Domingo, 18 de Setembro de 2011
Embora, usando as palavras de Januário Torgal Ferreira, «uma andorinha não faça a Primavera», algumas notícias, de Portugal inclusive, revelam cada vez mais andorinhas entre os dignitários e padres católicos.
Numa entrevista que vale a pena ouvir na íntegra, Januário Torgal, que recorda o passado de vergonha de uma Igreja que se calou e se ajoelhou diante de Salazar - e cala e ajoelha* perante todos os governos que lhe mantenham os privilégios e imponham as suas aberrações "morais" -, afirmou não querer ser cúmplice de uma situação em que uma "multidão de pessoas" "já foram desapossadas da sua dignidade, do respeito por elas próprias", situação criada por um governo a que aponta falta de sensibilidade nuns casos e perfeita incompetência em outros.
Mas se esta entrevista é surpreendente pela sua coragem e honestidade, mais surpreendente é a coragem de muitos padres que exigem as reformas mais óbvias na Igreja que consideram ser também a sua e não apenas a do Vaticano. Um pouco por toda a Europa, abalada pelos sucessivos escândalos de abuso sexual de menores e pelo papel pouco abonatório do Vaticano em todo o processo, e em particular na Áustria, onde cerca de 4 centenas de padres lançaram em Junho um "Apelo à Insubordinação" que contesta muitas das directivas do Vaticano e se insurge contra a autoridade absoluta do Papa, muitos são os que exigem uma reforma da Instituição, que a retire da Idade Média e a traga pelo menos para o corrente milénio.
Mesmo sob ameaça de excomunhão, os padres austríacos envolvidos no movimento reiteram a primeira linha do seu manifesto, «Em todas as missas, intercederemos em prol de uma reforma da Igreja», reforma essa que passa pelo fim da exigência do celibato, pela ordenação de mulheres, por um verdadeiro ecumenismo e pelo direito de crentes não ordenados participarem mais activamente na vida das paróquias onde não existem padres. Sem surpresas, um inquérito conduzido entre a população austríaca, que criou o movimento "Nós Somos Igreja" e onde a taxa de abandono da ICAR é uma das mais altas da Europa, indica que quase 4 em cada 5 dos inquiridos apoia a insurgência eclesiástica.
Como referiu um dos activistas austríacos, Anton Achleitner,«Vai haver uma revolução de gente da Igreja na Aústria. Faremos da praça St. Stephen (em frente à catedral de Viena) a nossa praça Tahrir». Espero, sinceramente**, que muitas praças Tahir floresçam pelo mundo católico e que o epílogo desta história, tal como o epílogo da história árabe, seja um avanço e não um retrocesso.
* para não ir mais longe, é só pensar no que acontece na Madeira.
** sinceramente porque, contrariamente ao que carpem muitos dos habitués católicos chez Jugular, eu e a maioria dos ateus não somos anti-religião/catolicismo, somos anti intromissão da religião/ICAR em assuntos que não lhe dizem nem deveriam dizer respeito.
Eu ateu, tenho orgulho em ter tido como mestre o Prof. Januário.
De João Paulo a 18 de Setembro de 2011 às 14:34
Por mim, gostei muito da entrevista do bispo da tropa. tenho pena que ainda nenhum dos habitués católicos chez jugular se tenha digmado comentar, mas a eles assenta-lhes como uma luva isto, deve ser ver um bispo confirmar o que os ateus dizem que os incomoda
Quando
há um reparo à Igreja, as pessoas ficam imediatamente perturbadas: “Lá
vêm os laicistas! Lá vêm os ateus!”. Constrói-se logo uma teoria da
conspiração. Isto dá para rir. Nós não fomos educados na arte do
diálogo. Nós vemos a cada esquina um perseguidor. (http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=2000827)
(http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=2000827)
Devo confessar que essa é tb a minha parte favorita que omiti pudor :) em conunto com a parte em que Januário Torgal diz sem pruridos que “a igreja não deve utilizar o Governo” para os seus fins.
uma grande lição de januário torgal.
Como cristão que se costuma por do lado dos ateus em todas as discussões sobre religião, sinto-me obrigado a comentar para dizer apenas: em cheio...
De Nuno Gaspar a 19 de Setembro de 2011 às 02:01
A professora Palmira descobriu hoje a diversidade católica. Antes tarde que nunca.
De Paula R. a 19 de Setembro de 2011 às 09:35
Ventos bons sim! De mudança? ... receio bem que não. Os mais diletos filhos da igreja, aplaudem hoje o D. Januário e sem pejo amanhã, fazem o discurso contrário, tudo isto sem acharem que se contradizem, este é o fantástico da questão.
Palmira, está bem vista a comparação como esta surreal história madeirense, em que por um lado Passos Coelho vem adjectivar públicamente o inademissivel do comportamento do Jardim mas quando chega à hora da verdade ... retirar a confiança política é o tiras !!!!!
De IH a 19 de Setembro de 2011 às 13:19
«Ventos de mudança»? «Primavera católica»?
Duplo não, Palmira. Ao menos no sentido enviesado que a Palmira gostaria.
Nas coisas de Deus - sabe - a mudança e a Primavera não se medem com sound bites incendiários e demagógicos, mesmo que provenham da hierarquia ou da bela Viena. Como a mudança e a renovação são realidades do coração, é assunto para aferir exclusivamente no Juízo Final («O que fizestes a ... a Mim o fizestes»). E aí, quero crer, a Palmira vai ter boas surpresas. É o meu desejo com que a volto a cumprimentar amigavelmente.
De Niamey a 19 de Setembro de 2011 às 14:24
estou tentada a concordar com o anterior comentário. é a contradição permanente, a hipocrisia de muitos católicos que deita tudo a perder. Para religiões, religiosos e afins volto a repetir o meu novo lema:
"Enough of this Freedom of Religion Crap"
Em que momento da História é que as religiões fizeram por merecer andar agarradas à palavra Liberdade?
As palavras de d.januário podem trazer bons ventos mas, de facto, vou tb ficar pela dúvida...razoável de que sejam de mudança.
Eu não percebo por que motivos a Palmira, que não é católica, bem pelo contrário, se preocupa com coisas da organização interna da ICAR, como seja o facto de só homens poderem ser padres, ou de os padres deverem ser castos, ou de leigos poderem dar sermões.
Eu sou ateu, tal e qual como a Palmira, creio, e para mim essas coisas não me dizem respeito, não me afetam e eu não me importo com elas. A mim, que não vou à missa, tanto se me dá que o indivíduo que lá está a pregar seja um homem como uma mulher, que tenha andado no seminário ou que seja um autodidata, que tenha relações sexuais frequentes ou nulas.
Por que motivos há-de a Palmira ralar-se com essas coisas, que só aos católicos, eventualmente a outros cristãos, dizem respeito? Não entendo.
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