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a zegalha

Bem que me atormentou durante anos a fio, a maldita. A zegalha; uma espécie de virose pandémica que ataca o comum dos mortais, com especial incidência nos portugueses, e que durante muito tempo causou-me incómodos, ansiedade, dores de cabeça ocasionais e dinheiro desperdiçado. Sou um sortudo, vá lá, porque é um mal que pode causar a morte, própria ou alheia ou, em certos casos, lesões físicas e psicológicas profundas. A zegalha é uma doença crónica, misto de panca, estupidez, maria-vai-com-todos, ego inflamado e bravata. Uma mistura explosiva.

Foi o Chico quem, tinha eu uns 9 ou 10 anos, me apresentou pela primeira vez a zegalha. 

Morava perto da minha casa, era mais velho, mais forte e mais experiente do que eu e, portanto, sabia mais. Nos tempos em que andar na bicicleta pelo bairro era tão natural, para um puto de 10 anos, como é hoje mandar sms, o Chico dava cartas e era o maioral entre os rapazolas dali. Quando acelerava, ninguém o batia. Não se sabia bem porquê, se era das pernas, se da bicicleta mais possante. Aliás, não era “bicicleta”, era “burra”, metáfora própria de puto mais ou menos suburbano que achava que um burro atingia grande velocidade. Se calhar era, apenas, porque se montava (não confundir com “mula”, vocábulo de uso corrente numa faixa etária um pouco mais elevada mas que designava algo diferente, embora com o mesmo uso – não vem ao caso agora). Quando exultava, o Chico usava um termo para designar a sua velocidade imbatível – a zegalha. Eu ouvia e achava que era uma qualquer capacidade que lhe fornecia força suplementar e o tornava vencedor. Eu pedalava, o Chico andava na zegalha. Só mais tarde entendi o equívoco – tinha um defeito de pronúncia, mais ou menos disfarçado, que o levava a pronunciar assim “a esgalha”, quando esta era ainda uma forma ingénua de exprimir velocidade e não, como agora, de solo de guitarra interminável ou de uma ideia bem apanhada ou de expressão oportuna.

Pois passou a infância e ficou-me a implicância com a zegalha. E, mais tarde, quando comecei a conduzir, fui várias vezes acossado pela dita. Acontecia invariavelmente nas viagens mais longas, e num em especial: a travessia Lisboa-Algarve. Numa altura em que a auto-estrada acabava em Alcácer do Sal, ir de férias era uma jornada cautelosa, rodeada de cuidados especiais: sair cedo, antes de toda a gente, percorrer o maior número de milhas antes de amanhecer, fazer a primeira paragem tão tarde quanto possível: Canal Caveira ou Mimosa eram as hipóteses mais aceitáveis. A partir daí, era um tormento de calor e ziguezagues, aceleras e travas, enquanto se seguia na peregrinação, por vezes procissão, alentejo abaixo. Havia sempre uns sustos, felizmente sem outras consequências. E quando finalmente se alcançava Tunes, Silves à vista, era um alívio. Durante anos foi assim. Mas a zegalha, essa, não deixou de me atormentar, apesar das cautelas, da prudência e dos cuidados redobrados. Estava sempre presente, porque no carrossel do IC 1, tinha que se seguir em permanente excesso de velocidade, circular segundo a lei (90 km/h) era suicídio, com avalanche permanente de vultos a surgir no retrovisor e a atravessar-se-nos à frente. Pior, atacava, de modo epidémico boa parte dos meus amigos que fazia o mesmo périplo. Alguns gabavam-se de médias de 130 km/h e de efetuar a viagem em 2 horas e meia. Os riscos (guiavam como loucos) eram minimizados, nunca eram “eles”, eram sempre “os outros”, sobretudo os que mantinham espaço e folga e não arriscavam ultrapassagens em cima de duplo traço contínuo.

A zegalha continuou a atormentar-me já depois, mais tarde, quando passou a haver autoestradas e as distâncias ficaram substancialmente reduzidas. Motivos diferentes, é certo: filhos pequenos, calor, sair cedo, evitar que acordem, chegar antes que e tornem insuportáveis, “já chegámos?”, “ainda falta muito?”, “quando chegamos?”. Depois tornou-se um hábito, fazer o percurso rapidamente, é entrar, ir o mais depressa que se puder e sair, que é hora e almoço. Hoje, melhor, ontem, fiz a velha viagem em dia de enchente prevista. A zegalha estava, portanto, já na forja para mais uma pandemia. Mas desta vez fiz-lhe frente. Fiz, fiz. Filhos crescidos, uma outra calma, as primeiras férias dignas desse nome em vários anos, não, desta vez não. Esquivei-me à A2 e segui pela velha IC 1, fiz a viagem com médias de 90 km/h, almocei na Mimosa e cheguei muito contente ao destino: estrada quase vazia, nada de ziguezagues nem de gente a pressionar-me os calcanhares ou a fazer sinais de luzes. Poupei mais de 10 € nas portagens. E deparei com uma gentileza, uma calma e uma boa-vontade nos condutores como há muito não via, pelo menos nas estradas nacionais. Uma meia-vitória: na Via do Infante, voltou a atacar. Mas as coisas que valem a pena fazem-se de pequenos passos, não é?

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