Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

Eu sei que, tal como eu e uma minoria de privilegiados, o senhor teve todas as oportunidades, incluindo durante as ditadura de Salazar e Caetano, para vir a fazer parte da elite do regime. Felizmente, tal como eu, teve oportunidade de assistir ao fim do regime ditatorial e fazer parte da elite do regime democrático. Agora o senhor é ministro de um governo liderado por jovens da Direita política, cuja mobilidade ascensional social, como a da generalidade dos portugueses, mas ao contrário da sua, foi possibilitada (e bem) pela democratização social, política e económica proporcionada pelo Estado social dos últimos 36 anos.

 

Esperar-se-ia que essa possibilidade de mobilidade social ascensional da qual os jovens governantes e elementos da actual elite beneficiaram fosse agora retribuída, aprofundada, alargada progressivamente a mais pessoas e deixada em herança aos que vêm depois de nós. O que se verifica, porém, é algo de muito diverso. Através de uma política de empobrecimento geral dos portugueses – descontando como sempre uma minoria – e do desmantelamento do Estado social, da Escola Pública e do Serviço Nacional de Saúde que estão a ter lugar em Portugal (mesmo para além da Troika), vê-se que quem hoje governa em Portugal e já beneficiou da democratização social, económica e política considera que esse bem seja um privilégio apenas detido por aqueles que já o têm.

 

 

Como alguém disse, eu já vivi nesse país pobre em que cada um nascia para uma determinada função, da qual não podia escapar. Eu já vivi nesse país, cuja norma elitista era «a cada um o seu lugar» e não gostei nada. Penso que o senhor ministro da Educação também não terá gostado. Vem isto tudo a propósito do programa «Novos Oportunidades», tão combatido e ridicularizado pela Direita política e acenado como arma de arremesso e de exploração das invejas nacionais. Suponho que o senhor Ministro não alinha com as críticas, pois, caso contrário, acabaria com o programa na sua totalidade.

 

Como não extinguiu o programa, suponho que concorda com a ideia de que as Novas Oportunidades não só constituem um instrumento de reforço de qualificação e profissionalização, com evidentes resultados para o progresso e crescimento económico português, como representam uma possibilidade de mobilidade social ascendente e um regresso aos estudos de todos aqueles que, devido às vicissitudes da vida não puderam prolongar o seu processo de aprendizagem.

 

Em Novembro, eu pude tomar conhecimento do excelente e muito dinâmico trabalho levado a cabo pelo Centro de Novas Oportunidades do Seixal. Suponho que, mais do que eu, o senhor ministro saberá do que falo e tem a noção de que se trata de um programa com enormes potencialidades e aspectos positivos.

Mas então – pergunto -, em vez de alargar, aperfeiçoar e aprofundar o programa, por que optou por eliminar vinte centros, retirando a muitos portugueses a possibilidade de aceder a novas oportunidades e colocando no desemprego todos os seus funcionários. No mínimo, o senhor ministro dever-nos-ia dar uma explicação pormenorizada, baseada em números e estatísticas que possibilitem encontrar resposta para as seguintes perguntas:

 

 - Porque vai fechar essas escolas?

 - Que maus resultados apresenta o programa Novas Oportunidades que justifiquem uma tal destruição?

 


27 comentários:
De Anónimo a 30 de Dezembro de 2011 às 16:52
Muito bem, doutora.
Quem o viu e quem o vê.
Há mudanças de comportamento inexplicáveis, ou talvez não...!


De Irene Pimentel a 30 de Dezembro de 2011 às 17:13
o seu a seu dono: confirmei ter sido Isabel do Carmo, num artigo recente no jornal Público, que disse ter vivido num país igual ao que aparentemente querem que volte e não ter gostado.


De fernando f a 30 de Dezembro de 2011 às 18:08
Sim, o cavalheiro esqueceu-se, se  é que alguma vez se lembrou, que para uns milharzitos estudarem, uns milhões começaram a trabalhar aos 10/11 anos, no tempo da ditadura senhora. Ou talvez não, talvez perfilhe da máxima que para haver uns quantos ricos, têm que haver muitos milhões de pobres, daí  as medidas  (para além da troika) para nos empobrecer monetária e intelectualmente. Bem- haja pelo post.


De Sofia Loureiro dos Santos a 30 de Dezembro de 2011 às 19:11
É a direita no poder.


De Jorge a 30 de Dezembro de 2011 às 18:59
O meu pai fez as novas oportunidades. Ia lá de vez em quando. Eu fiz o trabalho final, que lhe deu um diploma a dizer que agora tinha o 9º ano. Este programa criou um sistema paralelo injusto. Alguns (poucos) estavam e tiveram vontade de aprender. A maioria era porque lhes era «imposto» ou porque ficavam com um papel. A ideia é boa, a execução ficou a desejar. Quando o diploma é garantido à partida....


De Tiago a 31 de Dezembro de 2011 às 10:35

Jorge o Estado tem a obrigação de proporcionar aos seus cidadãos condições para que estes ascendam socialmente. O acesso ao conhecimento não só é uma ferramenta essencial para um melhor desempenho profissional, como o é também para uma muito melhor qualidade de vida pessoal.  Através do programa das Novas Oportunidades o Estado, o governo, permitiu aos seus cidadãos o acesso ao conhecimento. Como em tudo na vida parte-se do princípio que as pessoas que se envolvem neste tipo de programas o fazem para desenvolver o seu bem estar, isto é, para que possam ascender socialmente. A única vertente que o Estado não controla, não o pode nem o deve, é a seriedade das pessoas envolvidas.


De Bruno Miguel Oliveira a 2 de Janeiro de 2012 às 18:58
Jorge, existem Universidades Privadas no país em que o Diploma é muito mais garantido à partida do que nas Novas Oportunidades, basta haver dinheiro! E tal como os "doutores" que saem dessas Universidades, quem acabar as NO sem mérito, como o seu pai, só se está a prejudicar a si próprio e isso terá reflexos quando arranjar um emprego e tiver que demonstrar algo do que aprendeu.
No entanto, o grande objectivo do Programa é dar um diploma àqueles que outrora não tiveram possibilidades para estudar e que agora podem certificar o que aprenderam ao longo da vida, pois decerto concordará que mesmo quem tira um curso superior, apenas adquire a maioria do conhecimento com a prática que advém do ingresso no mercado de trabalho, ou não?


De Teresa Pizarro Beleza a 30 de Dezembro de 2011 às 19:08
Este governo faz-me lembrar alguns colonos portugueses que, tendo tido sucesso enquanto tal, eram brutais na sua exploração e maus tratos dos 'índígenas'. A Irene tem razão: parece que querem guardar tudo para uns poucos que 'lá chegaram' entretanto. O que mais me dói ver destruído é o SNS, porque me lembro do empenho da minha Mãe, católica, monárquica e supostamente conservadora, mas muito mais 'socialista' que muitos encartados, a construir o quadro jurídico do dito. E me lembro muito bem do que era a Saúde em Portugal quando eu era pequena. Ou a radical diferença no acesso à educação e a tudo o resto que dependesse de riqueza e estatuto social. Como membro das classes privilegiadas em Portugal, e apesar de ser mulher e do proverbial atraso nacional, não tive dificuldade em chegar ao ensino superior ou de ter acesso a muitos bens culturais e à 'formação política'. Também muito disso devo a minha Mãe, uma pessoa invulgar. Hoje, ao fim de trinta e sete anos de democracia, que finalmente chegou tinha eu 22 anos, tenho vergonha e uma enorme mágoa do que estão a fazer do meu País.


De Irene Pimentel a 30 de Dezembro de 2011 às 19:21
Reconheço-me tanto no que a Teresa diz.


De Carlos Fernandes a 30 de Dezembro de 2011 às 19:27


 
  As "elites" , ah, pois, as "elites", mas a Troika e os chinoca(s) dos Three Gorges & Companhia agora é que mandam e são as elites...


De alf a 30 de Dezembro de 2011 às 20:27
As novas oportunidades preparam as pessoas para o mercado de trabalho; num país com quase 40% de abandono do ensino, acabar com novas oportunidades é uma boa ideia - metade da população vai ter de ser marginal e assim mais depressa cai o governo.


Preparar para o mercado de trabalho é ensinar empreendedorismo, um mínimo de finanças, word e excell, além de alguma actividade para a qual a pessoa seja especialmente dotada - coisas que os brilhantes alunos do liceu nem sabem o que seja, ocupados como estão com as fanerogâmicas e o sistema triclínico. Aliás, este ministro acabou com as aulas de informática a partir do 9º ano.


A ideia deve ser forçar pessoas à escravatura - toca a retirar tudo o que seja «oportunidades» -  oportunidade de não ser escravo. O que se quer é escravos. 


Estes tipos não estão no Governo para tratarem dos interesses das pessoas em geral mas dos interesses do Capital ( e de "certas" pessoas)


De helder a 30 de Dezembro de 2011 às 22:41
Só falta mandarem os gajos das novas oportunidades comerem sopinha.


De JgMenos a 31 de Dezembro de 2011 às 13:43
"mobilidade ascensional social...possibilitada (e bem) pela democratização social, política e económica proporcionada pelo Estado social"
E não só:Antifascistas de 74 subiram na vida aos milhares à força de saneamentos e outros meios; Passagens admnistrativas; Coladores de cartazes e treteiros afins...
Novas oportunidades é das menos más e até seria boa se houvesse dinheiro para fazer algo de sério.
Quanto aos empregos que se perdem, provavelmente haverá de perder muitos mais para que se estabeleça o princípio de que o útil, não é o desejável, mas o possível.
 


De ana martins a 31 de Dezembro de 2011 às 17:42
O Programa Novas Oportunidades não é isento de erros, de confusões estratégicas (na relação com a ANQ , por exemplo). Mas faz parte de um novo (em portugal ) paradigma na educação e formação de adultos, daí o ressabianço grotesto que advém do gozo transversal q a direita tende a fazer do Programa. Não conhecendo, não entendendo o papel do saber fazer, ficam presos ao reconhecimento da única educação que tiveram (tão escolástico quanto inclinado no acesso).
O parti-pris deste Governo e, em particular, deste comentador chegado a Ministro (tocado tão de perto pelo virus Medinis Carreiribilis ), no que concerne a educação e formação de adultos, não é novidade. Em campanha, Passos Coelhos nem fazia a menor ideia do q seria um curso EFA . 
Dos textos que Nuno Crato, pré-Ministério, colocou cá fora, ressalta isto: uma profunda má-fé na avaliação dos modelos de ensino.


Por isso, surpresa nenhuma. Supresa nenhuma quando mandou encerrar 20 CNO's, quando a famosa avaliação do programa ainda nem sequer está concluída. Surpresa, nenhuma. 


De andresilva a 1 de Janeiro de 2012 às 01:17

Não é passando um papel, um falso diploma, que não serve para nada que há mobilidade social. Não confunda mobilidade social e aprendizagem efectiva com um diploma engana tolos.


De nuno.rezende@gmail.com a 1 de Janeiro de 2012 às 11:40
Não sei se a Irene fala com conhecimento de causa. Se foi discente ou docente (os teórico chamam a cada um formando e formador) do programa NO. Eu fui formador e tenho a dizer-lhe que este é, provavelmente, o maior embuste da história da educação em Portugal. Que se defenda o reforço do ensino paralelo, da motivações para seguir outras vias que não a do ensino regular (nocturno, profissional, tecnológico, etc), mas que se alimente os alunos com um discurso absolutamente vazio, sujeitando-os a um trabalho de corte e cose para cumprir etapas ou módulos, sem lhes dar ferramentas minimamente pertinentes ou estimular  um conhecimento fundamentado e que efectivamente sirva um futuro profissional ou simplesmente pessoal. Não vi nada disto durante o tempo que fui formador. Bem pelo contrário, apenas desinteresse e desilusão por parte dos formadores. Bem sei que o NO não é, como a maioria dos grandes planos políticos, um desígnio cívico, mas ideológico e, nesse sentido, entendo que o PS o quisesse acalentar e agora o PSD o queira destruir. Fossem, formadores e formandos, capazes de discernir o que realmente falta a este país: deixar de pensar em pólos ou de marchar ao som de esquerda e direita. Essa é verdadeira educação. De facto, nada ou pouco mudou deste o Estado Novo que a Irene bem conhece, dado que a uma ditadura de um partido sucedeu uma partidocracia, ou ditadura de partidos, em que o cidadão é sempre o último na escala de interesses dos políticos. A Irene, como historiadora, podia contribuir para esta educação, em vez de defender uma educação ideológica, como foi apanágio da II República. É pena que não o faça.


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