Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012
Paulo Pinto

A questão salta ocasionalmente para as primeiras páginas dos jornais, geralmente com títulos bombásticos: os portugueses terão sido os primeiros europeus a chegar à Austrália, novas provas do descobrimento português da Austrália, a história deste país está prestes a ser reescrita. Na berlinda, uma nova obra sobre o tema ou, como ocorreu ontem, a descoberta de um objeto que alegadamente reforça a tese. Tudo isto alimenta um certo orgulho nacional e promove uma determinada ideia de que os portugueses foram os primeiros (e os melhores) em praticamente tudo. Depois, subjaz a noção de que há uma verdade ainda por ser revelada (esquecida no pó dos séculos ou propositadamente ocultada pelo establishment das potências do norte da Europa); é isso que faz o argumento de boa parte da recente vaga de romances históricos, um "documento" que revela verdades escondidas durante séculos, um "descobrimento secreto", "a verdadeira história de...", ou, ainda, uma conspiração bem urdida e protegida por interesses poderosos, para impedir a divulgação de uma "verdade" que revolucionará a perceção da História. Basta falar de Dan Brown ou de José Rodrigues dos Santos para saberem do que estou a falar. Esquecida temporariamente a alegada "nacionalidade portuguesa" de Colombo, resta a descoberta portuguesa da Austrália.

Tudo isto são construções que resultam quase totalmente das nossas preocupações presentes e da forma como as projetamos no passado; tem muito pouco a ver com História. Em tempos de crise, não faltam os resquícios míticos dos "Descobrimentos", da "Idade do Ouro" e da "decadência", ou seja, como foram os portugueses os melhores, os primeiros, os mais geniais, num tempo já perdido. Nem sequer o facto de Portugal ser um país pequeno, pobre e de limitados recursos, deixa de constituir um argumento assaz repetido, porque torna tudo mais incrível, aumenta o tom de improvável e de fabuloso. Já D. Manuel, rei messiânico que se cria escolhido pela Providência para planar acima dos comuns monarcas da Cristandade, usava o mesmo argumento: Deus favorece os pequenos e os sucessos das armadas portuguesas na Ásia só podem ter origem maravilhosa e predestinada. A isto, os portugueses (de ontem e de hoje) adicionam fel, puxam por contrastes (reais e imaginários) e fazem uma mistura agridoce: de tão bons que fomos, os melhores do mundo, chegamos a isto, como é possível termos descido tão baixo, depois de tão elevados vôos. Sai mais um fado para a mesa do canto. E a Raça Poruguesa espera, entopecida e inerte, um novo despertar.

Ontem correu a imprensa nacional a história da descoberta de um alegado canhão português na costa australiana. Amanhã explicarei porque é que isto é uma peça quase irrelevante de um mosaico complexo, que há enquadramentos necessários a fazer e que há, finalmente, que separar factos de ficção.

 

adenda: a imprensa portuguesa diz coisas muito originais, mas que explosão de criatividade que vai por essas redações, hein? ora veja-se: o DN diz que "Portugal ocupou Timor, em 1515, mas a possibilidade dos nossos exploradores terem viajado no início do século XVI mais cerca de 700 quilómetros, até à costa norte da Austrália, ainda está por provar". E que dirá o Correio da Manhã? Isto: "Portugal ocupou Timor em 1515, mas a possibilidade dos exploradores lusos terem viajado no início do século XVI mais cerca de 700 quilómetros, até à costa norte da Austrália, está por provar." Hmmm e o i? Coisas originais: "Portugal ocupou Timor, no sudeste asiático, em 1515, mas a possibilidade de os exploradores lusos terem viajado no início do século XVI mais cerca de 700 quilómetros, até à costa norte da Austrália, ainda está por provar." E que tal o o JN?:"Portugal ocupou Timor, no sudeste asiático, em 1515, mas a possibilidade de os exploradores lusos terem viajado no início do século XVI mais cerca de 700 quilómetros, até à costa norte da Austrália, ainda está por provar. Bom, talvez o Expresso: "A História diz que o primeiro contacto europeu com a Austrália data de 1606, aquando da chegada de um navio holandês. Já os portugueses ocuparam a ilha de Timor um século antes, estando a 700 quilómetros da costa australiana. A sua presença nesse país continua ainda por provar. Bestial. começamos mal, para já: Portugal não "ocupou Timor" em 1515 coisa nenhuma; esta data é a tradicionalmente aceite para assinalar a data da chegada dos portugueses, mas a fixação só se veio a verificar muito mais tarde; a "ocupação", então, só alguns séculos depois. Capice? Amanhã continuo.

2 comentários:
De primaveraverao a 12 de Janeiro de 2012 às 17:23
Tiriste, triste, triste é que é geral :
tvs, jornais, revistas e rádios.

Repetem, repetem, repetem, igual, igual, igual e mal, mal, muito mal !

Agora o que me atormenta de verdade é que, de repente, cliko e, não sai som.

Preciso de ouvir a quinta e todas as outras muitas vezes.
Ficou mudo?

Será que é só comigo?
S.O.S.


De Paulo Pinto a 12 de Janeiro de 2012 às 23:36
problema técnico... a nossa equipa especializada já está a tratar do assunto, ficará resolvido ainda hoje.


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