Domingo, 18 de Setembro de 2011

Há pouco mais de um ano,  6 sismologistas e um funcionário estatal que não previram (?) a tragédia que ocorreu em L’Aquila, no dia 6 de Abril de 2009, começaram a a ser investigados pelo «homícidio» das 308 vítimas do terramoto. Para a semana, começam a ser julgados pelo «crime» e há uma probabilidade não despicienda de serem condenados a penas pesadas.

 

O programa Newsnight da BBC tentou saber in situ a razão de tal insólito. E a razão prende-se com o facto de Giampaolo Giuliani, um técnico à beira da reforma, não licenciado, do Instituto Nacional de Astrofísica Italiano que tem como hobby as artes divinatórias, ter, supostamente, "previsto" a catástrofe. Na realidade, há anos que Giuliani previa, sem nunca acertar, sismos para a zona, assente  nos valores das emanações locais de radão (um indicador de actividade sísmica considerado interessante nos anos 80 e princípio dos anos 90 mas que se revelou inconclusivo desde então). Aliás, uma semana antes previra  um sismo em Sulmona, uma cidade 50 km a sul de L’Aquila.  E resolveu partilhar, de megafone, a profecia com toda a cidade. Como resultado, foi proibido pelas autoridades de levantar falsos alarmes.  Mas o aviso insistentemente "megafonado" foi ouvido...

Depois do dia 6 de Abril de 2009, a imprensa de todo o mundo referiu essa "previsão", afirmando, como os peritos de tudo que muitos se afirmam, ou insinuando, o que vai dar no mesmo, que se poderia ter prevenido a catástrofe se a ciência tivesse levado o profeta a sério. O que não é de todo verdade. Até Paulo Coelho explica o que aconteceu: mesmo um relógio parado consegue estar certo duas vezes por dia. É o que aconteceu com a "profecia" do técnico italiano. De tanto gritar "sismo" numa religião constantemente abalada por tremores de terra alguma vez havia de acertar. Às vezes acontece.

Mas acontece também que, pelo menos por enquanto, não há forma de prever sismos. Esta é a conclusão unânime de quem de direito, a comunidade dos especialistas em sismologia, embora não tenha sido essa a opinião quer de profetas quer dos jornalistas iliteratos científicos que ajudaram a inflamar os ânimos dos habitantes de l'Aquila. De facto, os sinais de radão não são um bom indicador. Apesar do muito trabalho na área e dos progressos dos últimos anos, não há nenhuma maneira fiável de indicar que num determinado sítio, num determinado dia e a uma certa hora vai ocorrer ou não um sismo. Pode-se, quando muito, dizer se esse determinado sítio tem uma maior ou menor probabilidade de, alguma vez, ser abalado por um sismo.  E pode-se, quanto muito também, censurar os cientistas que participaram na reunião, que, "trapped in the wrong conversation because of the hullaballoo that was happening",  não souberam sair dela e transmitir a informação correcta à população inquieta que queria certezas que só charlatães poderiam dar.

 

E deve-se certamente censurar os jornalistas que passaram a mensagem que a previsão de terramotos era, no caso d'Aquila, ciência certa ignorada por aqueles que agora arriscam uma estadia prolongada na prisão. Como refere Manuel António Pina, no último número da Jornalismo & Jornalistas, "Para se dar a carteira profissional [de jornalista] é preciso ter os mesmos cuidados que para dar a licença de porte de arma. A palavra mata muito mais frequentemente do que uma pistola". Seria conveniente que mais jornalistas se apercebessem disso.

3 comentários:
De Joao Sampaio a 18 de Setembro de 2011 às 22:39
Os cientistas não são acusados de falharem a previsão do sismo. São sim acusados de terem dado às populações informações (cientificamente) erradas. Sob pressão política, desprezaram a importância dos pequenos sismos que se sentiam há alguns meses na região, dizendo que estes até implicavam que um sismo grande era menos provável. Isto levou as pessoas a ignorar as precauções que as poderiam salvo. Tudo aqui:
http://www.nature.com/news/2011/110914/full/477264a.html


De Palmira F. Silva a 18 de Setembro de 2011 às 23:01
Já estava linkado no texto, aqui "trapped in the wrong conversation because of the hullaballoo that was happening".

E parece-me que leu (muito) mal a notícia da Nature.

Um pequeno excerto:

"When asked during the meeting if the current seismic swarm could be a precursor to a major quake like the one that levelled L'Aquila in 1703, Boschi said, according to the meeting minutes: "It is unlikely that an earthquake like the one in 1703 could occur in the short term, but the possibility cannot be totally excluded."

De facto,

(...) there was minimal discussion of the vulnerability of local buildings, say prosecutors, or of what specific advice should be given to residents about what to do in the event of a major quake."

quiçá pq toda a gente estava tentar que os cientistas dissessem o impossível, se iria haver ou não um terramoto*

Boschi himself, in a 2009 letter to civil-protection officials published in the Italian weekly news magazine L'Espresso, said: "actions to be undertaken were not even minimally discussed"."

*Em particular o presidente da câmara, L'Aquila Mayor Massimo Cialente recalled his frustration at receiving no clear reply to his repeated questions and the apparent lack of concern on the part of some present.
 
"I well remember the words of Enzo Boschi who said, 'What do you expect? An earthquake in L'Aquila is bound to happen at some point'," said Cialente, who said he had been angered and worried by the answer.


De J Gusman Barbosa a 18 de Setembro de 2011 às 22:41
Concordo totalmente com o texto, e também não creio que seja muito difícil dizer que ali naquela região dos Apeninos vai haver um sismo, de certeza que um dia vai acertar.


Deveriam no entanto, os italianos preocupar-se mais em discutir porque é que ainda hoje em l'Aquila se constrói em cima da falha sismica, que se vê bem a olho nu, e só constrói lá quem quer.


Sobre o sismo propriamente dito, eu já estive em l'Aquila, há cerca de um ano, bem depois do sismo, e aquilo ainda parecia bastante um cenário de guerra... 


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