Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012

depois de uma noite muito animada no twitter a debater a existência, necessidade e objectivos da maçonaria e outras organizações secretas em sociedades democráticas, com alguns jugulares a defender, como augusto santos silva no seu facebook, que os detentores de cargos públicos não devem poder fazer parte de sociedades secretas (curiosamente, ecoando uma lei salazarista de 1935), enquanto outros (meu caso), embora pouco, para não dizer mesmo nada, apreciadores de sociedades secretas e com grande incapacidade de perceber o seu sentido e objectivos em democracia, não vêem como será possível exigir/proibir tal coisa e, sobretudo, com base em que bom princípio (a 'total transparência' sendo para mim uma utopia totalitária e portanto horrífica), uma observação de josé adelino maltez também no facebook, vista pela shyz, conduziu-me à descoberta da existência de um acórdão de maio de 2007 do tribunal europeu dos direitos humanos que considera que tal medida, posta em prática numa região italiana, colide com os princípios da convenção europeia dos direitos humanos, nomeadamente com o direito de livre associação e com o princípio da não discriminação.

 

não sendo este tribunal, como de resto nenhum, detentor da verdade e muito menos da justeza, parece-me que esta decisão faz todo o sentido. e se, friso, a existência de sociedades secretas em democracia me repugna, repugna-me ainda mais a obsessão com uma suposta virtude feita de alegada transparência. não sei, é certo, o que fazem os maçons quando se reúnem e que objectivos perseguem na sua associação; mas sei que não posso nem devo poder ou querer controlar tudo na vida dos detentores de cargos públicos (ou doutros actores públicos com igual ou maior poder, como os jornalistas, por exemplo). não posso nem devo poder ou querer controlar ou até perguntar as amizades nem os amores nem as relações familiares, nem as opções religiosas dessas pessoas; não posso nem devo poder ou querer saber com quem jantam, almoçam, lancham, dormem, falam ao telefone. e se decidem encontrar-se periodicamente com outras pessoas numa associação a que chamam secreta, que diferença faz isso em relação a encontrarem-se periodicamente com outras pessoas para, em segredo, jogarem à canasta a dinheiro?

 

dir-me-ão que está provado que nas lojas maçónicas se congeminam conspirações, tráficos de influências, carreiras, negócios, assaltos ao poder. como em qualquer café, restaurante e casa de família; como em qualquer banco ou empresa se for caso disso.

 

se me perguntarem, prefiro que os meus representantes não façam parte de sociedades secretas. mas não creio ter legitimidade para exigir que tenham de escolher entre elas e um cargo público. porque não acho que algo, só por ser secreto ou segredo, seja suspeito ou maléfico; porque não acho que algo, só por ser transparente, seja bom.

 

e também porque me faz mesmo muita confusão que tanta gente pareça tão obcecada com hipotéticas conspirações e tráficos e quando uma conspiração das da bayer é desmascarada, envolvendo apenas o mais alto cargo da nação e um jornal, fique tudo a assobiar para o ar, quando não aos urros por se terem revelado mails 'privados'. pelos vistos, associações secretas só fazem engulhos se forem formalizadas e meterem sedes e ritos e aventais; se incluírem só encontros em cafés na avenida de roma, dossiers sobre assessores (que nunca ninguém manifestou interesse em saber de que constavam, feitos por quem) e lançamento de acusações gravíssimas a governos legítimos em pré-campanha eleitoral, não têm qualquer importância.

 

vão bugiar, amiguinhos.

 

 

11 comentários:
De Ana Matos Pires a 6 de Janeiro de 2012 às 02:40
Não participei na discussão twiteriana mas estou contigo.


De António C. Mendes a 6 de Janeiro de 2012 às 10:09
De pequeno se faz um filho da mãe.

http://www.youtube.com/watch?v=EUI3QVvaYFc&feature=player_detailpage (http://www.youtube.com/watch?v=EUI3QVvaYFc&feature=player_detailpage)





 


De JgMenos a 6 de Janeiro de 2012 às 10:59
No mínimo é de exigir a deputados e outros detentores de cargos públicos declaraçãi de que 'não estão vinculados à obediência a quaisquer entidades ou associações, secretas ou não secretas, pelo que são livres de exercer o seu mandato em liberdade de consciência'.


De augusto santos silva a 6 de Janeiro de 2012 às 12:15

Cara f., se me permite, uma precisão: a) não defendi que os políticos e afins não pudessem pertencer à maçonaria, defendi sim que uma das condições (políticas, não necessariamente legais) para o exercício de cargos políticos é que o possam revelar, isto é, assumir publicamente; b) não creio que a maçonaria seja uma sociedade secreta; c) por favor não confunda a minha posição, que versa, como é claro nela, sobre a situação democrática, com os tempos ditatoriais, em que não só a maçonaria como muitas outras organizações não controladas pelo regime tinham de ser clandestinas.


De f. a 6 de Janeiro de 2012 às 13:20
caro augusto, sendo a maçonaria é uma sociedade secreta, quando li 'Quem não estiver em condições de poder revelar publicamente este tipo de filiações e interesses não tem condições para o exercício de cargos públicos', depreendi q considera não poderem os maçons exercer cargos públicos. é que, sendo verdade que há quem se assuma como maçon, exactamente q problema se resolve ao sabermos q não sei quem é maçon, se a maçonaria continua a ser uma sociedade secreta?


De primaveraverao a 6 de Janeiro de 2012 às 12:24

Com o devido respeito por n opiniões em que a liberdade individual é considerada intocável, gostaria referir a conversa livre e privada que P.Pereira teve ontem na QC.

Para quem pouco sabe de maçonaria foi bastante esclarecedora.

Entre Lojas que há séculos poderiam fazer sentido quando à porta fechada se debatia uma sociedade obscura que necessitava de luz, e as lojecas de que ouço falar para, tudo leva a crer, obscurecer o que deve ser claro, não tenho dúvidas, a quem serve esta  liberdade individual e o fim em si.

A liberdade individual só o é quando não colide com a dos outros e muito menos pode manipular toda a sociedade.

Sobre outros silêncios, quem sabe não não são comprados em lojas onde tudo se vende sem licença.


De f. a 6 de Janeiro de 2012 às 13:21
o pacheco pereira teve 1 conversa privada na tv? eheheheh. já nem preciso de comentar o 'livre'.


De primaveraverao a 7 de Janeiro de 2012 às 00:45
Altero para : aberta, esclarecedora,clara e, naturalmente pessoal, privada : dele.
Para quem sabe tão pouco foi interessante perceber o alcance  e a teia de interesses que as lojas lojinhas e lojecas promovem nesta sociedade tão obscura afinal.

Com todos os defeitos de propagandista duma certa área do psd, PP tem por vezes um discurso que aparenta, na minha provável ignorâncai, saber do que está a falar e fazê-lo de forma credível em matérias que referem factos históricos.

A escandalosa campanha Pacheco Pereira/M. Ferreira Leite de ódio e busca de assassinato de carácter do Engº Sócrates, denuncia a parte mais negra de PP.

Jamais esquecerei as longas horas de inquérito parlamentar da mais feroz e caluniosa perseguição pessoal sobre o homem e o político.

Essa é a vergonha dum propagandista rasteiro se souber ver-se ao espelho.
O tiro já saiu pela culatra a ambos.

Outra coisa é a conversa sobre  maçonaria que levanta o véu do perigo de grupos com perfil de seita poderem estar a controlar todos os poderes.

Se esse esclarecimento me puder chegar pelo PP, não devo ignorá-lo.

Quanto ao jeito de escrever, deixe isso para lá e aprofundemos esta questão tenebrosa.











De jgMenos a 7 de Janeiro de 2012 às 18:41
Olhe que o PP também teve muita conversa 'aberta, esclarecedora, clara e, naturalmente pessoal, privada : dele' sobre o Engº Sócrates. Achava-o, e presumo que ainda acha, execrável!


De Sofia Loureiro dos Santos a 6 de Janeiro de 2012 às 22:57
Considero esta súbita "necessidade de transparência" mais um atentado aos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. E não deixa de ser interessante apenas se citar a Maçonaria, esquecendo-se, por exemplo, a Opus Dei (embora para o caso seja exatamente o mesmo).


De João Marques a 9 de Janeiro de 2012 às 09:37
E não virá alguém, já agora, para clareza das situações, dos impedimentos e condicionamentos, pensar em mandar colocar na lapela de cada cidadão, um (ou mais) emblemas (com pelo menos 8 cm de raio) demonstrativos das suas filiações e convicções.
Ex.:
Maçon - Compasso Opus Dei - Crucifixo
Católico - Nossa Senhora de Fátima
Judeu - Estrela de David
....


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