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A árvore da vida - III - O sagrado e o profano

(com a devida vénia)
Volta e meia também tenho ouvido, a pessoas de bem, uma crítica a A árvore da Vida que é, contudo, difícil de precisar (estejam à vontade para o fazer na caixa de comentários): o carácter missionário, evangelizador, proselitista (na versão hardcore) ou "místico-gelatinoso", demasiado católico, e outras que entretanto esqueci (na versão softcore). É uma crítica cuja justeza só poderia apurar-se sabendo o grau de sensibilidade à espiritualidade e à religião de todas estas pessoas de bem. O que é uma tarefa, além de quase impossível, de pouco interesse.
Parece ser mais interessante e profícuo tentar perceber o melhor possível o ponto de partida do autor e deixar o ponto de chegada à sensível subjectividade do espectador.
Malick é um católico protestante anglicano episcopal. Só esta referência deveria deixar perceber que, tendo em conta a sua obra, e até mesmo apenas a Árvore da Vida, é um católico protestante anglicano episcopal moderado. Não só é inexistente qualquer referência a Cristo nos seus filmes (sendo Cristo a figura central da sua religião), como as questões religiosas surgem sempre em campo e contra-campo, normalmente entre personagens mas, às vezes, na mesma personagem, entre fé e dúvida (como, aliás, acontece em Árvore da Vida, com a personagem do filho mais velho e do pai).
Creio, pois, que podemos deixar de lado a versão hardcore da putativa crítica e duvidar de que Malick tenha qualquer intuito evangelizador, proselitista ou missionário (excepto se adoptarmos uma visão passive-agressive do mesmo).
Resta-nos a reflexão, vamos colocar o problema assim, sobre se A Árvore da Vida não pretende ser uma grande xaropada católica de características gelatinosas.
Sim, pretende.
Retirando as opções terminológicas destinadas a traduzir um certo posicionamento em relação a esta obra-prima, a verdade é que, a Árvore da Vida, como aliás, todos os filmes de Malick (incluindo, aposto, o que aí vem), contém uma reflexão espiritual. Essa reflexão religiosa é enquadrada pela experiência pessoal episcopal de Malick mas muito temperada por uma reflexão filosófica (Heidegger, por exemplo) que torna o produto final muito mais próximo de um panteísmo ou de um misticismo esotérico, do que de uma ortodoxia católica. Essa reflexão, contudo, não nos é imposta. Ela surge como uma tessitura natural dos filmes de Malick, como esperamos que aconteça na criação de qualquer artista: que aí esteja ele, de um certo modo.
Esta presença do espiritual e do religioso na criação artística e na expressão pública faz falta, no que concordo com André Folque, quando invoca, no Público de há uns dias, esse mesmo argumento para defender o aprofundamento do exercício em sociedade da liberdade religiosa: a presença pública da fé não deve ser confundida com imposição pública da fé. A primeira deve ser louvada, a segunda combatida. Ora, em A Árvore da Vida, Malick, sem pretender negar a sua província religiosa, não a impinge antes a infunde na sua obra, que não pode ser reduzida a um manifesto religioso. É evidente que, quando se fala da origem da vida é difícil deixar de fora, quer histórica, quer filosoficamente, a dimensão religiosa da humanidade, mesmo que nessa humanidade se integrem muitos milhões de seres que não têm qualquer molécula espiritual.
Para esses Malick parece deixar um caminho ou, pelo menos, uma provocação ou um dilema: o caminho da Natureza. E, acrescentaria eu, que gosto de desafios: tentemos fazê-lo superar o da Graça. Ou com ele mesclar-se e confundir-se.

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