Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012

A reforma do regime de arrendamento é um dos assuntos mais adiados da democracia portuguesa. Aliás, o problema tem mais de 100 anos: congeladas pela primeira vez em 1910, as rendas habitacionais só seriam submetidas a atualização condicionada a partir de 1948, com a exceção de Lisboa e Porto, voltando a ser congeladas em todo o País após o 25 de Abril de 1974.

 

A atualização com base na inflação é permitida a meio da década seguinte, com aplicação de um coeficiente extraordinário nas rendas mais antigas, e nos anos 90 acabam os contratos vitalícios - mas só nos novos arrendamentos, que são de celebração livre. Em 2004, o Executivo Santana tem pronta uma reforma que inclui negociação da renda entre proprietário e inquilino (como a atual) quando cai. O de Sócrates exara um diploma que permite atualizar as rendas antigas com base em avaliações oficiais dos imóveis, solicitadas e pagas pelos proprietários. Mas essa avaliação, além de poder implicar a obrigatoriedade de obras, implica também atualização do IMI. Mais: além de condicionadas ao estado do imóvel - não raro resultado do baixo valor das rendas pagas durante décadas -, as atualizações também dependem da idade e do rendimento do inquilino (a idade e o rendimento do senhorio nunca vêm ao caso).

 

Havendo versões díspares sobre o número de contratos de arrendamento em atualização com base na anterior lei, é evidente que ainda não foi esta a restituir aos proprietários o que é seu. Quanto ao diploma agora apresentado, apesar de propagandeado como uma alteração total das regras, mantém muitas das perversões dos regimes que o antecederam. O primordial é o entendimento do proprietário de um imóvel, que paga por ele impostos e é responsável pela sua manutenção e conservação, como acumulando ainda a obrigação de assistencialismo. Não existe, em todo o panorama jurídico português, uma tutela semelhante sobre um bem privado. E note-se que nem sequer se pode justificar a exceção com o facto de se estar a falar de habitação: no crédito bancário, quando as pessoas incumprem não há tratamentos diferenciados em função da carência económica ou da idade; o Estado não fixa o valor das prestações consoante o rendimento disponível. E decerto ninguém discute que quem não paga as prestações tem de sair da casa que pagou com juros - já a ideia de "facilitar o despejo" do inquilino incumpridor cria engulhos generalizados.

 

A ideia de que estar do lado do bem e dos fracos é "defender os inquilinos" e de que "defender os senhorios" é alinhar com os fortes e ricos sorri a muita gente, sobretudo à esquerda. Mas que ideia de igualdade sustenta um apartheid do mercado de arrendamento baseado na data dos contratos? Que noção de justiça aclama a expropriação extrajudicial de bens de privados para poupar dinheiro ao Estado e aliviar-nos as consciências, enquanto ao lado se perdem casas por não se poder pagá-las à banca?

 

(publicado hoje no dn. o artigo foi escrito de acordo com o acordo)

19 comentários:
De JgMenos a 6 de Janeiro de 2012 às 11:08
Sendo a inveja um mal nacional; o roubo a seguradoras um procedimento bem tolerado; o 'fossado' transcontinental uma glória histórica; o desrespeito pelo capital vai para além da ideologia e é uma herança bem preservada.


De k. a 6 de Janeiro de 2012 às 13:03
Concordo

É triste, mas em Portugal, o dono do imovel é muitas vezes o "inquilino", e não o senhorio; Além de isto ser uma distorção económica estupida, mesmo em termos redestributivos, é parvo. Porque nem toda a gente que paga rendas baixas é pobre, e vive em casas a cair.. e os que são efectivametne pobres e vivem em casas a cair, não têm sequer a possibilidade de pensar em mudar de casa (e pagar uma renda incomportavel).

O estado devia apoiar directamente o arrendamento, mas não fixando administrativamente regras, dando sim dinheiro a quem tem falta dele.. no brainer


 


De Augusto a 6 de Janeiro de 2012 às 14:03
O direito á habitação é um direito que vem inscrito,  na nossa Constituição.


Portugal tem falta de habitação social ,e no entanto  existem milhares de casas devolutas , e  a apodrecer por todo o país.


A ditadura nunca resolveu este problema, as milhares da familias que viviam em Bairros da Lata, nas grandes cidades , só há muito pouco tempo tiveram uma resposta .


Se existem rendas baixas hoje , já foram muito altas há alguns anos.


O rendimento obtido no investimento imobiliario,  é muito superior e com menos riscos,  ao investimento em depósitos bancários ou em acções. 


Num momento em que a crise e a insegurança atinge um numero crescente de familias, fazer   uma lei que  altera totalmente  o regime de arrendamento urbano, é não ter NENHUMA SENSIBILIDADE SOCIAL.


E nestes momentos  tem de haver uma clara definição dos campos,  quem defende NESTE MOMENTO uma alteração geral do regime de arrendamento urbano,  atingindo as rendas antigas,  e as familias de menores recursos, coloca-se claramente do lado da barricada,  dos  promotores de DESPEJOS.


De f. a 6 de Janeiro de 2012 às 15:10
'Se existem rendas baixas hoje , já foram muito altas há alguns anos'. é. tudo subiu, incluindo os impostos, mas as rendas ficaram na mesma, e isso é absolutamente justo e muito saudável e justo. e claro que a ideia de alguém q arrenda um imóvel não pode ser ganhar dinheiro, porq isso é pecado -- só para o arrendamento. e claro q independentemente do valor das rendas auferidas o proprietário tem a obrigação de fazer obras a preços actuais para manter em bom estado o imóvel q só é seu para o efeito de nele gastar dinheiro. olhe, não m quer arrendar o seu carro? pago o q m apetecer mas é o sr q paga o seguro, os arranjos e a gasolina. tá? ou isso ou é uma pessoa má q quer o meu mal.


De Augusto a 6 de Janeiro de 2012 às 19:09
Diz-se que uma das razões desta alteração é a falta de casas para arrendar.


Totalmente falso,  basta descer a Alexandre Herculano virar á Av da Liberdade e seguir para a Baixa, são centenas de casas vagas, se os senhorios têm o direito de ganhar dinheiro com o seu bem, neste caso o imóvel, porque não alugam as casas, é capaz de me responder?


Sabe o que se passou com o RECRIA.


Senhorios receberam fundos do Governo ( NOSSOS IMPOSTOS) , fundos da CEE ( IMPOSTOS DE CIDADÂOS EUROPEUS),  e tiveram linhas de credito a juros muitos baixos,para que fizessem obras nos prédios,uma das  condições era  não despejarem inquilinos, e as parcelas devolutas fossem para arrendamento, com  preços controlados.


Sabe o que se passou, uma vez o prédio recuperado, exerceram pressôes escandalosas   sobre os inquilinos para sairem,  e uma vez obtido esse objectivo , os prédios foram vendidos em propriedade horizontal o que deu GRANDES LUCROS a estes senhorios especuladores, e ninguem nem a Fernanda Cancio levantou a sua voz,  contra esse ESBULHO de fundos públicos.


Aliás as rendas têm sido actualizadas ao valor da inflação, é falso que se tenham mantido na mesma.


Se houver um debate sério, o primeira problema a ser colocado, é a tentativa de ROUBO, que o governo se prepara a fazer com a alteração do IMI.


Era CONTRA esse roubo que eu gostava de ver a Fernada Cancio e a Associação dos Inquilinos  protestarem.


Mas não!!!  espantoso , até parece que era por uma situação destas,  que os senhorios  esperavam,  para justificar uma aumento incomportavel das rendas.


Vamos ter muitos despejos cara Fernanda Cancio, mas se o Governo,  ( COM OS NOSSOS IMPOSTOS) , não subsidiar a recuperação urbana, verá que teremos Lisboa e outras cidades do País a cairem de podres, mas com  todas as rendas a partir de 500 euros. 


De Augusto a 6 de Janeiro de 2012 às 19:25
Já agora o exemplo do carro é mal escolhido.


Pois quem paga o seguro, os arranjos pequenos e grandes no interior das casas,são os INQUILINOS,  que ao longo dos anos e pagando renda, tentam manter um bem,  no melhor estado possivel.


E um dia quando sairem  por livre vontade,  ou despejo, como certamente agora se irá passar,  em muitos casos, deixam uma casa  valorizada.


É que o carro , se não fôr um Bentley um Austin Martin,um Bugatti ao cabo de meia duzia de anos vale ZERO, um andar com o tempo aumenta sempre de valor,  e se não for o prédio é o terreno.


Esqueceu-se deste pequeno prmenor cara Fernanda Cancio.


 






De Filipe Moura a 7 de Janeiro de 2012 às 03:35
" e claro que a ideia de alguém q arrenda um imóvel não pode ser ganhar dinheiro, porq isso é pecado -- só para o arrendamento."


Fernanda, da minha parte sou contra o lucro em qualquer atividade especulativa - incluindo o arrendamento (obviamente também não concordo com o prejuízo).


"independentemente do valor das rendas auferidas o proprietário tem a obrigação de fazer obras a preços actuais para manter em bom estado o imóvel q só é seu para o efeito de nele gastar dinheiro."


Isto é falso em geral.


De Ricardo Alves a 9 de Janeiro de 2012 às 23:45
Não sabia que o arrendamento é uma actividade especulativa. É assim como meter dinheiro na Bolsa?


De Filipe Moura a 9 de Janeiro de 2012 às 00:51
"Claro que a ideia de alguém q arrenda um imóvel não pode ser ganhar dinheiro, porq isso é pecado -- só para o arrendamento."


Fernanda, sou contra o lucro (pelo menos exacerbado) de qualquer atividade especulativa. (No caso do arrendamento também não defendo o prejuízo do senhorio, mas acho que quem quer ganhar dinheiro deve trabalhar (só).


"independentemente do valor das rendas auferidas o proprietário tem a obrigação de fazer obras a preços actuais para manter em bom estado o imóvel"


Isto é falso. Senão, os meus pais podem mandar-te as faturas de todo o dinheiro que gastaram em reparações indispensáveis - nem falo de beneficiações - pelas quais nunca receberam dinheiro nenhum. (Não estou a discutir se deveriam ter ou não recebido - só estou a refutar o que disseste.)


De f. a 9 de Janeiro de 2012 às 01:00
filipe, desculpa, tu estás mm a fazer lei da experiência dos teus pais? e, já agora, para a lei ficar completa, quanto pagam os teus pais d renda, por q tipo de imóvel e onde e há quanto tempo?

quanto ao facto de achares q não deve haver arrendamento privado, bom, suponho q é melhor arrendar ao banco. a ñ ser q a tua ideia seja q as pessoas deviam construir cabanas c as suas próprias mãos.


De Filipe Moura a 9 de Janeiro de 2012 às 01:26

Afinal o primeiro comentário sempre existiu! Tu é que demoraste dois dias a aprová-lo.


Fernanda, conforme compreenderás prefiro não entrar em pormenores desse género. Apenas faço notar que tu própria, na tua resposta, ao fazeres-me essas perguntas sobre a situação dos meus pais, implicitamente admites que existem casos em que a tua afirmação
"independentemente do valor das rendas auferidas o proprietário tem a obrigação de fazer obras a preços actuais para manter em bom estado o imóvel"

não é verdadeira. Era só isso que eu queria dizer (e foi isso que disse no primeiro comentário).


"quanto ao facto de achares q não deve haver arrendamento privado"


Eu não disse que não deveria haver arrendamento privado. Apenas disse que o arrendamento não deveria ser uma atividade muito lucrativa.


De Tiago C a 6 de Janeiro de 2012 às 14:14
É a velha pescadinha. Não se aumentam as rendas por a habitação estar degradada, o senhorio não promove melhoramentos por as rendas serem baixas.
O Estado neste caso actua tendo por base a má-fé com que julga os cidadãos proprietários de imóveis. E que os há, não tenho dúvida. Mas uma coisa é afrontar uma qualquer associação lisbonense de senhorios e impor-lhes regras como estas, outra  é exigir o mesmo tratamento a entidades bancárias. A corda parte sempre pelo lado mais fraco.


De Manolo Heredia a 6 de Janeiro de 2012 às 14:54
O que aconteceu de facto foi que os bancos conspiraram no sentido de chamarem a si as mais-valias que dantes eram apropriadas pelos pequenos proprietários. Conspiração que depois se alargou aos pequenos comerciantes (com o financiamento dos hipermercados e cadeias de super-mercados de proximidade), e aos pequenos industriais (com o financiamento de fusões e aquisições). Em breve essa lógica vai alargar-se à prestação de serviços de saúde e de educação.

Comprar uma casa com recurso a empréstimo bancário pagável em 35 ou 40 anos é, objectivamente, um arrendamento camuflado, com nítidas desvantagens para o comprador pois ficam a seu cargo a manutenção (prestação condomínio), seguro, e quaisquer outras despesas com a casa. E o seguro tem que ser feito na Companhia que pertence ao Banco! negócio churudo!

A destruição do Estado Social está na ordem do dia desde que caiu o muro de Berlim, pois, apesar de tudo, o Estado Social que se praticou na Europa-Livre (!) foi sugerido pela prática social da União Soviética. Foi para travar a expanção a Oeste das ideias soviéticas que os governantes europeus do pós guerra aceitaram adotar leis de protecção dos trabalhadores e de outras classes menos favorecidas. Esses mesmos governantes que sempre estiveram do lado do Capital.

Não me parece que a evolução das leis que regulam o arrendamento de habitação venha contrariar esta tendência. Os Bancos ficarão sempre a ganhar.
 


De Romeu a 6 de Janeiro de 2012 às 23:02
" Foi para travar a expanção a Oeste das ideias soviéticas que os governantes europeus do pós guerra aceitaram adotar leis de protecção dos trabalhadores e de outras classes menos favorecidas. Esses mesmos governantes que sempre estiveram do lado do Capital."

Ou seja, está a dizer que os governantes capitalistas adotaram leis socialistas para travar ideias socialistas. Ir para a esquerda para travar a esquerda não me parece lá muito eficaz...


De Manolo Heredia a 7 de Janeiro de 2012 às 08:57
Foi isso mesmo que eu disse. As reivindicações das classes trabalhadores do lado de cá tinham muito poder de persuasão junto dos governantes porque "ali ao lado" os trabalhadores tinham muito mais regalias que do lado de cá (habitação, saúde, transportes, etc.). O termo de comparação das regalias dos operários do lado de cá era com as dos operários de lá, a meia-duzia de quilómetros de distância. Se os governantes capitalistas esticassem muito a corda podia dar-se o reviralho ... ou, no mínimo, o desejo de aderir ao socialismo soviético aumentava muito do lado de cá.


De Carlos Fernandes a 6 de Janeiro de 2012 às 18:40


  Esta lei de facto deixa muito a desejar, e não creio que vá dinamizar o mercado de arrendamento. Os despejos, teoricamente podem ser mais fáceis, mas na pratica, como diz o Juiz Rui Rangel (na crónica que assinou recentemente no CM), parecem ser é um puzzle infantil. Donde, muitos proprietários, (onde me incluo, sendo que eu estou há meses a perder dinheiro à espera de uma nova boa lei para arrendar 2 casas que tenho, e em zonas prime do concelho de Oeiras), vão preferir perder dinheiro e não arrendar para já, e esperar mais uns meses  para a Banca dar crédito e  
"deixar de anavalhar" o mercado imobiliário e a economia e então aí optar por vender as casas.


De Romeu a 6 de Janeiro de 2012 às 22:58
Muito bom texto, f.!

Também acho um absurdo esta cena do Estrado obrigar os senhorios a desempenhar a função assistencialista do Estado, ainda para mais completamente distorcida.

Se há alguém a precisar de apoios para habitação o Estado que os forneça e que compense com receita fiscal essa despesa, nem que seja por impostos sobre os lucros no arrendamento e no crédito habitação, por ex..

E, neste caso, é tudo uma tolice ainda maior porque, se for preciso, grande parte das pessoas que vivem nessas casas não são pobres que não possam pagar as rendas ou não têm necessidade de viver em casas ou zonas com o valor de mercado em que vivem.


De pink a 7 de Janeiro de 2012 às 10:26
 A Fernanda tão progressista e defensora dos mais fracos:homossexuais,mulheres,,crianças,e bem! agora toma partido contrário e defende os pobrezinhos dos proprietários que,ao contrário de 90% dos portugueses, herdaram a propriedade e a arrendaram a bom preço ao tempo...vivendo à custa dos antepassados, alguns cidadãos iníquos..

Há distorções e é preciso corrigi-las,mas o lado mais vulnerável é a dos inquilinos, exceto aqueles que tem patrimonio, incluindo casas, e tiram partido das rendas baixas praticadas, E há mtos  e bem conhecidos!



De f. a 9 de Janeiro de 2012 às 01:01
portanto s bem percebo tudo depende. tá bem.


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