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jugular

a boy for all seasons

Nem tudo está perdido. Bem pode Passos Coelho fazer declarações insossas, e Gaspar que teime e insista em assumir a sua função soporífera-a-ver-se-assim-dói-menos; e mais cinzentões e boys insípidos que não sabem alinhavar duas frases com interesse ou produzir 30 segundos de discurso motivador que saia fora da cartilha bocejante. Nada disto interessa, nada disto importa. Olharam para o céu noturno ultimamente? Há uma nova estrela no firmamento. Pisca um laranjinha intermitente, com hoofer e smiley acoplados, uma espécie de mix Fernando Mendes com José Hermano Saraiva. E quem é, quem é? O presidente da JSD e deputado pela Nação, Duarte Marques de batismo, yo! Muito moderno (na verdade, pós-moderno, porque moderno era isto), como se vê pelas poses com que brindou uma recente entrevista ao Expresso.
Confesso que de início pensei que fossem snapshots de um teledisco do Pimba Mix Vol. 14, mas depois esclareceram-me que não, hrrmm, disparate, pá. É um deputado moderno e jovem, pfff, que velhadas me saíste. Não fiquei convencido, alguém estava a entrar comigo.  Até que tomei conhecimento do que escreve e das opiniões que emite. Tudo passou então a fazer sentido. Alguém que diz no twitter que "Um tipo pode mudar de mulher ou marido, ate de partido ha razoes bem plausiveis p isso, mas homem q é homem nao muda de clube!" sobe inevitavelmente na minha consideração, porque funde, numa genial síntese epistemológico-estrafilocóquica, uma modernidade ousada (um homem mudar de marido) com a boa tradição luso-marialva ("homem que é homem") e a inevitável pontinha de futebol. Depois visitei a página da JSD. A mensagem do líder tocou-me; sobretudo a parte, de fino recorte literário, em que diz que "A JSD tem de dar o exemplo! Tem de andar à frente dos outros partidos, e do seu próprio Partido (o PSD). A JSD tem de andar à frente do seu tempo e, sobretudo, do descrédito e imobilismo em que a Política e os políticos têm caído." Achei o "andar à frente" (ainda por cima, de tudo e mais alguma coisa) leve e suspeitamente revolucionário, mas compreendi que são ímpetos naturais da juventude.
Por fim, tive uma pequena comoção ao ler a opinião publicada ontem no i, uma pequena pérola de excelente português, ideias inovadoras e arrojo argumentativo. A crónica podia chamar-se "quando chegamos a meio já só falta metade", mas isso é o que diria um espírito simples. É preciso meter as pessoas, entorpecidas pelo bolo-rei e pelas filhós, a pensar um bocadinho, caramba. O texto começa por invocar os Descobrimentos, coisa ousada e nunca antes vista para elevar o moral das tropas. Até fala em "ultrapassar o Adamastor", bela e inédita metáfora, inspiração de um misto de auto-estrada com fervor patriótico, como se o dito fosse um velho chaço a circular a 40 à hora na A2. E ultrapassar pela direita, presumo, porque pela esquerda é sempre de franzir o sobrolho. Desconfio que o nosso garboso deputado pensa que o Adamastor era um grande calhau algures na África Meridional que metia medo aos marujos (como ouvi uma vez uma jornalista afirmar), mas isso, citando a imortal Teresa Guilherme, "agora não interessa nada".
O discurso abre com magnífica chave de ouro gongórica: "Chegámos ao fim do ano mais importante dos últimos tempos e entramos no ano mais decisivo da próxima década". Um simplório diria apenas que 2011 foi importante e está a acabar e que vem aí 2012. Mas um simplório não chega a deputado nem a lider da JSD. Nem escreve que "Salvar Portugal não se faz de olhos vendados e consciência ignorada" (só não percebi se é a boa, se a má-consciência) ou que "os nossos professores e estudantes têm de ser ainda melhores, os médicos, os advogados, os padeiros, os electricistas, os artistas, os vendedores, os pais e os filhos têm que ser ainda melhores pais e filhos, os amigos terão de ser ainda mais amigos". Não há crise que resista a uma prosa destas. Que pessimismo ou desânimo resiste a um "Se há povo para o qual não há missão impossível, esse povo é o nosso"? Vai-te Martin Landau, xooo Tom Cruise, salvé Duarte Marques.
Depois de um brilhante percurso, entre o evocativo e o votivo (desejar que, no próximo ano, as empresas "sejam mais solidárias nas exportações" remete certamente algum mistério esotérico), remata com a enumeração das qualidades lusitanas, um passo além do Candidato Vieira, que cantava -lembram-se?- o "Portugal alcatifado, bebe o vinho e canta o fado". Marques vai muito além do banal "temos queijo e temos paio" vieirino; relembra que Portugal, entre muitas outras qualidades (como o "melhor bolo de chocolate do mundo"), possui "uma das línguas mais faladas do mundo, o melhor treinador e o melhor jogador de futebol". Extraordinário. Um perfil de estadista perfeito. Não sei para que perdem os jornais tempo a fazer entrevistas à Popota. O deputíder tangerina bem que acenou para o texto no facebook e no twitter, mas andemos todos distraídos. Para mim chegou: já desfiz as malas com que planeava enviar os meus filhos por FedEx para Luganville daqui a uns dias. É que ocorreu-me que, na senda de Passos Coelho (líder da JSD entre 1990 e 1995) Duarte Marques pode um dia sentar-se em S. Bento. Talvez acompanhado do candidato Vieira em Belém, Portugal passará definitivamente de alcatifado a relvado. Só temo que Bruxelas lhe cace o talento entretanto e lhe atribua altas tarefas na Comissão Europeia. Ou, quiçá, na ONU, na NASA, no FMI, para o infinito e mais além. Um rapazote para a eternidade.

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