...A questão da tragédia está no centro das filosofias de Hegel e Nietzsche, e é através da consideração dessa questão que podemos entender as diferenças entre os dois filósofos. Para Hegel, a tragédia revela num modo estético a verdade dialéctica do homem e da natureza, aquela que é mais profundamente revelada na religião Cristã e na filosofia especulativa. O carácter trágico da Lógica Hegeliana, por exemplo, torna-se evidente através da morte das categorias, na negação das suas determinações simples e unilaterais, sem as quais não poderíamos entender a verdadeira complexidade do pensamento. E é essencialmente esse mesmo pensamento— aquele em que, para o homem ser trazido à vida verdadeira e à comunhão com outros, se torna necessário mostrar-lhe os limites da sua finitude e individualidade—que podemos entender o verdadeiro significado da religião cristã para Hegel. A crítica Hegeliana dirigida à filosofia estética e trágica de Nietzsche é dupla: por um lado, Nietzsche representou erradamente a natureza da arte trágica, pois apresentou-a como se fosse um produto da energia criativa do homem...e não algo que revela verdades que apontam para lá de um individualismo heroico em direcção ao valor da comunidade; por outro lado, que Nietzsche representou erradamenteo carácter da religião Cristã e da filosofia especulativa como se estas pertencessem a outro mundo e negassem a vida, quando, de facto, no seu entendimento particular dos limites trágicos da vida heroica, elas são muito mais realistas do que a posição de Nietzsche. Através destas representações erradas, Nietzsche foi capaz de defender o seu ideal enfático de uma individualidade exuberante como sendo a única esperança para o futuro da humanidade, denegrindo a mensagem Hegeliana e Cristã de comunidade e 'wholeness' (integridade?) como sendo fracas e abstractas...
Stephen Houlgate: Hegel, Nietzsche and the Criticism of Metaphysics, Cambridge University Press, 1986, pg. 218. A tradução manhosa é de minha autoria. É pena que o Rui Albuquerque e o RAF se contentem com Ayn Rands, Mises, Hayeks e companhia. E é pena porque assim abdicam de procurar entender a complexidade e as implicações mais profundas da individualidade que eles defendem. Eles são uma espécie de Nietzsche's inconscientes, mas sem um pingo que seja da sua profundidade, sabedoria e reconhecimento da tradição. A filosofia liberal na qual eles baseiam o seu pensamento é pobre, muito pobre. E não é mais do uma amputação do pensamento. Concordo com o que disse o Jacinto Bettencourt: eles limitam-se a repetir e a debitar categorias da escolástica liberal, ignorando, por completo, e militantemente, a questão do sentido, a questão do seu tempo, a questão do homem. Os posts do Rui e do RAF não pensam o homem ou o indivíduo, pois eles já o conhecem. Um pensamento político deduzido a um conjunto de certezas que são apenas afirmadas —o indivíduo existe e nós sabemos que ele é tal e tal—é uma traição absoluta à tradição fundada por Sócrates. Eles que fiquem com a sua 'clareza' e 'simplicidade', que estas coisas da filosofia não passam de 'barroquismos vazios' e 'excessos estilísticos' sem qualquer valor. É triste ver pessoas inteligentes a maltratar a disciplina fundadora do pensamento Ocidental do modo absolutamente seguros de si com que o fazem. Eles esquecem que grande parte das categorias que utilizam nunca foram consideradas auto-evidentes e são tudo menos 'claras'. Não existe uma réstia que seja de inquietação ou dúvida naquilo que escrevem. Isso pode ser muita coisa, mas, por favor, não lhe chamem filosofia.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
