isso, estamos como estamos.

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