Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008
...A questão da tragédia está no centro das filosofias de Hegel e Nietzsche, e é através da consideração dessa questão que podemos entender as diferenças entre os dois filósofos. Para Hegel, a tragédia revela num modo estético a verdade dialéctica do homem e da natureza, aquela que é mais profundamente revelada na religião Cristã e na filosofia especulativa. O carácter trágico da Lógica Hegeliana, por exemplo, torna-se evidente através da morte das categorias, na negação das suas determinações simples e unilaterais, sem as quais não poderíamos entender a verdadeira complexidade do pensamento. E é essencialmente esse mesmo pensamento— aquele em que, para o homem ser trazido à vida verdadeira e à comunhão com outros, se torna necessário mostrar-lhe os limites da sua finitude e individualidade—que podemos entender o verdadeiro significado da religião cristã para Hegel. A crítica Hegeliana dirigida à filosofia estética e trágica de Nietzsche é dupla: por um lado, Nietzsche representou erradamente a natureza da arte trágica, pois apresentou-a como se fosse um produto da energia criativa do homem...e não algo que revela verdades que apontam para lá de um individualismo heroico em direcção ao valor da comunidade; por outro lado, que Nietzsche representou erradamenteo carácter da religião Cristã e da filosofia especulativa como se estas pertencessem a outro mundo e negassem a vida, quando, de facto, no seu entendimento particular dos limites trágicos da vida heroica, elas são muito mais realistas do que a posição de Nietzsche. Através destas representações erradas, Nietzsche foi capaz de defender o seu ideal enfático de uma individualidade exuberante como sendo a única esperança para o futuro da humanidade, denegrindo a mensagem Hegeliana e Cristã de comunidade e 'wholeness' (integridade?) como sendo fracas e abstractas...

Stephen Houlgate: Hegel, Nietzsche and the Criticism of Metaphysics, Cambridge University Press, 1986, pg. 218. A tradução manhosa é de minha autoria. É pena que o Rui Albuquerque e o RAF se contentem com Ayn Rands, Mises, Hayeks e companhia. E é pena porque assim abdicam de procurar entender a complexidade e as implicações mais profundas da individualidade que eles defendem. Eles são uma espécie de Nietzsche's inconscientes, mas sem um pingo que seja da sua profundidade, sabedoria e reconhecimento da tradição. A filosofia liberal na qual eles baseiam o seu pensamento é pobre, muito pobre. E não é mais do uma amputação do pensamento. Concordo com o que disse o Jacinto Bettencourt: eles limitam-se a repetir e a debitar categorias da escolástica liberal, ignorando, por completo, e militantemente, a questão do sentido, a questão do seu tempo, a questão do homem. Os posts do Rui e do RAF não pensam o homem ou o indivíduo, pois eles já o conhecem. Um pensamento político deduzido a um conjunto de certezas que são apenas afirmadas —o indivíduo existe e nós sabemos que ele é tal e tal—é uma traição absoluta à tradição fundada por Sócrates. Eles que fiquem com a sua 'clareza' e 'simplicidade', que estas coisas da filosofia não passam de 'barroquismos vazios' e 'excessos estilísticos' sem qualquer valor. É triste ver pessoas inteligentes a maltratar a disciplina fundadora do pensamento Ocidental do modo absolutamente seguros de si com que o fazem. Eles esquecem que grande parte das categorias que utilizam nunca foram consideradas auto-evidentes e são tudo menos 'claras'. Não existe uma réstia que seja de inquietação ou dúvida naquilo que escrevem. Isso pode ser muita coisa, mas, por favor, não lhe chamem filosofia.

3 comentários:
De nuno castro a 16 de Outubro de 2008 às 17:45
e..e...e...e conse..guem perceber alguma coisa da resposta dos piquenos? (eu hoje até tou gago)

depois, quem se fascina com Mises (que faz o Hayek parecer interessante) não deve grande coisa a essa outra coisa chamada "pensar".


De continuamos sem perceber « O Insurgente a 16 de Outubro de 2008 às 17:30
[...] Continuamos sem perceber, caro João, como se preenche o hiato entre o “indivíduo sem vontade”, essa tal “Vontade” que é uma “invenção cristã” para “ilibar Deus da sua responsabilidade”, e o homem social, o homem que vive e contacta com o outro. Até agora, mesmo sem meter o Zaratustra de Nietszche ao barulho (o que até considero que seria indesejável), parece-me que continua alguma coisa a falhar. Erro meu, certamente. [...]


[...] alguém me explica o que aconteceu? Utilização excessiva de Galambite? Eu logo vi que tanta prelecção e filosofia, histórias sobre gays da Nazaré, e isso de comparar-me com o Ruca, só podia acabar [...]


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