Há pouco mais de um ano, 6 sismologistas e um funcionário estatal que não previram (?) a tragédia que ocorreu em L’Aquila, no dia 6 de Abril de 2009, começaram a a ser investigados pelo «homícidio» das 308 vítimas do terramoto. Para a semana, começam a ser julgados pelo «crime» e há uma probabilidade não despicienda de serem condenados a penas pesadas.
O programa Newsnight da BBC tentou saber in situ a razão de tal insólito. E a razão prende-se com o facto de Giampaolo Giuliani, um técnico à beira da reforma, não licenciado, do Instituto Nacional de Astrofísica Italiano que tem como hobby as artes divinatórias, ter, supostamente, "previsto" a catástrofe. Na realidade, há anos que Giuliani previa, sem nunca acertar, sismos para a zona, assente nos valores das emanações locais de radão (um indicador de actividade sísmica considerado interessante nos anos 80 e princípio dos anos 90 mas que se revelou inconclusivo desde então). Aliás, uma semana antes previra um sismo em Sulmona, uma cidade 50 km a sul de L’Aquila. E resolveu partilhar, de megafone, a profecia com toda a cidade. Como resultado, foi proibido pelas autoridades de levantar falsos alarmes. Mas o aviso insistentemente "megafonado" foi ouvido...
Depois do dia 6 de Abril de 2009, a imprensa de todo o mundo referiu essa "previsão", afirmando, como os peritos de tudo que muitos se afirmam, ou insinuando, o que vai dar no mesmo, que se poderia ter prevenido a catástrofe se a ciência tivesse levado o profeta a sério. O que não é de todo verdade. Até Paulo Coelho explica o que aconteceu: mesmo um relógio parado consegue estar certo duas vezes por dia. É o que aconteceu com a "profecia" do técnico italiano. De tanto gritar "sismo" numa religião constantemente abalada por tremores de terra alguma vez havia de acertar. Às vezes acontece.
Mas acontece também que, pelo menos por enquanto, não há forma de prever sismos. Esta é a conclusão unânime de quem de direito, a comunidade dos especialistas em sismologia, embora não tenha sido essa a opinião quer de profetas quer dos jornalistas iliteratos científicos que ajudaram a inflamar os ânimos dos habitantes de l'Aquila. De facto, os sinais de radão não são um bom indicador. Apesar do muito trabalho na área e dos progressos dos últimos anos, não há nenhuma maneira fiável de indicar que num determinado sítio, num determinado dia e a uma certa hora vai ocorrer ou não um sismo. Pode-se, quando muito, dizer se esse determinado sítio tem uma maior ou menor probabilidade de, alguma vez, ser abalado por um sismo. E pode-se, quanto muito também, censurar os cientistas que participaram na reunião, que, "trapped in the wrong conversation because of the hullaballoo that was happening", não souberam sair dela e transmitir a informação correcta à população inquieta que queria certezas que só charlatães poderiam dar.
E deve-se certamente censurar os jornalistas que passaram a mensagem que a previsão de terramotos era, no caso d'Aquila, ciência certa ignorada por aqueles que agora arriscam uma estadia prolongada na prisão. Como refere Manuel António Pina, no último número da Jornalismo & Jornalistas, "Para se dar a carteira profissional [de jornalista] é preciso ter os mesmos cuidados que para dar a licença de porte de arma. A palavra mata muito mais frequentemente do que uma pistola". Seria conveniente que mais jornalistas se apercebessem disso.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
