Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

Em Portugal existem, de acordo com o artigo 208.º do Código do Trabalho, 13 feriados "obrigatórios". Desses, oito (mais de 61%) costumam ser designados como "religiosos" - entenda-se católicos. Desejando o Governo reduzir o número de feriados, surgiram desde logo notícias no sentido de que "a Igreja Católica" (entenda-se os bispos) estaria disposta a reduzir dois feriados "dos seus", contra dois "laicos". Houve quem muito se indignasse com esta atitude. Sucede que não cabe a entidades religiosas, que naturalmente procuram obter o máximo de vantagem, poder e prestígio para si e para o seu culto, zelar pelo cumprimento da Constituição e pela dignidade do Estado. E não lhes cabe certamente vincar o óbvio: não há feriados "da Igreja Católica" e feriados "dos laicos". Só há feriados nacionais, vinculando todos e portanto dizendo a todos respeito.

 

Invoca-se, para alocar os tais oito feriados à propriedade inalienável das autoridades católicas, a Concordata assinada em 2004 entre o Estado português e o Vaticano. Ora sendo certo que o documento elenca os dias festivos católicos reconhecidos pelo Estado (por acaso só seis - por qualquer motivo a Páscoa e a Sexta-Feira Santa ficaram de fora) e remete para acordo específico a alteração dessa lista, não estipula que esses dias festivos têm de ser feriados e muito menos obrigatórios. Leia-se: "A República Portuguesa providenciará no sentido de possibilitar aos católicos, no termos da lei portuguesa, o cumprimento dos deveres religiosos nos dias festivos."

 

Se dúvida houvesse sobre o carácter soberano da República Portuguesa na gerência dos dias de descanso obrigatório dos portugueses, ei-la, assinada pelo Papa: esta só se obriga a permitir aos católicos, nesses dias, e "nos termos da lei", "cumprir deveres religiosos" - ou seja, ir à missa. Isto significa o quê? Algo que sucede em muitos países, a começar pelos EUA (onde só existe um feriado obrigatório de cunho religioso, o Natal): um membro de um culto reconhecido tem direito a pedir dispensa em dias determinados, cuja listagem é elencada pelas autoridades do país, para o tal "cumprimento de dever" - que naturalmente não implicará sempre faltar o dia inteiro.

 

Há feriados ditos religiosos com claro estatuto de festas de todos (sobretudo pagã, na sua celebração hedonista), caso do Natal e do 1.º de Janeiro? Há, e devem ser como tal assumidas. Já as determinadas, no espírito da Concordata, só para alguns - os católicos que cumprem deveres religiosos, e quão poucos são (13% em Espanha, por exemplo) - devem funcionar como dias normais para os outros. É isso respeitar a liberdade de culto, a soberania e a laicidade constitucional da República portuguesa - e, pasme-se, a Concordata. Mas o Governo que está escolheu o contrário. E, para vincar o quanto, quer abolir a celebração do 5 de Outubro. Está certíssimo. Com a vantagem de nos recordar que a república acabou, há 101 anos, com a religião de Estado.

 

(publicado hoje no dn)


19 comentários:
De Paulo Barreto a 18 de Novembro de 2011 às 15:05
Desde quando é que o 1.º de Janeiro é um feriado religioso? Festeja-se o quê?, o São Bentinho da Porta Aberta?


De f. a 18 de Novembro de 2011 às 15:13
desculpe, ñ percebi a pergunta. acha q o 1º d janeiro ñ é 1 feriado dito 'religioso' (portanto, reconhecido como tal pelas autoridade católicas e inscrito na tal lista dos dias festivos católicos), é contra q seja, o quê?


De José Reis a 19 de Novembro de 2011 às 10:27
O 1º de Janeiro, é o primeiro feriado dos ditos "religiosos" comemora-se a "Solenidade de Santa Maria, mãe de Jesus"



De Miguel Braga a 18 de Novembro de 2011 às 15:20
A Fernanda ia muito certinha, afirmando que cabe ao Estado definir os dias declarados «feriado». Desta forma separando águas, ou seja, competências. Mas será que cabe à Fernanda, ou entenda-se, ao Estado, determinar o que se entende por «cumprir os deveres religiosos»?! Declarando logo de seguida: «ou seja, ir à missa». Não se deverá respeitar o mesmo princípio de separação das águas e deixar que sejam aqueles a determinar o que se entende por «deveres religiosos»?


De f. a 18 de Novembro de 2011 às 15:52
volontiers, miguel. simplesmente, inquiri junto de quem eventualmente de direito -- um bispo -- sobre o q deveriam ser esses deveres, nos casos vertentes. claro q no caso de outras religiões podem ser outros os deveres.


De Miguel Braga a 18 de Novembro de 2011 às 16:17
parece-me muito simplista. até por que no próprio artigo são eles os visados das críticas...


De f. a 19 de Novembro de 2011 às 02:33
eles quem, miguel? experimente esfregar os olhos, talvez veja melhor.


De Miguel Braga a 19 de Novembro de 2011 às 11:07
Se a crítica vai dirigida ao Governo, não deixa de ser igualmente uma crítica a «eles» ("'a Igreja Católica' (entenda-se os bispos)")


De Amadeu a 18 de Novembro de 2011 às 17:34
f., não sou a pessoa mais indicada para fazer esclarecimentos sobre isso mas, ao que diz, acresce que o natal não é uma comemoração religiosa, tendo antes sido aproveitada a festa pagã (o equinócio de inverno), para fazer coincidir com a data do nascimento de Cristo (de que aliás nada há que prove ter sido nessa data). Espero portanto que algum comentador mais esclarecido na matéria possa aqui fazer luz sobre o assunto.


De Miguel Braga a 19 de Novembro de 2011 às 00:41
No dia de Natal eu farto-me de ver Romanos trajados a rigor festejar o nascimento do deus sol...


De JDC a 19 de Novembro de 2011 às 00:42
Até parece que as festas pagãs não são, elas mesmas, festas religiosas ou de culto religioso...


De Amadeu a 19 de Novembro de 2011 às 01:15
Há-as para todos os gostos e em honra das divindades mais estapafúrdias. No caso do natal teve origens pré-cristãs e hoje é em honra do deus comércio.


De f. a 19 de Novembro de 2011 às 02:35
amadeu, sim; porém, para o caso, ñ m parece q a 'verdadeira' origem da comemoração seja mto relevante. convencionou-s q corresponde ao nascimento d jesus, e q portanto é 1 dia festivo de cunho religioso/cristão. é nesse sentido q m refiro a ele nesses termos.


De Amadeu a 19 de Novembro de 2011 às 13:14
Sim, percebi e concordo com a forma como foi abordado no seu post; o meu comentário era só um pequeno parênteses.


De Lúcio a 18 de Novembro de 2011 às 17:47
E por que cargas de água, numa sociedade descristianizada, hão-de manter-se universalmente os "feriados religiosos"? Suprimam-se todos, de caminhos, despachando os "laicos". De resto, é tão hipócrita o saudosista do Estado Novo que celebra com descanso o 25 de Abril, como cínico é o anti-clerical (olá, Fernada!) que aproveita alegremente os "dias santos de guarda" para se pôr a milhas do local de trabalho...
Hja coerência!


De xico a 18 de Novembro de 2011 às 22:51
A Fernanda põe muito bem o problema. Não há feriados "religiosos". Fala no paganismo, mas lembro que o paganismo também é religião, e religião é o que nos (re)liga. Todos os feriados com celebrações religiosas são festas comunitárias muito ligados aos ciclos da agricultura e/ou comunitários. Carnaval/Primavera; Páscoa/equinócio; Corpo de Deus/ exaltação dos ofícios e dos municípios; Sra da Conceição/ feiras dos produtos secos para o Inverno; Natal/ solstício; fim -de-ano/ antigas saturnais; Todos os santos/ celebração da memória comunitária.
A festa comunitária é essencial e necessária e em nada prejudica a produtividade. Acabem com os chamados feriados religiosos, porque ligados à Igreja católica, e acabam com as únicas festas verdadeiramente comunitárias. Ainda hoje nas nossas vilas e aldeias do interior, o povo se reúne na noite de Natal em redor do tronco a arder e nem todos entram na igreja para a missa do galo.
A igreja há muito que deixou de celebrar a Ascensão na quinta-feira de espiga, no entanto o povo continua a fazer festa nesse dia e em muitos concelhos é feriado, porque é uma festa da promessa do pão. O mesmo para o S. Martinho.


De Helena a 19 de Novembro de 2011 às 19:01
Cara f.
Nos EUA há 3 feriados religiosos obrigatórios: 1 de Janeiro, Dia de Acção de graças (que calha sempre a uma 5ª feira) e o Natal.
Na black friday (dia seguinte ao dia de acção de graças), é dada tolerância de ponto para todos os trabalhadores, exceptuando-se os trabalhadores do comércio. Nos estados do sul festeja-se o Mardi-gras, sendo nestes estados feriado estadual.
Em muitas empresas vigora o sistema de tolerância de ponto para que os trabalhadores participem em celebrações religiosas (ano novo chinês, Rosh hashana, yom kippur, Kwanzaa etc...).


De f. a 19 de Novembro de 2011 às 19:22
cara helena, não vislumbro qual o motivo pelo qual diz q o feriado d 1 de janeiro é religioso ou d origem religiosa nos eua. por outro lado, ñ considero o dia d acção d graças religioso -- e pesquisei para chegar a essa conclusão. aliás, pesquisei tudo e concluí o q está no texto. e os pedidos de dispensa admitidos ñ têm só a ver c credos 'mais ou menos alternativos', mas incluem várias festas cristãs.


De Porfírio Silva a 27 de Janeiro de 2012 às 12:06
Eu, que muitas vezes não gosto da forma como a Fernanda aborda as questões da religião na sociedade, acho este texto muito equilibrado, muito sólido e muito sensato.


Comentar post

Autores
Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Diogo Serras
Domingos Farinho
Fátima Rolo Duarte
Fernanda Câncio / f.
Filipe Nunes
Gonçalo Pires
Hugo Mendes
Inês de Medeiros
Inês Meneses
Irene Pimentel
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão
Mariana Vieira da Silva
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Shyznogud
Tiago Julião Neves

Arquivo

Isabel Moreira

Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon

correio | twitter | facebook

Fevereiro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9


24
25

26
27
28
29


artigos recentes

Pelo simbolismo

Talvez as minhas preferid...

"Can we really make a dif...

Já experimentou esta técn...

Saúde nos media

o cinema do tempo

Porque a Grécia hoje não ...

Outras maneiras de ver, à...

Violência objetiva

Público contra Público

Poderei estar a ser injus...

Regeneração contínua

Já saiu

"Preveni-a contra si, car...

Uma "honra" o tanas, Sr. ...

últimos comentários
Tempos de sonho, que cedo se esfumaram em realidad...
Tem toda a razão. Hitler não está no Index. Quanto...
Se leu o meu comentário há de verificar que não di...
não será antes Hé Hé?
Há uns tempos atrás um amigo meu afiançava que a ...
A morte de dois jornalistas, como outras mortes, é...
Ó Xico você está a defender as Igrejas "estultamen...
Eh, eh, Shyz , o Texas tem o Rick Perry , Portugal...
Máquina de propaganda - cartoon!Tem versão portugu...
De facto errei completamente o alvo, mesmo mais do...
arquivo
tags

todas as tags

outros lugares
Subscrever feeds