Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

Uf. Que ano. Tanto para reter, rever e digerir. Ficando por Portugal, comecemos pelo fim: o de 2011 e do prazo que o PR tinha para enviar o OE para o Tribunal Constitucional. Quando o orçamento ainda não fora sequer discutido no parlamento, Cavaco fez questão de dizer que extorquir os subsídios só aos funcionários públicos e pensionistas é "uma violação do princípio básico da equidade fiscal" - ou seja, é inconstitucional. Tendo como obrigação estrita e jurada fazer cumprir a Constituição, tinha de pedir a fiscalização preventiva de uma medida sobre a qual tem esta opinião; não o fez. O que só surpreende quem ainda não tivesse concluído estar no palácio de Belém um político inconformado com o facto de ter visto fugir, com a derrota de Ferreira Leite, a oportunidade de assumir uma presidência à francesa em que dirigiria, in loco ou não, o Conselho de Ministros, e que perante governos que não controla se especializou no toca e foge do discurso incendiário (quando não nas conspirações), sem jamais assumir as consequências. Que uma conduta deste teor possa passar sem sequer escândalo público (outra punição a Constituição, hélas, não prevê) indicia que o cargo de presidente, embora o mais alto da nação, é tão pouco levado a sério pelos portugueses como pelo seu actual detentor. O que suscita a questão óbvia: precisamos mesmo de um presidente? É que sempre se poupavam uns milhões, além das vergonhas.

 

A segunda lição do ano é para o PS. Como todos os partidos de centro-esquerda no poder quando a crise do euro levou a UE a mudar radicalmente a orientação das políticas, do hiper-investimento que foi a sua reacção ao crash financeiro mundial para a austeridade e a obsessão com os défices e as dívidas, cometeu o erro de não exprimir o seu desacordo e de não procurar dentro da União parceiros nessa oposição. Assumir as medidas de austeridade como suas e até como boas foi uma ingenuidade voluntarista que pagou, à bruta, nas urnas.

 

Terceira: parece que já se pode concluir com toda a certeza que, ao contrário do que BE e PCP tanto repetiram, o PS no governo não é igual ao PSD e ao PP. Pena que toda a gente, mesmo a que já suspeitava, tenha de pagar, e com língua de palmo, a aula prática. E que quem mais precisasse de a aprender dê mostras de ainda não ter percebido, o que - quarta lição - nos diz que jamais o BE e o PCP viabilizarão governos de esquerda, criando espaço (vide os 40% de abstenção nas legislativas) para uma nova força política, capaz de alianças com o PS.

 

Mas, claro, podemos não precisar mais de partidos. Se o golpe de Estado europeu que está a substituir a democracia representativa por um império "dos mercados" vingar, seremos governados por "especialistas". E, quinta lição, parece que é mesmo possível fazer isso sem enfrentar grandes indignações e resistências. Se calhar, andamos a levar o desígnio de Passos tão a sério que nos cremos - e queremos - pobres até no espírito.

 

(publicado hoje no dn)

8 comentários:
De Shyznogud a 30 de Dezembro de 2011 às 11:47
Este texto do André Freire fica bem nos comentários ao teu post http://twitpic.com/7zrcwi


De f. a 30 de Dezembro de 2011 às 14:14
se fica. grande andré.


De Pedro Almeida a 30 de Dezembro de 2011 às 11:53
"criando espaço (vide os 40% de abstenção nas legislativas) para uma nova força política, capaz de alianças com o PS."


Nova referência à criação de um partido, que curioso.
Vão mesmo avançar com o PVS?


De f. a 30 de Dezembro de 2011 às 14:14
hum?


De A.Silva a 30 de Dezembro de 2011 às 12:38
O que a f. nos parece querer fazer esquecer é que as politicas praticadas por este governo têm no geral a aprovação do PS, tal como no governo de Sócrates, as suas politicas tinham a aprovação do PSD/CDS. No fundo o acordo da Troika é a continuação do PEC IV, tal como este era a continuação do PEC III.

Não foi o BE e o PCP que recusaram alianças à esquerda, foi o PS e sobretudo o PS de Sócrates que recusou qualquer alteração de conduta politica que permitisse um acordo minimo à esquerda.

A verdade é que o PS prefere aliar-se à direita do que à esquerda, porque na verdade a sua politica económica e social é a mesma que a de Gaspar e companhia, a verdade é que este PS é de direita!


De f. a 30 de Dezembro de 2011 às 14:15
pois, é disso mm q falo: vira o disco e toca o mm.


De A.Silva a 30 de Dezembro de 2011 às 15:33
Quando fala em virar o disco e tocar o mesmo, está a referir-se ao disco que de um lado tem PS e do outro PSD, com um CDS que tanto lhe dá estar de um lado como do outro?


De fernando f a 30 de Dezembro de 2011 às 13:05
Há muito que eles sabem que não é igual, o problema foi eles interiorizarem que dizer mal do PS, é uma espécie de abono de família. O BE já viu que a coisa pode-lhe sair pela culatra, o PC vai vendo com o andar da demografia. Dito isto, o PS, melhor Sócrates, não fez tudo para arregimentar a esquerda, ou não é verdade que compete ao mais forte fazer a aprroximação!?, quando se foi buscar Vital Moreira para entrar na esquerda, melhor seria que se fossem buscar ideias e não os fogachos com que por exemplo, António Costa abriu o congresso de ESpinho.


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