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jugular

a gorjeta

Quando eu tinha uns 10 anos, assisti, no círculo familiar, a frequentes discussões políticas, que se arrastavam durante horas e invariavelmente resultavam inconclusivas. Era um tempo em que a discussão política continha uma carga de frescura, de ingenuidade e de certeza que se foi perdendo ao longo do tempo; hoje, as pessoas manifestam descrença e dúvida; nesse tempo, tudo era certeza e convicção. As clivagens eram profundas e irredutíveis, e geralmente pouco razoáveis. Lembro-me bem das posições de um familiar meu, de “esquerda” e, não por acaso, funcionário público, que falava dos deveres do Estado, dos direitos sociais recentemente adquiridos e que temia, sobretudo, que “isto voltasse para trás”; a responsabilidade pelos problemas do país deviam ser assacadas aos ricos e poderosos, movidos apenas pelo lucro individual. Os que se lhe opunham preferiam mencionar o trabalho esforçado e a ordem social e receavam, antes de mais, a espoliação e a anarquia; culpa? era dos preguiçosos (e invejosos) que só sabiam reivindicar, queriam regalias sem contrapartida e desejavam emprego, não trabalho, porque esse nunca faltava. 

Eram duas visões antagónicas, extremas, da mesma realidade, que se alimentavam mutuamente de medos e receios. Lembro-me de um episódio concreto, com o seu quê de paradoxal, que suscitou discussão acesa: esse meu familiar não deu gorjeta num restaurante sob pretexto de que se tratava de um extra sem justificação, pois o salário e a proteção social “do Estado” deveriam ser suficientes, sem necessidade de esmolas dos clientes. Os outros achavam que não passava de sovinice disfarçada, pois as gorjetas eram um importante complemento para os mal pagos trabalhadores da restauração que premiava a simpatia, a eficiência e o profissionalismo do servir à mesa; uma questão de solidariedade, afinal. Neste pequeno percalço, vislumbrei – muito mais tarde, evidentemente - o gérmen das intermináveis controvérsias que opõem tradicionalmente a “esquerda” à “direita” e que hoje, em tempos de crise, voltam a estar na ordem do dia.

Vem isto a propósito do recentemente anunciado Plano de Emergência Social, espécie de caminho tortuoso social, tão cheio de alegadas boas intenções como de equívocos. A regra é simples e pode ser resumida assim: cortar como regra e pano de fundo difuso e puxar pela exceção, arvorada em salvaguarda “dos mais desfavorecidos”. Não discuto, até porque me faltam dados, formação, projeto político e agenda da troica, a necessidade de reduzir despesa, maximizar recursos, combater desperdícios e racionalizar aparelhos, orgânicas e práticas. Mas o balanço entre o direito social e a gorjeta, enquanto apelo a uma lógica, já em si excecional, de solidariedade pessoal e caritativa, parece-me que resvala para um limiar perigoso, uma espécie de inversão da lógica que deveria presidir a tudo isto. Num país de baixos salários e onde as preocupações sociais só recentemente subiram da esfera do voluntarismo pessoal ou institucional a estatuto universal, colocar o apoio aos mais desfavorecidos ao nível da exceção restrita, vigiada, controlada e, provavelmente, cheia de armadilhas burocráticas, não pode deixar de ser entendido como um retrocesso. Em certos casos, como os aumentos nos transportes públicos, trata-se simplesmente de colocar a fasquia, à partida, já abaixo da “zona vermelha”: deveriam ser acessíveis e universais, por uma miríade de razões, das ambientais às sociais. Noutros, como no dos medicamentos, apregoam-se nas manchetes dos jornais os casos de exceção, embora se saiba que o seu campo de alcance irá ser ser diminuto em volume e limitado em abrangência. No fundo, a questiúncula a que assisti há mais de 30 anos continua a manter a sua atualidade; as gorjetas, de facto, continuam a ser necessárias; mas ninguém consegue viver apenas delas. 

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