Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

Quando em Julho de 2008 Manuela Ferreira Leite disse que o casamento não devia ser possível a casais do mesmo sexo por "se destinar à procriação", foi a pateada geral. Mesmo no partido de MFL muitos foram os que dela se demarcaram, a começar por Passos Coelho, que se disse a favor do casamento das pessoas do mesmo sexo e da adoção por casais de homossexuais.

 

Três anos e meio após o pronunciamento de MFL, de resto muito atreita a dar voz às ideias mais cavernosas, com a vantagem não despicienda de as trazer à luz, o parlamento agendou uma atualização da lei de procriação medicamente assistida (PMA). Em causa estão quatro projectos de lei: dois do PS, um do PSD e outro do BE. O debate deveria ter tido lugar ontem mas foi adiado a pedido do PSD, que ainda não finalizou o seu diploma. Consensualizado sabe-se já estar o levantamento da interdição da maternidade de substituição, ou seja, o "empréstimo" do útero de uma mulher para albergar a gravidez de outra que esteja dela impedida. O grande debate vai ser pois entre os que defendem o acesso de qualquer mulher às técnicas de PMA(os projectos do BE e da JS) e os que, como o presidente do grupo parlamentar socialista, Carlos Zorrinho, e da ex-ministra da Igualdade Maria de Belém (primeiros subscritores do outro projecto do PS), querem manter a restrição desse acesso a casais heterossexuais, casados ou em união de facto.

 

Já incompreensível (e provavelmente inconstitucional)em 2006, esta restrição surge seis anos depois em contradição insanável com a legislação existente e, vinda do PS, como total incongruência. O partido que em 2007, na descriminalização do aborto até às 10 semanas, afirmou confiar às mulheres e só a elas a decisão de terminar ou não uma gravidez demonstra assim não as considerar capazes para tomarem a decisão de iniciar e se responsabilizarem por uma; o partido que se bateu pela igualdade de acesso ao casamento e ridicularizou a ideia de que este visaria "apenas a procriação" diz agora que a procriação só deve suceder em casal heterossexual.

 

E que interesse, pergunta-se, visa esta restrição proteger? Sabe-se qual a resposta do costume: "o de uma criança crescer com mãe e pai". A isso, porém, não se precisa sequer contraditar com a diferente, e fundamentada, opinião de dezenas de estudos sobre o desenvolvimento harmonioso de filhos criados só por uma mãe, só por um pai, por duas mães ou por dois pais; basta lembrar que a lei já permite a inseminação de uma mulher com o embrião resultante de um processo de PMA no qual "participou" um homem entretanto morto.

A ideia de quem defende esta restrição só pode então ser a de impedir o nascimento de (mais) crianças desejadas. E certificar a Ferreira Leite que, afinal, quem tanto a gozou estava afinal a disfarçar, na vozearia, o comprometimento com o mais ultramontano preconceito e com a mais básica discriminação.Os seus fantasmas, em suma.

 

(publicado hoje no dn)

5 comentários:
De JgMenos a 13 de Janeiro de 2012 às 12:57
Nesta voragem de estabelecer o princípio de nada proibir, vão-se todos os padrões de comportamento que nos trouxeram até aqui.
O 'admirável mundo novo' está perto de nos cair em cima.
Ser humano, ter instintos e preconceitos dizem-nos ser coisa para esquecer!
Já ser normal, é matéria que só deve interessar aos anormais; para os que o não sejam, tudo tem que ser tomado por normal (palavra que julgo venha a desaparecer em futuro acordo ortigráfico).


De Niamey a 14 de Janeiro de 2012 às 01:24
imagino que seja contra a PMA para heterossexuais, JgMenos. se for, ponho um like no seu comentário...e sem ironia.


De primaveraverao a 13 de Janeiro de 2012 às 14:00

Proponho que se considere um prazo de validade para opinar sobre matérias em que a sensibilidade, as hormonas e o intelecto já prescreveram.

Tal é o caso de MFL.

Depois dos 18 e até que a natureza lhe dê a bênção qualquer mulher pode decidir cumprir o que é de sua natureza.
Já não há isso de pai e mãe lado a lado na maioria dos casos.

Há mulheres e homens que querem, gostam e sabem cuidar de crianças.

Tenham dó e avancem, ho velhos do restelo decrépitos.


De R.Esteves a 13 de Janeiro de 2012 às 14:26
Bem relembrado o ressuscitar desse fantasma.
Fica muito mal ao PS do Zorrinho este caminho que quererá seguir.
Se calhar para 2015 andamos todos a aplaudir o pagamento de hemodiálise para maiores de 70 anos.
Até nestes assuntos estamos a regredir.


De xico a 13 de Janeiro de 2012 às 18:34
Acontece que o PS na voragem de ser moderno e fugir a críticas (porque todos estes debates estão inquinados com considerações como aqui se fazem a MFL) tornou-se num oxímoro. O resultado fica à vista.
Os argumentos do desenvolvimento harmonioso, etc. e tal, também podem conduzir ao argumento que uma instituição gerida com os mais modernos métodos educativos desenvolverá muito mais harmoniosamente uma criança que um casal (aqui com o valor semântico da palavra) (já foi defendido por Bertrand Russel, embora os filhos não achassem muito graça). E pronto. Está lançado o caos no debate. Como o sexo puro e duro deixa de fazer sentido para a procriação (ainda é possível afirmar que é para isso que a natureza o criou?), passará a ser possível ao Estado começar a cobrar imposto pelo prazer que ele proporciona. Um taxímetro à cabeceira é cenário que não está já muito longe, quando temos partidos oxímoros que não tem a coragem de chamar os bois pelos nomes. MFL tem essa coragem, embora não tenha o dom da oratória.


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