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jugular

As tretas do EcoTretas

 

Caro EcoTretas, finalmente alguém com a sua clarividência para desmontar os pérfidos argumentos que teci neste ardiloso e filigrânico post.

 

Ainda mal entrei no seu sagaz comentário imbuído de invulgar coragem anónima e sapiência milenar e logo fiquei a saber que tenho um patrão-mor com uns amigalhaços ditadores, que sou um artista do esconde esconde e aqui que talvez até seja familiar dos Psittacidae. Sinceramente eu não mereço tamanha honra, uma ave e logo das mais inteligentes, em jeito de agradecimento envio-lhe uma foto da minha clausura na gaiola do patrão-mor que também envia cumprimentos.

 

Deu para perceber que adora jogar às escondidas e que sabe valorizar o apelido. Eu também gosto de jogos infantis mas hoje não tenho tempo. Aqui vai uma resposta ao seu monólogo de vingador zangadinho de alguém que percebe mais de energia do que eu e arrisco a dizer bastante mais do que você.

 

Se quiser continuar ad eternum força, eu vou só ali dormir um bocadinho e quiçá sonhar com a moratória da tortura de teclados. Só respondo a 5 perguntas porque estou a tentar esconder o shale gas que está ali a brotar do sofá da sala.

 

Porque escondem o facto de que os custos com as novas barragens têm unicamente a ver com o facto de termos que armazenar a energia eólica em excesso?

As novas barragens têm uma valia intrínseca relacionada com a produção própria e com a gestão das bacias hidrográficas onde estão inseridas. A forma como a hídrica combina bem com a energia eólica é apenas uma das suas vantagens. De facto a rapidez de mobilização da produção hídrica é algo que complementa muito bem com a variação da produção eólica. A utilização da bombagem é algo que sempre foi utilizado no passado quando tal era economicamente viável e assim será no futuro. A visão de que estes investimentos apenas servem para viabilizar as eólicas até 2020 é no mínimo redutor. Com efeito estamos a falar de investimentos que, na sua maior parte estarão concluídos entre o final de 2015 e 2018 quando sabemos que uma parte significativa da produção eólica perde a feed-in-tariff a partir de 2020 ingressando no mercado. A ocorrer alguma armazenagem de energia eólica a partir dessa data, na maior parte será armazenamento de energia que está em mercado, logo sem custos para o sistema.

 

Porque escondem o facto de que as taxas inventadas o ano passado, para as térmicas, têm unicamente a ver com o facto de que as eólicas, muito frequentemente, estão paradas?

Penso que se referirá à garantia de potência. Os pagamentos por disponibilidade não foram inventados no ano passado, são um conceito que existe há muito no sector eléctrico. Os Contratos de Aquisição de Energia (CAE) parte dos quais transformados em CMEC, com base nos quais o sistema eléctrico português funcionou quase durante duas décadas remuneravam as centrais pela energia produzida e pela potência disponível. Aliás, a rentabilidade das centrais estava precisamente em garantir um coeficiente de disponibilidade o mais elevado possível.

Quanto à garantia de potência propriamente dita, ela já existe em Espanha desde o início do mercado espanhol em 1998 e resulta da necessidade que os sistemas eléctricos sentem de garantir que têm cobertura suficiente a médio prazo. É que se não ocorrerem investimentos atempados pode ocorrer uma falha de abastecimento que, nos mercados eléctricos é uma coisa, no mínimo, complicada.

Em relação a garantia de potência em Portugal, também não foi “inventada” no ano passado. A sua criação resulta de um acordo de compatibilização regulatória com Espanha assumida no Acordo de Santiago e efectuou-se através de Decreto-Lei em 2007.

 

Porque escondem o facto de que as eólicas produzem sobretudo de madrugada, quando a energia não é precisa?

È um facto que as eólicas produzem mais durante a noite do que durante o dia. No entanto há uma pequena diferença entre noite e madrugada… Se é verdade que de madrugada os consumos de electricidade são mais baixos também é um facto que os períodos de pico de consumo ocorrem durante a noite, normalmente entre as 19:00 e as 22:00. (ver gráfico abaixo com o diagrama de cargas de um dia de semana de Inverno)

Por outro lado a diferença da produção entre noite e dia não é tão grande como se quer fazer crer. Na publicação da REN, Energia Eólica em Portugal em 2010 pode ver que a produção média da energia eólica é durante a madrugada ligeiramente superior a 30% da capacidade instalada, das 18:00 às 24:00 é cerca de 30%, durante o dia é ligeiramente mais baixa atingindo valores mínimos na ordem dos 25%. Em média, a diferença entre períodos nocturnos e diurnos é na ordem dos 5%, ou seja, pouco mais de 200 MW.

 

Gráfico publicado pela REN com o diagrama de cargas de um dia típico de Inverno, 19-01-2011.

 

Porque se esconde o facto de que as nossas exportações de energia eléctrica são muitas vezes feitas a custo ZERO?

E porque se esconde o facto de muitas das nossas importações serem feitas a preço ZERO? E porque se esconde o facto de muitas das nossas exportações serem feitas a preços superiores à média? E porque se esconde o facto de muitas das nossas importações serem feitas a preços superiores à média?

E porque não olhamos para os dados da nossa factura energética divulgados pela DGEG?

Importações

2006

2007

2008

2009

2010

GWh

6.446

8.361

9.542

5.614

4.350

Eur

312

385

640

248

176

Eur/MWh

48

46

67

44

40

 

Exportações

2006

2007

2008

2009

2010

MWh

2.894

1.907

40

701

1.717

Eur

157

80

3

26

69

Eur/MWh

54

42

75

37

40

 

Do qual resulta o seguinte saldo importador:

Saldo Importador

2006

2007

2008

2009

2010

MWh

3.552

6.454

9.502

4.913

2.633

Eur

155

305

637

222

107

Eur/MWh

44

47

67

45

41

É também necessário enquadrar com o nível de preços verificado no mercado grossista (fonte www.omel.es).

 

Eur/MWh

2006

2007

2008

2009

2010

Preço Portugal

 

 

70

38

37

Preço Espanha

51

39

64

37

37

 

Nota: O MIBEL entrou em funcionamento em Julho de 2007 pelo que só a partir de meados de 2008 existem preços médios anuais para o mercado grossista em Portugal

 

Pode-se concluir que exportamos a preços ridiculamente baixos?

Não me parece. O preço médio das exportações está mais ou menos em linha com o das importações. A excepção é 2006 e 2008, anos com a hidrologia abaixo da média e em que, em algumas horas de maior consumo, Portugal teve as suas centrais a fuel mais caras em funcionamento para exportação. O preço médio de exportação foi mais alto mas o custo da produção associada também foi mais elevada.

 

Se olharmos apenas para 2009 e 2010 verificamos que o preço médio das exportações é exactamente igual ao das importações. E também se verificou em 2010 que, tendo mais produção renovável, e com preços no mercado grossista iguais aos de 2009, Portugal aumentou o preço médio da sua exportação e reduziu o preço médio da sua importação. Esta análise vale aquilo que vale mas desmonta claramente o equívoco que nos querem fazer crer de que a produção renovável está a prejudicar as nossas condições de troca com Espanha…

 

A verdade é que o sistema português está muito interligado com o sistema espanhol. Nos últimos 5 anos o nível de trocas varia entre os 6 e os 10TWh, que é como quem diz entre 12 e 20% do consumo português. Isto significa que cada sistema paga o seu regime especial e a importação/exportação resulta da exploração do restante parque electroprodutor em regime ordinário.

Naqueles períodos em que a hidraulicidade é de tal forma elevada que as barragens são obrigadas a funcionar 24 horas por dia é natural que o preço do mercado ibérico tenda para zero quer se exporte quer se importe. E isto não é nada de novo. Quem tiver paciência pode ir consultar os dados da OMEL relativos ao longínquo ano de 2001 verificará que nessa altura, em que a energia eólica ainda era uma criança, já ocorriam muitos preços próximos de zero. E Portugal exportava…

 

Na realidade, se for feita uma análise mais cuidada às trocas entre os dois países irá verificar-se que são muito mais as horas em que Portugal compra energia a Espanha abaixo do custo marginal das centrais térmicas do que o contrário. E porquê? A razão não se prende com a quantidade de energia em regime especial mas sim com o parque nuclear espanhol que não tem qualquer flexibilidade para reduzir a produção de madrugada sendo obrigada a vender energia com preços muito baixos, muitas vezes a zero.

 

A conclusão é que pontualmente ocorrem exportações a zero. E então? O contrário também ocorre. Estar sempre a bater nesta tecla é, como diria o Dr. Catroga, por outras palavras, estar preocupado em olhar para a árvore e não querer olhar para a floresta.

  

Como bem sabe, sendo economista, porque não disserta sobre as vantagens competitivas de ter um preço de energia barato, em vez de nos sair mais cara, e ter na minha opinião, sido a principal razão pelo estado a que Portugal chegou?

Agora apanhou-me, eu aqui pronto para falar da crise internacional, da inflexão na resposta da europa à crise, do tradicional desequilibrio das contas externas e dos problemas estruturais da economia portuguesa, mas... afinal foi o preço da energia. Ora toma e tá bem visto sim senhor!

 

Eurostat, Eurostat, Eurostat, Eurostat, Eurostat, Eurostat, Eurostat, Eurostat, Eurostat, Eurostat!!! 

Os dados do Eurostat mostram que, no caso da Indústria, a comparação com a Europa é ainda mais favorável.

È necessário referir que, com excepção da co-geração, o sobrecusto da produção em regime especial é paga pelos consumidores domésticos. Como a produção renovável contribui para conter o preço do mercado grossista (o preço grossista do MIBEL está abaixo do resto da Europa (ver a última página do relatório de mercado da OMEL), os industriais acabam por ter o benefício de comprar a energia mais barata no mercado grossista sem suportarem quaisquer custos com as renováveis, tornando-se mais competitivos.

 

Há o argumento, que como já vimos não é válido, de que os industriais estão a pagar a garantia de potência por causa das renováveis. No entanto este valor não supera os 1,2 €/MWh.

 

Ufa ufa ufa... jogar às escondidas cansa.

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