Domingo, 28 de Agosto de 2011

A esfinge: o mesmo destino dos Budas de Bamiyan?

 

Nos últimos meses, extremistas salafi devotaram-se a "purificar" o Egipto da imagética religiosa não islâmica, atacando, para além de locais de culto cristãos e sufis, os vestígios da "cultura podre", como se referiu o porta-voz da Al-Dawa Al-Salafya (Salafist's Call) às pirâmides, esfinge e demais templos faraónicos.

 

Os salafi, juntamente com a Irmandade Muçulmana e o al-Gama'a al-Islamiyya, boicotaram as reuniões  convocadas pelo primeiro-ministro interino, Ali El-Selmi, para discutir os princípios em que deverá assentar a nova Constituição egipcía. Os partidos islâmicos, sem excepção, condenam a "laicidade" de El-Selmi que insiste em que o Egipto deverá ter uma transição de poder pacífica para um estado "civil", de direito, democrático e que respeite os direitos humanos, nomeadamente, a liberdade de crença.

 

A Irmandade Muçulmana avisou o governo de transição que, a insistir nestas "blasfémias" constitucionais,  tomaria as ruas como o tinha feito à emblemática Tahir Square no último dia de Julho, quando centenas de milhares de islamistas fizeram ouvir as suas reinvidicações: Al-Shaab Yureed Tatbiq Shari'a Allah!  O povo quer implementar a lei de Deus, isto é, uma teocracia.

 

Pouco depois do ultimato, o consenso possível foi conseguido com os princípios constitucionais propostos por Ahmed el Tayeb, o grande iman de Al-Azhar.  Os liberais, que receiam uma vitória nas urnas dos partidos islâmicos e a transformação do Egipto num novo Irão,  gostaram da parte que estipula que o Egipto deverá ser um Estado civil, regulado pela lei e pela Constituição, em que sejam garantidos todos os direitos humanos. Os partidos islâmicos, que se opôem a essas modernices laicas, gostaram que não sejam vinculativas. E certamente gostaram da parte que descreve o Egipto como um estado muçulmano, em que a Sharia é a fonte primária da legislação. 

8 comentários:
De fernando antolin a 28 de Agosto de 2011 às 17:18
Temo que a história já não se repita como comédia, apenas como tragédia. E falta a Tunísia, agora a Líbia,depois Argélia, Marrocos...??


De Joaquim Camacho a 29 de Agosto de 2011 às 03:16
(este comentário, se for aceite, substitui o que enviei há bocado):

"Um novo Irão?"


 


UM NOVO IRÃO???!!! Foram destruídos Budas no Irão?! Ai que desactualizado que eu estou, que distraído que eu ando! A excitação que agita algumas cabecinhas, saboreando antecipadamente mais uns bombardeamentozitos humanitários, é realmente comovente! Os stocks de bombitas (tanto as inteligentes como as burras) parece que estão quase a passar a validade, há que gastá-las. E além disso há novas bombitas, ainda mais inteligentes que as anteriores, que é necessário experimentar no terreno. E os cabrões dos ayatollahs são mesmo irritantes, sem falar no atrasado mental do Ahmadinejad, apesar de não ser ayatollah. Estão mesmo a pedi-las, os sacanas! Então eles não sabem que o ocidente civilizado está em crise, que há por cá centenas de empresas que merecem uma oportunidade para construir coisas boas? Ora toda a gente sabe que reconstruir é tão bom como construir! Dir-me-ão os empatas: mas só se pode reconstruir o que está destruído! Pois então, responderei eu, não há coisa mais fácil! Não é mesmo uma maravalha, este oceano de oportunidades?


Os historiadores do futuro arranjarão por certo uma designação adequada para classificar alguma intelligentsia bem-pensante deste primeiro quarto de século e a caução intelectual que os seus entusiasmos bombistas humanitários dão aos belicistas de sempre. Haverá igualmente uma designação para os golpes de rins e as rápidas mudanças de agulha que a puta da realidade, essa vaca louca, imprime aos seus discursos. Como não sou historiador, abstenho-me de sugestões para essas designações, mas pode crer que não serão agradáveis para os designados...


 




De Nuno Gaspar a 30 de Agosto de 2011 às 03:59
Eu não lhe disse o que iria acontecer, Prof. Palmira?


Não era preciso ir ao estudo a Coimbra!


De Marco Oliveira a 30 de Agosto de 2011 às 17:42
Não conhece a situação das minorias religiosas no Irão?
Não sabe o que se passa com cristãos, judeus e zoroastrianos iranianos (apesar das garantias constitucionais)?
Não ouviu falar do regime de apartheid religioso em que vivem os baha'is iranianos?
Ou prefere ignorar essa realidade?


De Joaquim Camacho a 3 de Setembro de 2011 às 02:16
Tenho andado um pouco afastado do computador e só agora vi o seu comentário. Respondo às suas perguntas com outras perguntas e algumas afirmações:
Conhece a situação das minorias religiosas, nomeadamente cristãos, na Arábia Saudita e outros oásis democráticos da zona?
Conhece a situação da maioria xiita no Bahrain, dominada há décadas por uma minoria sunita que mata xiitas às centenas impunemente, e ainda bem recentemente, com a tolerância obscena dos mesmos que dão gritinhos histéricos de apoio à "revolução" líbia?
Conhece a situação de apropriação "de facto" de lugares santos do Islão (e já agora também alguns cristãos) pelos israelitas em Jerusalém, vide Esplanada das Mesquitas e não só, dificultando sob os mais variados pretextos o acesso de palestinianos muçulmanos e sacando chorudos lucros da exploração económica desses locais?
Acaso se apercebeu da obscena aldrabice repetida à exaustão pelo jornalismo mercenário sobre os milhares de alegados mercenários que o Kadhafi teria a combater a seu lado?
Acaso se apercebeu de que tais "mercenários" eram todos negros da África subsariana, que de mercenários não tinham a ponta de um corno e cujo único crime era serem pretos?
Acaso se apercebeu daquilo que para mim e para muitos outros foi evidente desde o início: que tais alegados mercenários não passavam de imigrantes a tentar ganhar a vida trabalhando, tal como fazem milhares de emigrantes africanos em Portugal e milhares de portugueses no estrangeiro?
Acaso esboçou um miligrama de protesto quando esses emigrantes, só por serem pretos, começaram a ser mortos aos milhares pelos racistas de merda... perdão, pelos gloriosos rebeldes líbios "ávidos de democracia", aos gritos de "mata que é mercenário" e a coberto da luta pseudo-revolucionária contra o doidivanas do Kadhafi?
Acaso viu a reportagem da Cândida Pinto ontem na SIC, numa prisão repleta de centenas desses desgraçados, obrigados por um glorioso rebelde, filho de puta com poder de vida ou de morte sobre aquelas centenas de seres humanos, obrigando-os com uma satisfação obscenamente alarve e prepotente a gritar "Allahu Akbar", fossem eles muçulmanos ou cristãos, como era o caso de muitos, de acordo com a Cândida Pinto?
Acaso sentiu algum desconforto ao ver os desgraçados repetir o que o filho de puta os obrigava a gritar, por saberem que se não o fizessem levavam um balázio na testa mal os jornalistas desaparecessem?
Acaso é capaz de sentir um arrepio se, parando cinco segundos para pensar, chegar à conclusão de que o mais certo é aqueles desgraçados, filmados ontem ainda vivos, estarem neste momento todos mortos (menos bocas para alimentar)?
E se acaso está a pensar em alegar que essas coisas só agora começam a ser sabidas, sugiro-lhe algumas consultas, como por exemplo nos links seguintes, alguns deles bem antigos:

http://www.csmonitor.com/World/Middle-East/2011/0303/Mistaken-for-mercenaries-Africans-are-trapped-in-Libya (http://www.csmonitor.com/World/Middle-East/2011/0303/Mistaken-for-mercenaries-Africans-are-trapped-in-Libya)

http://news.helium.com/news/12680-reports-of-african-mercenaries-in-libya-endagers-life-of-african-migrants (http://news.helium.com/news/12680-reports-of-african-mercenaries-in-libya-endagers-life-of-african-migrants)

http://www.afrol.com/articles/37465 (http://www.afrol.com/articles/37465)

http://www.afrol.com/articles/37490 (http://www.afrol.com/articles/37490)

http://www.afrol.com/articles/37443 (http://www.afrol.com/articles/37443)

(continua)


De Joaquim Camacho a 3 de Setembro de 2011 às 02:50
(continuação)

"Profissão de fé": o Kadhafi era, e é, um doidivanas excêntrico que fez muita sacanice, mas para isso rodeou-se, ao longo de dezenas de anos, de uma escumalha que o apoiou activamente em todas as filhas-de-putice que fez.
O chamado Conselho Nacional de Transição congrega o pior dessa tropa fandanga, a escumalha da escumalha, gente que viu o barco a afundar-se e decidiu que a ocasião era óptima para meter as garras numa porção maior do pote.
Os dirigentes do ocidente civilizado aproveitaram a oportunidade que se lhes apresentou para finalmente se vingarem de um tipo que, para o bem e para o mal, os gozou e humilhou inúmeras vezes e pouco lhes importa que os novos filhos da puta sejam muito piores que o filho da puta a quem querem torcer o pipo porque andou anos a chateá-los.
O que está a acontecer na Líbia é o seguinte: hordas de energúmenos armados até aos dentes com armas que a maioria nem sabe usar, mas exibe em poses bué de machonas, mantêm uma "corajosa" distância de 100 a 150 km do inimigo cuja pele juram, virilmente, querer arrancar à dentada. Enquanto estes gloriosos machos "combatem" valentemente as poucas nuvens que lhes passam por cima, gastando toneladas de balas em tiros para o ar e matando ocasionalmente um ou outro pardalito que tem o azar de por ali esvoaçar, a NATO reduz a pó qualquer capacidade de resposta do outro lado. Feito o glorioso trabalho de demolição, e informados os "revolucionários" do facto, estes avançam intrepidamente através dos escombros, ocupando os espaços vazios. Grandes guerreiros!
Deixe a poeira assentar, e quando eles estiverem todos misturados, quando a NATO não tiver alvos "úteis" para demolir e não estiver lá para lhes apresentar a papinha feita, vamos ver o que acontece, mesmo que o Kadhafi já tenha entregado a alma ao Mafarrico...
Claro que também por lá andam uns democratas sinceros e honestos, uns bem-intencionados que acreditam em todas as patacoadas que lhes dizem e eles próprios repetem, de alma cheia. Pobres idiotas úteis, sempre os houve, sempre os haverá! Para esses vai a minha simpatia e as minhas antecipadas condolências, pois serão os primeiros a marchar, às mãos dos aliados de agora.
Pelos outros não sinto senão desprezo. Apesar de tudo, respeito mais a espinha direita do doidivanas do Kadhafi!


De Marco Oliveira a 11 de Setembro de 2011 às 13:35
Tenho conhecimento disso e de coisas bem piores pelo mundo fora. Não é por não as mencionar que as considero menos condenáveis.
Mas eu tenho o cuidado de não misturar questões de violação de direitos humanos (como é o caso dos Baha’is no Irão) com questões políticas.
Vc ironizou se as estátuas dos Budas estavam no Irão. Na verdade, as autoridades iranianas procedem a um atropelo sistemático dos direitos das minorias religiosas, incluindo a destruição de propriedades locais de culto dessas minorias.
Misturar estas questões com questões políticas é a receita de quem não quer fazer nada. Os direitos humanos não servem para brincar à política.


De Joaquim Camacho a 13 de Setembro de 2011 às 00:01
Recordo-lhe que o post da Palmira era "ilustrado" por um vídeo do YouTube sobre a destruição dos Budas de Bamiyan, no Afeganistão, reforçado com a legenda: "A esfinge: o mesmo destino dos Budas de Bamiyan?"
Sendo o texto sobre a eventual radicalização islâmica no Egipto, parece-me natural o paralelismo com a radicalização islâmica no Afeganistão, de que a destruição dos Budas foi um exemplo. O que não percebi foi a interrogação no fim do primeiro parágrafo do texto, que lhe recordo: "Um novo Irão?" Daí a minha espantação, que não existiria se lá estivesse escrito "Um novo Afeganistão?".
O que também me espanta, mas agora da sua parte, é que não considere violações dos direitos humanos os factos descritos na lista que apresentei no comentário, por si "despromovidos" à categoria de "questões políticas". A saber:
-- Discriminação religiosa na Arábia Saudita contra tudo o que não seja islamismo sunita. Quantas igrejas cristãs, quantas sinagogas, quantos locais de culto para baha'is e zoroastrianos existem na Arábia Saudita, esse glorioso e piedoso farol da democracia e da liberdade?
-- Repressão da maioria religiosa xiita pela minoria religiosa sunita no Bahrain, que exerce o poder em exclusivo e beneficia de direitos que recusa aos xiitas.
-- Discriminação e repressão da minoria religiosa islâmica sunita e da ultraminoria religiosa cristã (vulgo palestinianos) nos territórios ocupados por Israel, dificultando-lhes, nomeadamente, o acesso a locais de culto e pulverizando-os à bomba ao menor pretexto.
-- Recusa sistemática de autorização para abertura de furos de rega para culturas aos palestinianos, enquanto nos colonatos israelitas em terra ocupada e roubada, logo ali ao lado, não falta água para regar relva e encher piscinas. Dirá porventura o Marco que eles não são reprimidos e massacrados por serem muçulmanos, mas "apenas" porque os israelitas lhes querem ficar com as terras. Uma "questão política" e não uma violação de direitos humanos. Pois... Parece que usamos dicionários diferentes.
-- Massacre de imigrantes negros na Líbia pelos "revolucionários" paladinos da democracia, acusados de serem mercenários mas na realidade massacrados aos milhares apenas por serem pretos, enquanto a gloriosa "civilização ocidental", campeã da liberdade, da democracia e dos direitos humanos, assobia obscenamente para o lado e chora lágrimas de crocodilo pelas criancinhas negras do Darfur, ao mesmo tempo que lhes atira umas migalhitas mediaticamente amplificadas, gastando simultaneamente, e discretamente, um milhão de vezes mais em bombas com que pulveriza Líbia, Iraque, Afeganistão e o mais que por aí virá! Ai o Irão mesmo ali ao lado, que apetite, que fomeca!
Pois é, nada disto tem a ver com violação de direitos humanos, são simples "questões políticas". Os malditos dicionários é que são os culpados disto tudo...


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