Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

Estamos já tão habituados a que nos baixem o rating que quando, como sucedeu esta semana, nos informam de que passámos de "democracia plena" para "democracia com falhas" num índice internacional - o da revista The Economist - ninguém parece muito preocupado, indignado ou sequer interessado (fosse há um ano, ai).

 

Caindo um posto, do 26.º para o 27.º, e trocando de lugar com Cabo Verde, Portugal fica em segundo na secção de democracias defeituosas, ainda assim acima da França (29.º), da Itália (31.º) e da Grécia (32.º). A Espanha tem dois lugares de vantagem (25.º), mas após tombo de sete. No topo está a Noruega e no fim do pelotão a inevitável Coreia do Norte. No relatório que sustenta o índice, frisa-se o contraste entre a luta das Primaveras Árabes pela democracia e as sombras que sobre ela impendem no seu berço, a Europa Ocidental, onde eleitos são substituídos por tecnocratas (Itália e Grécia) e o perigo do populismo e da xenofobia se adensa sob a égide da austeridade.

 

É aliás à crise económica e do euro e ao facto de o País ter perdido autonomia governativa que o relatório atribui o downgrading português. O índice é decerto discutível (como aliás todos os relacionados com percepções) mas vale a pena ler a parte em que se fala da noção de democracia e da forma de lhe aferir o grau. "A democracia pode ser vista como o conjunto de princípios e práticas que institucionalizam e em última análise protegem a liberdade", diz a Economist. E define as democracias com falhas como "países com eleições livres e justas e respeito pelas liberdades cívicas básicas, mas com fraquezas significativas noutros aspectos da democracia, incluindo problemas de governação, uma cultura política subdesenvolvida e baixos níveis de participação política". Bingo. Sucede é que esta descrição já se aplicava a Portugal desde o lançamento do índice, em 2006, e só agora nos passaram para os que precisam de melhoras.

 

Ora se esta democracia tem neste momento problemas muito graves de legitimidade governativa (quer ao nível de quem está a tomar decisões fundamentais - "poderes ou organizações estrangeiras", Economist dixit - quer do mandato, já que o programa que foi levado a sufrágio não coincide com o imposto), a ausência de reacção a essas ameaças demonstra que estruturalmente o País não preza a democracia e talvez nem perceba bem o que é e para que serve. Como o questionário da Economist lembra, a qualidade de uma democracia não depende apenas da dos governos. O apoio popular de que é alvo, a noção de que é a melhor forma de regime e de que beneficia a performance económica, não sendo contrária à manutenção da ordem, assim como a rejeição da ideia de que um executivo de "especialistas" e "tecnocratas" é preferível a um de políticos são aspectos fulcrais na saúde democrática. Não é uma coisa decidida "pelos de lá de cima"; é de nós que depende. E se tem defeitos são os nossos.

 

(publicado hoje no dn)

11 comentários:
De P. a 23 de Dezembro de 2011 às 12:07
eu, que nunca fui fã do Sócrates e me queixei de muita coisa da parte dele, desde muito cedo, confesso que quando li "ninguém parece muito preocupado, indignado ou sequer interessado (fosse há um ano, ai)", tive de me rir. há que convir: foi na mouche, lady f.

sobre o tema da crónica, independentemente do facto de estes rankings serem complexos, porque subjectivos,  nalguns casos estamos a assistir a uma regressão mental em situações tão claras. e o grotesco é ver tanta gente contente e a defender situações que roçam o indefensável. parece que o mini-salazar que havia em muitos de nós cresceu e engordou, mas com as gorduras deste parece haver pouca preocupação.




De Tiago a 23 de Dezembro de 2011 às 13:03
Estes relatórios valem sempre o que valem, os problemas democráticos ou da pouca intervenção política por parte dos cidadãos, vem já de muito antes de 2006. Começou com o Cavaquismo e a embriaguez dos subsidios europeus. Serviram para nos abstarirmos e desligarmos da nossa função como cidadãos de um país democrático. Demos por garantida a realidade democrática e engordámos.
Em relação ao facto de termos baixado um nível e uma das causas ser a perda de soberania governativa... enfim, seriamos um país mais democrata fora da União europeia?
O caminho para um putativo federalismo europeu é sinónimo de perda de democracia?


De f. a 23 de Dezembro de 2011 às 13:10
hum?


De João Labrincha a 23 de Dezembro de 2011 às 13:41
Cara Fernanda,

Quero que saiba que me sinto ofendido com uma sua afirmação, que me parece bastante desprovida de razão e fundamento: "a ausência de reacção a essas ameaças demonstra que estruturalmente o País não preza a democracia".

Eu, como centenas de milhares de pessoas (pelo menos), mobilizaram-se como nunca tinha acontecido neste país, pós 75, em defesa da democracia. Saímos à rua em grande número (começando a 12 de Março, passando pelas manifestações gigantes das centrais sindicais e por um "global" 15 de Outubro, com enorme adesão em Portugal). E mobilizámo-nos em processos originais e de vigilância democrática como Iniciativas Legislativas de Cidadãos, Petições, acções directas e protestos um pouco por todo o país, onde se foram fechando escolas, linhas férreas, centros de saúde, empresas etc. Até uma Auditoria Cidadã, coisa nunca antes vista por estes lados, se está a realizar, com a participação e apoio massivo nas redes sociais e fora delas.

Se a imprensa não deu relevância a algumas destas coisas? É natural... Não tivessemos nós descido no ranking de que fala... Mas eu sei que a Fernanda se informa, para lá da imprensa convencional. Por isso fico na dúvida: Será que estamos a falar do mesmo, quando nos referimos a "prezar a democracia"?

Compreende que, ao acusar (a meu ver injustamente) o cidadão comum, desresponsabiliza o actual e anteriores governos na culpa que têm na descida do rating?

Compreende que ajuda a dividir uma população já de si espartilhada? Mas que ainda luta!

Não me prolongo mais nas justificações que apresento para refutar a sua teoria acusatória de "todos nós", porque as "nossas" acções de vigilância democrática (de massas), neste ano, parece-me, falam por si.


De f. a 23 de Dezembro de 2011 às 17:49
joão, tem decerto todo o direito de se ofender com o que lhe aprouver. no caso, ofende-se com a minha opinião sobre a falta de apego dos portugueses à democracia, porque, de acordo com o joão, está toda a gente na rua, nos blogues, no fb, no twitter, nos fóruns radiofónicos e televisivos a protestar veementemente contra a deslegitimação governativa. além disso, acha o joão q estou a tentar desresponsabilizar os governos. bom, digamos, é uma maneira de ver. podia dizer-m ofendida por m acusar de desresponsabilizar os governos sem poder encontrar para tal o mínimo fundamento no q escrevo; mas se m ofendesse com todas as conclusões esdrúxulas q se retiram do q escrevo ñ faria mais nada. portanto, boa tarde e bom natal.


De Paulo a 23 de Dezembro de 2011 às 19:22
Liberdade? Governos? Escreva lá um artigo de opinião sobre a pressão do governo anterior sobre a sua classe, que agora está a ser dissecada no "face oculta" que veremos a sua a sua preocupação com o povo cair por terra.


De f. a 29 de Dezembro de 2011 às 01:34
a pachorra.


De Anónimo a 27 de Dezembro de 2011 às 18:26
bem, que forma de desconversar...


De Diogo a 27 de Dezembro de 2011 às 22:03

<i>«Como o questionário da Economist lembra, a qualidade de uma democracia não depende apenas da dos governos. O apoio popular de que é alvo, a noção de que é a melhor forma de regime e de que beneficia a performance económica, não sendo contrária à manutenção da ordem, assim como a rejeição da ideia de que um executivo de "especialistas" e "tecnocratas" é preferível a um de políticos são aspectos fulcrais na saúde democrática. Não é uma coisa decidida "pelos de lá de cima"; é de nós que depende. E se tem defeitos são os nossos.»</i>




Eu não tenho qualquer simpatia por Mário Soares mas ouçamo-lo aqui:

Mário Soares acerca dos Media no Programa "Prós e Contras" [27.04.2009]:
Mário Soares: [...] «Pois bem, agora um jornal, não há! Uma pessoa não pode formar um jornal, precisa de milhares de contos para formar hoje um jornal e, então, para uma rádio ou uma televisão, muito mais. Quer dizer, toda a concentração da comunicação social foi feita e está na mão de meia dúzia de pessoas, não mais do que meia dúzia de pessoas



Fátima Campos Ferreira: «Grupos económicos, é



Mário Soares: «Grupos económicos, claro, grupos económicos. Bem, e isso é complicado, porque os jornalistas têm medo. Os jornalistas fazem o que lhes mandam, duma maneira geral. Não quer dizer que não haja muitas excepções e honrosas mas, a verdade é que fazem o que lhes mandam, porque sabem que se não fizerem aquilo que lhe mandam, por uma razão ou por outra, são despedidos, e não têm depois para onde ir.» [...]


De f. a 28 de Dezembro de 2011 às 17:36
enfim.


De Niamey a 29 de Dezembro de 2011 às 15:04
1-há "dias Não" em que surge a tentação de omitir para sempre as "excepções e honrosas" cada vez que se fala em jornalistas portugueses. alguém nota ou repara nelas? são apenas exceções para confirmar a regra? esta necessidade de referir as raras exceções, para que serve? é apenas uma questão de estilo? é para não nos acusarem de generalizações grosseiras? só servirá para isso? 
2- suspeito que hei de ser para sempre aquele tipo de tipa que acha uma ingratidão da parte de um português dizer:"eu não tenho qualquer simpatia por Mário Soares"...mas?
não sei se trate disto ou deixe estar como está.
pronto, era um desabafo em 2 andamentos.


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