
Se as pessoas fossem queijos, Vasco Pulido Valente seria amanteigado marca continente, digo, muitíssimo português. Breve: até eu que o julgava curado, inteiriçado dos de cortar com serrote, me desfiz em lágrimas ao abrir a primeira destas pastas de O Arquivo* e o vi sentado em cima da secretária, cigarro entre dedos, apijamado. Um anjo branco a contradizer Inês Pedrosa que em 1989 o descrevia estranhamente assim como assim “de fato-de-treino azul”, hã? (observe-se o documento acima reproduzido).
Enquanto remexo nos recortes, páginas e páginas de entrevistas, opiniões de Vicente Jorge Silva, prosa rococó pardais ao ninho de Eça Venâncio, claro: “objurga Pulido”e tal e tal que mais faço senão escaqueirar-me a rir. A imprensa gosta do Vasco que é bom companheiro e se presta a tudo e par de botas. Escreve um livro? Sai bife; vai escrever um livro? Entrevista; faz 52 anos e tungas; 60? Anda Valente e aos actuais 70? Olha, idem, idem, Lomba, Pedro engrupido por conta própria, culpa dele dada à estampa no Público do passado dia x, y, z.
Giro, giro é ver o que cada um consegue apanhar do chão que Pulido pisa (ler em voz alta: pulido-pisa) pois os escritos são estranhamente venerandos, atentos e obrigados, excepto os que escapam a este desígnio que pode muito bem passar por miúfa das origens aristocratas do senhor. Que me dizem?
Em 1992, Francisco Belard conclui no Expresso: “Levei tempo a perceber que falava exactamente disso”. Disso, o quê, perguntam-me os laços do cache-cœur. Não interessa. O que importa é o tom, a perplexidade, a repetição das mesmíssimas ideias feitas sobre o filósofo historiador que não frequentava o Vá-Vá embora fosse ao Vá-Vá e daí, quem sabe, a amizade com Fernando Lopes e a meia desfeita avec António-Pedro Vasconcelos (entrada patrocinada por Jean-Luc Godard). Enfim. O mais interessante e independente olhar, de todos os que para aqui tenho espalhados, está assinado pelo João Gobern (Visão, 20 de Julho de 1995) que repesca palavras de um amigo da infância Pulido que o retrata com actual precisão: “menino malcriado, narcísico, antipático, que fazia gala em chocar, egoísta e com tendência para falar sempre na primeira pessoa” e ainda afinfa com Maria Teresa Horta, mulher poema, camarada de Abril que também o topa e quem não imagina este Vasco que atire a primeira pedra: “menino gordinho de nove anos, (...) que já na altura era insuportável – partia-nos os brinquedos todos e depois dizia que não tinha sido ele, era hipócrita, grosseirão, que chegava, causava os distúrbios e atirava as culpas para os outros.” Isto tem muita piada.
O problema de escrever nunca foi, em meu entender, a erudição que execro, esse vomitar de nomes que ajuda a empurrar a coisa escrita para baixo, à semelhança do que me sucedia com as medonhas favas, mamutes verdes acompanhados por voz amiga: come-me isso com pão, miúda. Ah! Escrever é menos dramático e esforçado e apenas neste caso, também eu gosto do Vasco que o faz simples com a finalidade de informar, incomodar porque saber, sabe muito e se lhe falta mangar, em primeiro com as farroncas dele e só depois, atençãozinha, com as dos outros, é porque não ficou em Oxford. Aliás, por que não ficou ele por lá? Volto à papelada e não encontro pergunta nem resposta: então, Vasco, aquilo em Oxford é que era de estalo e voltaste porquê? Bom. Ninguém é perfeito. E assim chego, finalmente, à vez do wiki Lomba (sem Net és uma nódoa, não és? Que raio de idiotice ignorante é aquela do " Vasco já não é do tempo das tertúlias"? Ai, ai) deitado aos pés do Senhor na já referida efeméride dos 70 anos, ufa!: “E o contacto com aqueles sobre que [sic] se escreve?”, pergunta o puto. A resposta é de lana-caprina e previsível, mas vale a pena fechar isto com a resposta àquilo: “Não vejo por que é que um colunista deva ser capado politicamente.” De facto, companheiro Vasco, a verdade é que ainda não foi desta que te entrevistaram. Quem quer saber o que tu pensas, se todos te procuram para se verem ao espelho?
*O Arquivo é o nome que o Rolo Duarte deu às centenas de fotografias e recortes que coleccionou e arrumou em pastas numeradas. Memória viva que habita as estantes da Maria João Rolo Duarte, magnífica forma de perceber o mundo português. A feirinha cabisbaixa ou o seu oposto.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
