Sábado, 5 de Novembro de 2011

Há uns tempos, esta referência ao que se passa nos EUA, inserida no facebook pela Workers Community, foi partilhada e repartilhada com foco na mensagem original, "da próxima vez que alguém disser que és pobre porque és preguiçoso mostra-lhe isto". A mensagem implicita vai no entanto muito mais longe e ajuda também a perceber porque razão falharam todas as estratégias(?) que se foram adoptando para, supostamente, resolver a crise e porque continuarão a falhar se não houver uma reflexão profunda sobre as suas causas. Aliás, crise, vale a pena lembrar, vem do grego krisis, que pode ser traduzido por julgamento ou decisão. Assim, mesmo etimologicamente, esta crise envolve a reflexão crítica que me parece muitos se recusarem fazer.

 

Essa mensagem implícita foi hoje, também implicitamente, analisada no The Economist num artigo com título "Inteligência artificial" e sub-título "O legado ludita". O termo ludita, recordo, remete-nos para a Revolução Industrial e para os movimentos operários de luta contra a mecanização do trabalho que eclodiram na Inglaterra de há 200 anos, exactamente,  o movimento começou a ter expressão em 1811. Embora existam muitas lucubrações sobre as origens do ludismo, o movimento anti-máquinas, que teve pouca expressão no resto da Europa e se devotou especialmente aos teares mecânicos, não pode ser indissociado do bloqueio continental imposto em 1806 por Napoleão e das suas consequências sobre as exportações britânicas - agravadas a partir de 1812 com a nova guerra com os Estados Unidos que consolidou a independência norte-americana e privou os teares britânicos do algodão de que necessitavam para trabalhar. 

 

O legado ludita no contexto do artigo refere-se assim não tanto ao ludismo original mas ao neoludismo (outro) de há 100 anos, explicado logo nos primeiros parágrafos com uma história apócrifa que, reza a lenda, teria acontecido por volta de 1911 com protagonistas  Henry Ford e Walter Reuther, o dirigente sindical da United Automobile Workers. De acordo com a história, questionado sobre como é que iria pôr os robots a pagar as quotas do sindicato Reuther respondeu com outra pergunta:  “Henry, como é que os vais pôr a comprar os teus carros?”

A moral da história, real ou não, foi entendida por Ford que percebeu que para vender massivamente o seu modelo T precisava de uma classe média que o pudesse comprar. O grande sucesso de vendas do modelo T deveu-se não só aos baixos preços permitidos por um enorme aumento da produtividade como também à política salarial de Ford que pagava muito bem, o dobro do habitual, aos trabalhadores da Ford, que se tornaram consumidores do produto que fabricavam. Esse aumento salarial atraiu os melhores trabalhadores para a Ford o que permitiu aumentar ainda mais a produtividade e baixar ainda mais os preços, o que por seu lado se traduziu num aumento da procura num ciclo auto-alimentado nas máquinas outrora execradas que por sua vez alimentou a economia norte-americana.

 

O artigo, de leitura indispensável,  reflecte sobre o aumento exponencial da produtividade a que temos assistido nos últimos anos, mais vincadamente em algumas áreas de actividade é certo mas que se estende a todas, focando em particular os postos de trabalho de colarinho branco que "computerised automation, networks and artificial intelligence (AI)—including machine-learning, language-translation, and speech- and pattern-recognition software" tornaram obsoletos. O que o artigo não diz mas que este gráfico explica é que, contrariamente à presciência de Ford, aqueles que mais beneficiaram com a explosão tecnológica que permitiu este aumento brutal na produtividade não perceberam que para não quebrar o ciclo era necessário realimentar a economia do quotidiano, isto é, a folha de pagamentos dos trabalhadores, com os ganhos que esse aumento de produtividade permitiu.

 

A lição a tirar dos dados que o artigo nos apresenta não é que com uma periodicidade de um século há uma necessidade de movimentos "Rage Against the Machine" mas sim que "In the end, the Luddites may still be wrong. But the nature of what constitutes work today—the notion of a full-time job—will have to change dramatically." Por outras palavras, hoje, como há 100 e há 200 anos, o aumento de produtividade que o desenvolvimento tecnológico possibilita deve ser acompanhado, simultaneamente, por uma redistribuição mais equitativa dos rendimentos dessa produtividade e por uma redefinição profunda de termos e significados que ainda hoje permeiam o léxico do quotidiano de alguns quadrantes políticos e que perderam a adequação ou na primeira ou na segunda transformação das realidades produtiva e laboral.

 

Como essa simples revisão etimológica - e as consequências subjacentes -  que urge para nos tirar dos dicionários laborais do século XIX é simultaneamente a visão simples que falta à Europa para acabar com a crise foi tema, mais uma vez implícito, do artigo de Martim Avillez no Expresso de hoje. Infelizmente, as medidas que pretendem alargar os horários de trabalho e cortar salários, os cortes brutais em C&T, ciência e tecnologia, e no ensino superior, estrangulado em simultâneo pela revogação da autonomia universitária inscrita no OE2012*, indicam que o Governo de Portugal®, parece apostado em mostrar que os luditas tinham razão e que a forma de sair da crise é remetermo-nos para um passado de mão de obra não qualificada, barata e intensiva, em que o desenvolvimento tecnológico é anátema a combater.

 

*Ver até ao fim para perceber porquê

2 comentários:
De Manolo Heredia a 5 de Novembro de 2011 às 14:50
Uma boa demonstração de como a produtividade só interessa ao patrão...


De João Carlos a 5 de Novembro de 2011 às 20:59
Muito bom artigo a apontar o óbvio: esta crise deve-se em boa parte às assimetrias na distribuição da riqueza que se têm agravado nos últimos anos. Os cabeças ocas que nos desgovernam acham que a maneira de as resolver é agravar ainda mais fosso entre os muito pouco muito ricos e o resto do pessoal. Isto vai acabar da maneira do costume: à batatada!


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