Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011
tinhas um cabelo horrível. e os dentes também não eram famosos e tinhas deixado crescer a barriga, apesar de continuares a portar-te como se fosses irresistível (mas quem está livre disso, right?). eras desdenhosamente vaidoso em cada sílaba da voz upper class (que não eras), arranhada pelo whisky e pelo tabaco (a única vez que falei contigo, pelo telefone, seriam para ti, num quarto de hotel em la, umas 10 da manhã e pensei 'dás nele à grande, tu'), e adoravas ouvir-te. e aposto que adoravas ler-te -- como qualquer pessoa que aprecie frases poderosas, o perfeito domínio da língua, ironia e inteligência em colusão guerreira contra a estupidez, contra toda a estupidez (e é tanta).
e eras sempre veemente, oh tão sempre tão veemente, como se cada frase fosse feita para púlpitos de igreja (ironia, hã?), mas isso, que para muita gente deve ser um defeito insuportável, para mim era parte razoável, mais que razoável, do teu encanto, do teu insuportável encanto. cada texto teu na vanity fair parecia sempre pequeno de mais -- e ao lado dele tudo o resto tão sem graça nem wit, tão sem torrente, tão sem.
porque eras capaz de tão melhor ficava sempre furiosa contigo quando lia coisas tuas menos boas. como a auto-biografia e partes do god is not great (muitas partes, na verdade) e os artigos sobre o cancro (desculpa, não gostei de quase todos, mesmo se percebi que tinhas de os fazer). odiei tanta coisa na tua auto-biografia -- falares das tuas 'experiências homossexuais', tudo bem, mas tinhas de dizer que tinham sucedido com membros do gabinete de thatcher? -- mesmo se me impressionou a forma como falaste da tua família (a distância terrível, inultrapassável, entre ti e o teu pai, o teu amor irremediável pela tua mãe e pela sua tragédia) e como escreveste sobre o soldado morto no iraque, na guerra que como eu defendeste (e não imaginas como foi bom descobrir que alguém de esquerda, e logo tu, podia pensar o mesmo, e afrontar toda a sua ala do mundo, o seu lado das trincheiras, pelo mesmo motivo) e onde descobriste que alguém morreu por ti, exactamente por ti, pelas tuas palavras, pela tua vez, em vez de ti, e tiveste a coragem de te confrontar com isso e de dizer que não sabias se eras capaz de estar à altura (como estarias?).
estavas longe, muito longe da perfeição, fizeste coisas estúpidas e algumas bastante imperdoáveis ou pelo menos difíceis de entender (como contradizeres o teu amigo blumenthal quando testemunhou a negar que tinha dito mal da monica lewinsky, permitindo que fosse suspeito de perjúrio), tinhas momentos de algum ou muito mau gosto e sobretudo eras constantemente traído pela tua vaidade e pelo teu desejo de auto-engrandecimento (li uma crítica à tua auto-biografia que era terrível mas exacta nisso mesmo, imagino que te tenha doído).
mas escrevias tão bem. e eras tão tão inteligente, e usavas e gozavas tão bem a tua inteligência, e querias tanto ser um guerreiro da palavra contra tudo o que é mau, e querias tanto estar na primeira fila dessa guerra, bater-te com as tuas espadas nuas contra a maldade, a estupidez, o preconceito, o totalitarismo, a superstição. contra os bárbaros, sempre, sempre. ao ponto de teres admitido essa coisa inadmissível -- que te tinhas sentido quase feliz quando as torres gémeas caíram, porque de repente a guerra infinita entre o bem e o mal estava ali, no centro do mundo, e não era mais possível negá-la ou recusar um lado, não era mais possível dizer que não era preciso escolher.
tu escolhias. escolheste morrer a combater ou a citar -- boa literatura, orwell ou wilde, talvez. não sei como morreste. mas morreste, christopher. morreste neste ano terrível, o ano em que tudo parece mexer em todo o lado, para o bem e para o mal, e em que a história voltou à bruta, trazendo consigo ameaças e promessas de que ninguém consegue adivinhar o devir.
morreste logo agora, christopher. vais fazer muita, tanta falta. ao mundo -- e a mim.
De Vitor Botelho a 16 de Dezembro de 2011 às 16:01
Até sempre Hitchens .
De João Simões a 16 de Dezembro de 2011 às 16:13
muito bonito, e triste.
ainda hoje escrevi isto por razões idênticas (espero que não com o mesmo resultado):
«
Coisas (pequenas) que fazem (grandes) diferenças
Acabo de comer um pastel de tentúgal, e soube-me bem, estou no café nicola, e ela foi ali, ao celeiro verde, ela não comeu um pastel, apenas bebeu um café
E agora o pastel está às voltas, e eu dou comigo a pensar como um pastel pode fazer (faz) a diferença das nossas vidas
Ouço música jazz, em fundo, daquele antigo, em que o saxofone chora (comigo) e penso por que razão ela não pode comer um pastel de tentúgal
Voltou (fico feliz, porque o café ela pode beber) e vamos embora (sentindo a nostalgia de um café onde se ouve bom jazz)
Voltaremos, por muitos e bons anos, ao café nicola (e ao celeiro verde, ali) e ela tem um penteado bonito
(Coimbra, já passa do meio-dia, no dia de hoje).
...
(o cancro é um cabrão de um covarde...)
De
f. a 17 de Dezembro de 2011 às 01:37
boa sorte, joão. muita.
De João Simões a 17 de Dezembro de 2011 às 16:34
bj.
De Niamey a 16 de Dezembro de 2011 às 17:23
...mas se não for para dizer que aconteceu com membros do gabinete de thatcher, whats the point? e adiante daqui para fora:
"ao mundo -- e a mim" é a parte que me interessa mas preciso de caminhar até esse final.
foi a 1ªnotícia de que tive conhecimento hoje. àquela hora, as agências (imagens) ainda só tinham enviado umas 4 fotografias dele careca com tony blair. corri para aqui. nada.nada.nada. sentia uma curiosidade mórbida, só pode,por querer ler em 1º lugar este obituário.
para minorar a insatisfação, entretive-me a publicar something no facebook:
Christopher Hitchens: Why Women Still Aren't Funny (melhor não era possível, a não ser que fosse outro a dizê-lo).
voltei aqui. nada:"então?nunca mais? será que não pensou mil vezes no que haveria de...pensar no dia em que isto acontecesse? tão anunciada morte?".
muito se escreveu e disse e mais se continuará a dizer e a escrever sobre hitchens. não tou capaz sequer de mandar uma trivialidade sobre o homem e apeteceu-me fazer um comment consolo, não para uma perda mundial, mas para uma perda individualissima e num minúsculo e invisível ponto na terra, vista do google.uminha só.
aquela pessoa, em especifico, que sente uma admiração por hitchens, com tiques de devoção ao ponto de lhe amar os defeitos...ainda que não seja a única, é o mais provável.
para que serve? para nada, simplesmente no mesmissimo segundo em que soube da morte dele,o meu pensamento foi em direto, e sem passar pela casa de partida, para si f.(de fernanda). calhou-me fazer esta associação imediata ao saber da morte de christopher hitchens e assim sendo serve este relatório todo para lhe lançar daqui um abraço, num sad moment, talvez não sei.
De Jorge Gonzaga a 16 de Dezembro de 2011 às 17:31
Os dentes não eram famosos, mas ele chegou a tratar disso:
http://www.thesharkguys.com/wp-content/uploads/2010/08/hitchens-teeth.jpg
Estranho dia, vitórias e derrotas, luto e regozijo, tudo em tumulto no meu tão pouco espaço mental.
De
f. a 17 de Dezembro de 2011 às 01:39
ñ é photoshop?
De Jorge Gonzaga a 18 de Dezembro de 2011 às 18:51
I wouldn't know. O sacana conseguia sorrir mal abrindo a boca, sardónico e nós pedindo bis. Anyway, assim como arruinou os originais, pode ter conseguido arruinar qualquer outra cerâmica.
muito, muito bonito. beijo.
De
f. a 17 de Dezembro de 2011 às 01:39
bj para ti, querida.
De Fábio a 16 de Dezembro de 2011 às 17:51
Parabéns, f.
A pior notícia do dia deu fruto, colhemos todos o que é provavelmente o melhor texto do mês.
Bom fim de semana!
Grande texto, miúda. Tinha vindo "à pergunta" de uma notinha tua pr este teu homem hoje de manhã, eizia, bonita.
De xico a 16 de Dezembro de 2011 às 19:37
Não gostava do homem, mas gostei do texto (muito). Que descanse em paz.
De Pedro a 16 de Dezembro de 2011 às 21:05
Texto de pura inspiração. Parabéns.
Vi Hitchens na conferência de Livres Pensadores, na Casa Pessoa, que o trouxe a Portugal pela que seria a última vez. O Mundo perdeu uma mente brilhante, que o era mesmo até para o mais crente. Aproveitei a ocasião para que o meu 'Deus Não É Grande' ficasse autografado pelo autor.
Pode ter, finalmente, percebido que estava errado quanto à existência de Deus, mas continuará sempre a ter razão num ponto: a religião envenena tudo.
De Nuno Gaspar a 16 de Dezembro de 2011 às 21:22
Jugular está de luto. Morreu o alter ego da casa. Se levasse à letra as recomendação de Hitchens sobre o respeito ou da falta dele pelas ideias contrárias, poderia dizer que morreu um bêbado que sabia muito bem juntar as palavras de língua inglesa, mesmo para expressar ideias tontas. Talvez tenha sido algo mais. O vigor irracional do escárnio que alimentou sobre tudo o que lhe parecesse ter a ver com religião também foi, para muitos, um sopro nas brasas da sua Fé. E o modo desassombrado como abriu os olhos à própria morte, no auge da sua popularidade, cheirou a uma certa redenção. Os meus sentimentos.
De
f. a 17 de Dezembro de 2011 às 01:45
irracional? não. e para mim ainda mais incompreensível é esse sopro nas brasas. q outros ñ creiam e desprezem a ideia do divino dá + vontade d crer? porq? se crêem, se ñ duvidam, q importa q haja quem ñ creia nem duvide? ñ é como se ele quisesse passar à espada os seguidores dos deuses, persegui-los, ou impedi-los d crer. ridicularizava-os? desdenhava-os? deplorava-os? sim. e então? era suposto serem oh tão superiores a isso. e tão escusado -- digo eu -- mostrarem q ñ são.
De Nuno Gaspar a 17 de Dezembro de 2011 às 02:51
"q outros ñ creiam e desprezem a ideia do divino dá + vontade d crer? "
Não é o que os outros acreditam ou deixam de acreditar que dá mais ou menos vontade de crer. Ao contrário do que uns andam pr'aí a tentar ensinar, aquilo em que se acredita ou rejeita não é uma decisão que se aprenda, ou vem ter connosco ou não vem. Até porque nisso cada um sabe de si (ou deveria ser assim). É a pobreza de certas maneiras que observamos de olhar pr'às coisas que pode fazer querer ir à procura doutras que nos pareçam mais bonitas. Ou até a curiosidade céptica estimulada por tanto alarido e provocação que nos leva a investigar e desnovelar discursos inchados de falácias, ainda que eloquentes. O cavalo de vez em quando agradece espora.
De
f. a 17 de Dezembro de 2011 às 14:20
nuno, talvez ñ tenha noção d como argumenta a contrário. é divertido -- o christopher sorriria.
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